Toda noite, quando fecho os olhos para dormir e acomodo meu cérebro num travesseiro de flores e estrelas, Deus acende seus belos refletores de vertigem sobre mim para que eu veja encantado no verso das pálpebras a última imagem do dia glorioso que acabei de viver. E a legenda me dizendo amarela: “To Be Continued”.
Começar a escrever um livro sempre me parece mais difícil que escrevê-lo todo. Mas, depois que li o Retrato do Artista quando jovem e vi como Joyce começou, criei coragem.
Principalmente agora, que da vida só temos o resto.
“Memento mori” — sussurra-me Deus. É fatal.
Olho na engrenagem do espelho profundo e pergunto:
— Será que existe um outro modo bom de se viver?
Fico pensando e acabo sonhando.
Eu sonho tão alto que o próprio barulho me acorda.
E me desperto perguntando se há no mundo melhor coisa que ser feliz. Vejo estrelas no teto, repito a oração como se fosse reza e me espreguiço gaiarsa, felino, gostoso — sorrindo. Mas me levanto só depois que gargalho. Se não acho motivos para gargalhar também não os acho para levantar. Enquanto isso, faço contas complicadas de cabeça, abraço a Vênus de Milo, calculo logaritmos a olho, traduzo algumas frases do latim, reconstruo mentalmente um ranchinho de sapé, imagino cúpulas geodésicas no quintal da nossa casa, visualizo Marlon Brando sem destino. Acordo já fazendo ginástica com meu cérebro, pois não quero teias de aranha nos neurônios. E sinapses, só as brilhantes me excitam. Potencializo-as com lógica e amor.
(Toda emoção, você sabe, é produto do raciocínio.)
Acordo e me levanto, deslumbrado e respirando, cheio de luz — iluminado portanto de novo — e de mim.
Meus dias começam assim.
Viro um construtor de pirâmides.
“Não sei o que dói mais...” — eu adoro fazer comparações. As palavras já nascem madrugantes na minha língua portuguesa. No meu pensamento. Crio analogias. Invento coisas
E continuo não sabendo o que dói mais.
“Se é o eventual castigo pelo desejo realizado, puro, livre, satisfeito — ou se esse mesmo desejo sufocado no peito, contido, esmagando a minha alma...”
— Não sei o que dói mais!
É o dilema entre exercer a liberdade ou viver na escravidão. Daqui a pouco eu volto a falar desse assunto. (Deu uma vontade de escrever “capoquinho eu vórto a proseá essas coisa...” — como se eu estivesse de novo em Dublin).
Sinceramente, não sei.
Só sei que, aos treze anos, menino ainda, sentado no cinema do interior, acabei misturando Pitágoras, Pasolini, Antonio Visconti, Samuel Barbosa e Sônia Maria Fernandes para fazer uma promessa: “Todas as minhas relações de amor serão triangulares: eu, o outro — e a Outra.”
A relação é um tripé, e dasaba se um deles faltar.
Mas já notou que entre você e a liberdade sempre existe um muro, baixo, feito de tijolos e ciumentos? Salte logo essa barreira: a vida está lá do outro lado!
— É impossível ser feliz sem liberdade.
Pensei que esse assunto só viria mais tarde, mas tem que ser agora. Afinal, você pode sofrer um colapso na página dez e morrer sem saber o que eu digo. Ser transformado em cinzas por um ataque suicida, ou levar tiro de um ciumento, quem sabe.
Enfim... O que eu digo não é uma provocação: é um desafio emocionante: é a possibilidade aberta de escolher o próprio caminho na vida. Nada mais — nada menos! É um convite à transformação pessoal. A busca por algo fundamental à dignidade humana.
O que proponho vai no sentido de romper com esse marasmo em que tua vida se transformou. Uma radical e consciente ruptura com essas normas morais injustas, e com tudo o que de alguma forma te oprime e faz sofrer.
Você hoje mais tosse do que ri...
Tijolos quentes e ciumentos frios!
Só quando assumes ter um dono é que ficas dispensado de lutar. Até peço ajuda a uma segunda pessoa para te chamar à Razão. Ser escravo é muito fácil: qualquer idiota consegue. Reaja!
(O que eu digo é mais ou menos isso. Até o fim do livro vai ser esse o assunto. Até o fim dos meus dias vou ficar falando dessas coisas. E se a você não interessam tais assuntos, feche o livro e me abandone. Se não puder me dar atenção me dê sossego!)
Um outro dia, ainda adolescente, quando estava começando a entender a vida, escrevi minha definição de amor.
“Amar é sempre permitir, é deixar que o outro vá — ou que fique, se assim o desejar. Amar é ter respeito absoluto pela própria liberdade e pela liberdade do outro. Amar é compreender sempre. E isso não significa só entendimento racional, vai além, muito além: Amar é reconhecer afetuosamente o direito que o outro tem de fazer suas escolhas.”
(Mesmo que as escolhas eventualmente me excluam.)
Quem não concorda com tal idéia de amor não merece o meu.
Aliás, eu recuso o amor de quem não ama a própria liberdade antes mesmo de me amar.
Porque o amor tem que ser livre — em todos os sentidos.
E toda mudança, você sabe, requer um plano.
À vezes, plano esboçado em folha de papel, outras vezes, um plano intuído no cérebro do homem. Mas a mudança mais gostosa é aquela que só requer plano inclinado, por onde vamos escorregando em óleo de amêndoas como se fosse no corpo de um grande amor, deslizamos até a borda — e então saltamos no vazio do belo escuro profundo da vida.
Quando as coisas resistem às idéias e o mundo resiste aos sonhos — não devemos mudar de sonhos nem mudar de idéias: temos é que mudar de coisas e mudar de mundo.
(Ah, “Memento mori” quer dizer “lembra-te que morrerás”.)
Eu gosto de mudar. Descendo de Heráclito!
— Só o que está morto não muda.
Sempre troco um grande entusiasmo por outro maior ainda.
Amores, vou tê-los muitos para que os tenha sempre — esta, a melhor filosofia. Ousei amar diferente, tive coragem de continuar puro nos meus relacionamentos. Alguns querem punir-me por tanto, mas sobrevivo, sobre todos. E o que mais indigna meus detratores é que há lirismo na minha obscenidade.
São poéticas as minhas transgressões.
Quando enfio a cabeça pela janela da parede da vida, já não sei se estou olhando para fora de mim ou para dentro. E mergulho nessa alegre correnteza interna onde eu rio fluente de mim mesmo — líquido, cristalino, vibrante.
Por isso eu digo.
Nunca deixarei de ser jovem: há minas no meu coração.
Mesmo quando tiver mais idade, serei um véio de ouro, e as garimpeiras de amor sempre vão querer me encontrar.
Sei que preciso acelerar o acontecer das circunstâncias, tenho que aumentar o tamanho e a freqüência dos fatos que me circundam, trazer Deus em pessoa para jantar comigo às vezes, tomar um vinho com Ele, inundá-Lo de carinho e gratidão.
— À luz de velas!
Deus sempre foi generoso comigo, mas.
Tenho que resistir aos ataques da mediocridade quotidiana e me afastar da jacarezada. Quero encher de glória os buraquinhos que os ratos pensam fazer no pão da minha vida. Preciso reagir, tornar-me um subversivo, abandonar as hienas, jogar fora tudo o que não presta, refinar as relações, multiplicar o que me eleva.
Sei que o principal sobrenome do amor é ilusão.
E sei também que ser livre é fundamental.
Portanto, se eu tiver que um dia me desfazer de todos os meus bens, a liberdade será o último deles.
Quanto ao que penso sobre meus amores, disse quase tudo a Edma Lux no livro “Perguntas que a mulher faz quando sonha”. Devo deixar claro que valorizo uma mulher não só pelos prazeres que posso ter ao seu lado, mas principalmente por aqueles que deixo de ter por causa dela.
Já me casei quatro ou cinco vezes e continuo achando que o casamento é o túmulo do amor. O cemitério das paixões...
— Por isso continuo solteiro!
O casamento é uma velha escola em ruínas que só tem duas matérias: sadismo e masoquismo.
(Dos dois lados.)
E casamento indissolúvel é pior do que prisão perpétua!
Sou observador.
Tem dias que vejo uma procissão de formigas em direção a um saco de lixo — e me lembro de vocês: trabalhando, cumprindo horários, correndo muito, seguindo regras tolas, mansos, ordeiros, pacatos, oprimidos em grupo, submetidos, uniformizados.
U-ni-for-mi-za-dos!
— E sendo “felizes”, cada qual à sua maneira...
Passam a impressão de que põem uma dose de fúria nessa busca cotidiana do nada. Agitam-se como em vias de alcançar o céu. No fundo, se esperneiam, mas não olham sequer para cima. Por isso não sei mais se o que sinto por vocês é pena ou desprezo.
Só não creio que possam mudar de verdade — de verdade.
Parecem moscas sobrevoando um monte daquela coisa...
De vez em quando se mexem, coitados, mas se mexem pouco, timidamente. Nessa agitação aparente não querem turbulências nem riscos: meros movimentos de acomodação. Parece que estão por demais atolados nessa meleca gosmenta que chamam de vida, e de tal forma envolvidos com coisas tão rasteiras, tão vãs, tão minúsculas, que só me resta dar-lhes um digno — e definitivo — adeus.
Doentes!
Não devo mesmo ter dó de vocês, porque só me daria pena o doente que não tem o remédio diante de si.
É compreensível, como diz Montaigne.
Vocês discordarão de muitas coisas que aqui vão ler. Muitas. Afinal, cada um de nós tem seu próprio tempo, seu sistema de valores, sua própria maneira de julgar um fato, de analisar fenômenos, de encontrar saídas. Cada um de nós tem sua particular visão do mundo, intransferível, única, exclusiva. Cada um tem suas idéias de verdade, de justiça, de amor, de religião.
Cada um de nós tem seu próprio modo de se salvar.
Ou de se foder.
Cada um de nós é um ser único. Mas interagimos, em nome de alguma filosofia, de um negócio, de um deus, um projeto, uma causa. E existem atributos que nos elevam à categoria de humanos: inteligência, amor, criatividade, compreensão, espontaneidade. Tudo isso deixa a vida mais fascinante ainda. E o que é melhor: a vida que merecemos viver só depende de nós.
Quero que você abandone as verdades recebidas por herança ou por contágio, e passe a pensar com independência. Se chegou até aqui (não só neste livro mas na vida), é porque você deve ter aí na cavidade do crânio uma parte do sistema nervoso central chamada encéfalo — que abrange o cérebro, o cerebelo, pedúnculos e coisas que nem sei. Essa máquina sensível requer cuidadosa manutenção, precisa de carinho, tempo, leitura, dedicação, liberdade.
Não permita, portanto, que joguem lixo nesse aparelho.
E lembre-se: nada de verdadeiramente grandioso foi criado até hoje na história do mundo sem paixão, ousadia, inteligência, loucura — e liberdade.
E eu só entendo a liberdade como liberdade de mudar de vida.
Qualquer outra que não essa será pouca.
Por isso, reaja!
Mude.
Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante que a velocidade.
Sente-se, diferente, em outra cadeira, no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude também de mesa.
Ande pelo outro lado da rua,
mude de caminho, ande por outras ruas, mais devagar,
observe os lugares por onde a vida passa.
Mude o estilo das roupas, dê aqueles sapatos velhos,
procure andar descalço por alguns dias.
Tire uma tarde livre para passear no parque, ou na praia.
Saia sozinho para ouvir o canto dos pássaros.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra portas e gavetas com a mão esquerda.
Durma do outro lado da cama.
Primeiro, troque o colchão, depois, mude de cama.
Veja outros programas de tv, compre jornais diferentes,
leia outros livros, viva novos romances. Troque de carro.
Não faça do hábito um estilo de vida. Corrija a postura,
faça ginástica, durma mais tarde, ou acorde mais cedo.
Aprenda uma palavra nova todo dia em outra língua.
Escolha novas comidas, novas cores e temperos,
outras delícias, novas exuberâncias.
Experimente a gostosura do insólito, do inesperado.
Tente o novo lado, o novo método, o novo jeito, o novo sabor,
o novo prazer, o novo amor. A nova vida.
Faça novos amigos.
Conheça mais pessoas, vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde — ou vice-versa.
Escolha um outro mercado, outra marca de sabonete.
Tome banho em horários flexíveis.
Troque de bolsa, de carteira, de malas.
Compre novos óculos, escreva poesias, quebre o despertador.
Abra conta em outro banco, vá a outros cinemas.
Tente um cabeleireiro mais ousado.
Descubra novos horizontes.
Seja livre até na forma de pensar.
Procure fazer uma viagem longa, de preferência sem destino...
Desperte o aventureiro que dorme no teu peito.
E se não encontrar razões para ser livre, invente-as.
Seja criativo.
Mude.
Você vai conhecer coisas melhores e coisas piores,
mas não é isso o que importa.
O importante é a mudança, o movimento, a energia.
— Só o que está morto não muda.
Até o “Mude” eu sempre mudo.
Por isso é que fiz várias versões desse meu poema.
Mesmo que você já tenha encontrado seu suposto melhor lugar na vida, procure outro. Se ainda não achou o melhor caminho, continue procurando-o. E após ter certeza absoluta de tê-lo encontrado, ainda assim procure outro. A pior coisa da vida é a estagnação — não pare nem mesmo quando estiver no pico que você suponha ser o mais alto. Porque sempre será possível ir além.
A vida tem milhares de caminhos possíveis.
Reaja!
Porque qualquer futuro é melhor do que qualquer passado.
Fico pensando.
Brigar comigo — e vencer — são coisas contraditórias, mutuamente excludentes. Há que se escolher uma delas.
Sou Deus quando me armo de fúria e perdôo quem me ofende. Porque Deus está dentro de mim e fúria só é o nome de um silogismo. Quando se trata de uma história de amor, e não apenas, todo processo deve ter três instâncias básicas: verificação, avaliação e julgamento. E só depois — conforme o caso — condenar ou absolver.
Mas alguns não passam pelos estágios racionais fundamentais, e condenam logo de cara, sem considerar a presunção da inocência. Alguns não se preocupam com a própria reputação intelectual.
É a vida, você sabe.
Mas a morte é um cavalo que trota encilhado ao lado da gente, e nos olha por baixo do tapa, convidando.
Sempre recusei.
— Aliás, morrer é a última coisa que eu quero fazer na Vida!
O Cadáver de um Palhaço.
Se o que digo é fundamental, por que então considerá-lo de outro modo? Ainda que você não goste do que escrevo, acredite em mim. Mas isso não tem hoje a mínima importância, pois não escrevo pra ser famoso, nem falo para ser lido.
Eu falo é por ser amado, e escrevo porque gostoso.
Minha literatura é feita de excessos — eu sei — mas é sincera, tem cadência, suavidade, juventude, pulsação.
Mas até mesmo a sinceridade tem limites.
Não se pode ser sincero além de um ponto.
Como eu ia dizendo.
A vida é um milagre — e não vou agora desperdiçar o meu!
Já fiz uma promessa: Vou sobreviver a todos os meus amores. Naufragar por causa deles — jamais! Posso até me afundar um dia, quem sabe, mas ao voltar à tona trago nos dentes o punhal do pirata. Afundo-me em nome da liberdade mas trago depois enrolada na ponta língua a pérola pura, pois fui capaz de morder com doçura a ostra hesitante. O aventureiro que habita o meu corpo pode até simular um naufrágio em teu nome, meu amor.
— Mas nunca quererei te salvar.
Lembro de coisas antigas como se em silêncio as vivesse outra vez. Do que não presta, me esqueço. Sempre. E se minha memória, que sabe das coisas, guarda um fato — por que iria eu jogá-lo fora? Amo só o que acontece e sempre me apaixono pelo ato em si. Sou cúmplice da realidade. Depois de quatro dias falando comigo perco a razão, e a perco de forma profunda, como se fosse perder a vida — só para buscá-la outra vez com amor não sei onde.
E com a certeza de que volta para mim — outra vez.
Falo de mim como falasse de você.
(E fico pensando.)
Minha vida parece a tua, não porque sejam elas iguais, mas pelo fato inegável de que você pensa que vive no espelho. Nem todo espelho reflete a imagem que lhe damos: alguns a engolem, não para consumi-la em fogo, selvagem, voraz, mas sim para poder amá-la escondido, no fundo mais fundo do fundo de si.
O certo é que não sabemos ao certo o que pensa um espelho a teu próprio respeito. Talvez não se enxergue.
Você não se acha cego.
Pois é.
Sabe aqueles dias em que teu peito parece uma Sibéria?
Você olha no espelho da vida, olha fundo, e não vê um ser humano: — vê um palhaço. Nesses dias você tem que reagir. Porque, se não reagir imediatamente, logo logo vai olhar no espelho da vida outra vez e terá uma nova surpresa:
— Verá o cadáver de um palhaço!
Não falo isso pra te assustar — quem sou eu pra me ter medo? Sou bom, amável, e não teria coragem de meter medo nem mesmo a mim. Meu maior defeito é talvez ser bom demais.
— Quem sou eu? — você pode se perguntar.
Sou um poeta, um escritor de idéias, bem-sucedido mas não famoso. Escritor de idéias libertárias, eis o que sou. Um apaixonado trapezista louco dando um salto vital no escuro de um circo chamado vida, sem redes de proteção. Porque sempre que ouço a voz de Deus dizendo-me “Salte!” — eu salto.
Começo a ouvi-la de novo, insistente.
A voz de Deus que ouço vem de Mim. Meu coração é que se abre como fosse uma boca — e me conta coisas, segredos, me conta tudo. A voz de Deus me conta histórias, me acalenta, faz ninar.
E grita comigo, às vezes, que nem agora que grita salte!
Insisto. Só quem salta inteiro no belo escuro profundo da vida é que pode viver de verdade.
E você — tem saltado muito?
Como vão teus delírios voadores? Como estão os teus amores? E os teus brilhos, tuas dores?
— Como vão tuas misérias e delícias?
Ah, você só quer saber das minhas, é? Deveríamos fazer uma troca, não delas, propriamente — as delícias e as misérias — mas do seu relato apenas. Sei que é difícil pra você abrir o peito assim, à faca, e mostrar-se todo — é muito difícil. Dói, eu sei. Mas o gostoso nesse tipo de dor poética é exatamente isso: Doer em êxtase.
Você nem imagina...
(E se você entende — é melhor saltar.)
Eu me escrevo, você se lê. Por que não invertemos os papéis? Eu me mudo em leitor e você fala que escreve. Ah, você só quer me ler? Quer saber o que tenho pra dizer? Saber dos amores que já tive — e gozar com minha boca e minha história, é isso?
(Você não vai ficar satisfeito...)
Ou você, no fundo, só quer saber das maldades que eu já fiz? Você é leitor ou fiscal do meu prazer? Leitor? Ah, bom. Mas pretende que eu fale dos pecados que cometo em nome de Deus? Quer saber as razões pelas quais matei a Leprosa — se é que existem. Acho que você quer me ver confessando as sujeiras que ainda nem fiz. Você pensa: “será que vou encontrar um cadáver fresco, coberto com jornal de ontem, na próxima linha? Será que o safado vai confessar um estupro na próxima página?”
Acho que você não vai ficar satisfeito.
— Se for só por isso, é melhor parar.
Não fui transformado em abismo em vão.
Nem sou um poetinha de meia-tigela — não!
Sou safado no sentido de travesso, não de cafajeste.
Quando caio em mim, tenho que me cair todo. Assim que me acordo, me acordo outra vez, pela segunda — de novo. Ou você pensa que é um só Deus que me ilumina? A luz de um só Deles me seria pouca. Fechado no escuro do meu quarto me abro, inteiro. Pra tudo quanto é lado, mas principalmente para dentro de mim. Hoje estou com Ele no corpo, o Outro. Não ligue — porque Diabo eu escrevo com inicial maiúscula. Diabo é uma espécie de Deus — a melhor. Mais sangüíneo, mais esperto, o Diabo é o inventor do frenesi, o criador das circunstâncias em que mergulho todo santo dia. Sempre me orgulho pelado: a pele é a maior proteção.
Minha nudez me descobre das vergonhas mais humanas, aquelas profundas, e me cobre de amor e tesão por mim.
Sou rebelde.
(Não sei ser outra coisa.)
Fui, sou e sempre serei contra os conservadores.
Sou revolucionário, amo a vida, a liberdade, o amor.
Isso já vem de família.
Não é genético mas é hereditário.
Meu bisavô Luiz Marques já era um rebelde: trocou o futuro garantido e certo por um presente gostoso e mais certo ainda. Um belo dia jogou fora o velho baú das verdades antigas, e tomou aquelas decisões que só os grandes homens conseguem tomar:
Montou o cavalo negro do risco absoluto e partiu!
Abandonou tudo para não ter que abandonar sua própria alma naqueles caminhos já percorridos. Ele também já sabia que
O único crime que não tem perdão é desperdiçar a vida.
Não fosse por isso eu não estaria aqui, agora, todo coração, tomando essa taça de vinho vermelho e contando minhas histórias de amor pra você.
Sou portanto bisneto da rebeldia.
Bisneto da rebeldia, neto da emoção, filho da loucura, irmão do desejo, primo do prazer, amigo da liberdade — e amante de todos os meus amores.
E existo, por incrível que pareça:
No céu da minha boca não há fogos de artifício:
— Só estrelas.
Digo isso e Paritosh me questiona.
— Por que você repete esta página em todos os teus livros?
— Em quase todos. Repito-a para sentir como pulsa o coração do meu leitor. Ela é o portão principal da minha literatura. O leitor tem que abri-lo para entrar nos meus jardins.
— Mas um mesmo leitor talvez não goste de encontrar, outra vez, o mesmo “portão”...
— E daí? Eu quero outros leitores. Minha posição é delicada: defendo a mudança mas me coloco, me distribuo, me espalho por todos os meus livros, falando sobre as mesmas coisas transformadas. Parece contraditório, mas tem que ser assim. Eu sou assim...
— E se o leitor se cansar?
— Busco apenas o leitor incansável. Não quero acomodados tocando com seus olhos as palavras que escrevo.
— Leitor acomodado também compra livro...
— Às vezes. Mas não quero que o leitor comum leia os meus livros. Seria como se me prostituísse, falando de amor e liberdade a quem não posso amar de forma alguma.
“Faz sentido”.
Não sei aonde vamos chegar com essa conversa. Por dentro, no âmago de mim, sorrio duvidando, mas concordo: até certo ponto, faz sentido. E Paritosh, um representante da Associação Mundial dos Críticos de Arte, me ataca numa parte sensível:
— Isso repele leitores. Acha que já os tem muitos?
— Não: são poucos mas quero tê-los ainda menos. Só os quero se inteligentes. Desde o meu segundo livro já dizia:
“Se, ao ler esta página, você não conseguir ver a velha senhora pensando na vida, abandonada numa cadeira solitária de balanço à espera do marido que não volta; se você não percebe ali, por perto, netinhos alvoroçados olhando a porteira por onde o avô sumiu; se você não ouvir claramente os cascos do cavalo negro do ousado Luiz Marques chutando pedregulhos numa estradinha de terra — abandone esta leitura agora.
Se você não consegue cavalgar a própria imaginação — desista de mim: não escrevo pra você. Se você não consegue nem isso, vá ler Marimbondos de Fogo. Vá ler gibi, jacaré...
Ou Sidney Sheldon. Mas desista de mim.”
— OK: vejo uma velha senhora, gorda, como se acorrentada à sua cadeira de balanço... — ele começa dizendo.
— Não disse "gorda" — retruco.
(Sei onde Paritosh quer chegar. Estou engordando e ele quer me chamar à Razão de uma forma indireta. Quer ser elegante nas críticas para não ferir minha adiposa sensibilidade...)
— Mas já reparou que os maridos abandonam mais facilmente as mulheres gordas? — aproveita para defender uma tese.
— Nunca pensei nisso — respondo.
Ele agora está olhando pra minha barriga, e diz:
— Pois pense. As gordinhas são abandonadas não por causa da banha: a gordura é só uma conseqüência.
— De excesso de comida — opino.
— Sim, lógico, porém mais do que isso: a gordura demonstra o nível de desleixo que tem por si. Há uma atitude que o gordo assume — por isso engorda. Essa atitude depreciativa perante a vida o torna menor, e a gordura em demasia é um possível reflexo. Claro que é um processo inconsciente... talvez uma somatização.
(Ele continua me olhando discretamente a barriga. Acho que nem é tanto assim, mas vou vestir uma camisa...)
— Estamos nos afastando do tema — tento voltar.
— Voltemos: quem já leu teus outros livros, já ouviu o galope, viu o cavalo negro, sentiu o cheiro da crina, ouviu os pedregulhos. Por que então repeti-los?
— O barulho dos cascalhos nunca é o mesmo. São outras as pedrinhas que o cavalo chuta, você tem de senti-las diferentes. Temos que galopar a imaginação.
— Se não?! — Paritosh continua contestando.
— Se não, desista! Nesse caso, minha literatura não foi feita pra você — eu digo, convicto.
Mesmo também me questiono. Porque sempre me questiono, especialmente quando pareço ter certeza de que estou certo. Quanto mais informação você tiver sobre um determinado assunto, mais dúvidas deve ter a respeito dele.
Quanto mais culto você for, mais questionante será!
A certeza absoluta inquestionável é um recurso do imbecil.
(Aqui, ao norte das águas, sinto-me o dono do mar. Penso nos marimbondos de fogo e acabo respeitando Sarney — como escritor e como presidente. O Plano Cruzado foi a maior experiência de distribuição de renda que já houve no Brasil.)
Acho que um desgraçado nunca vai ler o que escrevo — e se ler não vai gostar. Infelizes detestam quem fala de prazer, de alegria. Para um escravo, tal assunto é tabu. Para um escravo a liberdade é frescura. Portanto, só falo para espíritos livres.
Só gostará do que escrevo quem já vive de amor.
— Só esses vão gostar do que eu digo.
Acontece que um livro jamais será melhor que a biografia do escritor. Nenhuma obra supera a vivência do própria autor. Literatura sem observação é vazia. Sem experiência a arte é oca.
— Nada substitui a vida.
Para Voltaire a coisa mais bem distribuída no mundo é o bom senso: ninguém acha que tem pouco. Nem eu, é claro. Mas, antes do fato, não me importa o que se diga dele. Sou até comedido ao contar as aventuras — são muitas, teria de contá-las devagar. Quando chego a mil, perco a conta, começo tudo outra vez. Isso, quando as conto. Mas não conto todas: não sou louco! Eu gosto mesmo é de vivê-las, as aventuras, não de contá-las.
Só as conto por precisão, por ofício, por ócio, por amor.
Para mostrar a você que é possível viver fundo, viver tanto.
(Tudo de uma vez.)
— Morrer é a última coisa que eu quero fazer na vida.
“A esperança é um sonho que caminha”. Aristóteles disse.
Espero que você perca o medo antes de perder a esperança. Que você mostre o avesso da Pandora ao avesso da caixa, e o avesso de si a si mesmo. Que não se contenha em mostrar só Continente, mostre também o Conteúdo — oceânico.
Faça como eu, que abro-me, mostro meus avessos, entranhas coloridas e inteiras, exponho-me como doces invertidos num balcão de sacrifícios. Então, meu interior se agita, cria coragem e resolve mostrar seus próprios avessos. As conhecidas entranhas se reviram e se abrem para dentro de si. Descubro que a parte mais profunda de mim é o contrário dos meus avessos, e que o lado de dentro do meu lado de dentro é a fantasia que de amor me veste.
Minha grande inspiração é Henry Miller. Deus e Zorba, em segundo plano. Pairando agora sobre minha cabeça uma doce ameaça de vida. Sinto-me Dâmocles, a espada — suspensa por um fio de seda — brilha seu fio nesta tarde de sol sobre mim. O vento a balança, eu olho pra cima, começo a sorrir.
Tudo por um fio...
É neste momento — quando confio — é neste exato momento agora que a Vida chega. A vida só chega no justo momento em que temos consciência de que ela está por um fio...
— Só neste momento!
Cabos de aço não conseguem segurar a vida, porque ela não se prende a brutalidades. A linha tem que ser fina, delicada.
Há que ser muito fino para se viver de verdade. A vida não se liga a coisas grossas, densas, brutas. Vista-se de véu para viver de luz. Ou você acha que seria possível viver sempre de mortalha?
(Só falta mesmo ter tesão por escritório!)
Fico pensando: será que você sabe quem foi Dâmocles? Vou abrir o Webster na página certa da memória: "Damocles: a courtier forced by Dionysius the Elder, tyrant of Syracuse, to sit under a sword suspensed by a single hair, to demonstrate the precariouness of a king’s fortunes".
Se não entendeu — stop! Melhor parar. E nem pense traduzir “fortunes” por fortunas... Mas não desista agora, é cedo, você ainda terá tempo. Os saudáveis enlouquecem, os outros ficam por aí — parecendo normais.
Pense nisso.
Os normais aceitam o mundo com o ele é, e os loucos sempre querem mudá-lo. Por isso o mundo muda só por causa dos loucos.
Se todos fossem normais não haveria progresso.
(Onde será que guardei aquele ensaio escrito em Porto Alegre: “Se nós pensássemos como nossos pais”?)
Negar meu potencial é matar-me como ser.
Se por acaso eu vivo um dia de rotina, espremo à noite o meu cérebro como quem torce roupa, e não sai nada — nem uma palavra, nem uma gota, nem um pingo, nenhuma emoção.
E meu corpo só consegue adormecer.
Mas quando vivo um dia de aventuras, vivo também uma noite de amor. E meu cérebro, só, sem esforço, produz e me oferece um milhão de palavras, tempestade de desejos e de mel, um livro inteiro se quisesse. E meu corpo — um milhão de orgasmos de uma vez. Só aventuras acumulam as energias de que meu corpo precisa, e minha alma merece.
(Então me lembro de Silene, de novo.)
Hoje fui à casa dela e encontrei seu pai, um homem simples, simpático, me tratou carinhosamente. Tem uma barbearia. Conversou comigo, sorriu pra mim, parecendo agradecido. Mas se soubesse as coisas que fazemos — eu e sua filhinha —, ele provavelmente me expulsaria de lá. Mas, se soubesse, mesmo, o que eu e Silene estamos fazendo há mais de uma semana; se pudesse saber, mesmo, o tamanho do amor puro que sinto por ela; se soubesse, mesmo, o quanto sua filha é respeitada por mim, em todos os sentidos — me agradeceria mil vezes por segundo. Se o pobre homem soubesse, por exemplo, que a vida sexual da sua filha era um deserto antes de mim; que ela ainda não havia sido amada de forma alguma; que eu a transformo de mulher em musa, diariamente; se soubesse quem sou realmente — esse homem simples, religioso, me recomendaria a Deus, e talvez até colocasse uma pequena estátua minha no oratório do seu quarto, para venerar-me todo dia.
Santo Edson!
(E eu agora o respeito como se já soubesse quem sou.)
Lembro-me do olhar bondoso que me deu quando fui vê-la, e ela não estava. Simulei que fora entregar um envelope, duas ou três folhas dentro, poemas que escrevi. Para ele, importantes documentos talvez. Dirigi-me àquele homem com meu olhar ressabiado, confuso, e ele devolveu-me um olhar terno, fraterno, quase angelical.
Fiquei pensando.
Que é com o dinheirinho ganho ali, honestamente, manuseando pentes, escovas e tesouras, que foi comprada aquela camiseta branca de malha que ela ontem usava — e que molhei com saliva na altura dos seios para que os mamilos saltassem. Foi com o esforço de pai que sua mãe comprou aquela calcinha de algodão, macia, fofinha, azul, que ontem tirei puxando-a com meus dentes de amante. Silene senta-se talvez naquela cadeira ali, ao lado da mesa que vejo através da janela, para tomar café com leite toda manhã, pão com manteiga passada por suave mão de mãe. Foi com o amor desse homem que se fez essa musa há mais ou menos dezessete anos.
Por isso, só posso mesmo amá-la tanto.
É para mim uma honra, Silene, poder te amar da forma como te amo hoje. Tanto, que você não sabe. Nem sabe esse homem tão puro, teu pai, de quem não sei ainda sequer o nome.
Então, numa tarde de sol, vou me sentar na velha cadeira azul do seu salão, e pedir-lhe, "por favor", que me raspe a barba rala e cinza de dois dias, essa amanhecida e poética barba de cafajeste.
Vou olhar-me bem de frente naquele espelho oxidado, cheio de manchas nos cantos, e que tem moldura de madeira comida por anos e cupins. Vou olhar-me firme no espelho, e supor-me um deus arrependido.
(Arrependido — mas sincero.)
Enquanto afia a navalha na tira de couro pendurada no braço de ferro da cadeira Ferrante, vou esboçar um sorriso ao canalha que pareço que sou, lá no espelho — e respirar fundo. (Sinto-me Sófocles com dor de barriga: “A justiça é às vezes inoportuna...”) E quando estiver com meu rosto cheio de creme, branco como palhaço húngaro em corda bamba; quando ele levantar a navalha com sua mão direita, naquele gesto delicado e profissional de um homem honrado que sabe o que faz; quando colocar o indicador de sua mão esquerda no meu queixo para esticar um pouco a pele bronzeada — quando for este preciso momento, vou lhe dizer, com poesia, com cuidado:
— Senhor, fui eu que tirei a virgindade da sua filha...
Sei que vai parar seu gesto ao meio.
Ficarei imóvel também, aguardando a decisão da suprema corte que lhe habita o coração.
(Que lhe agita o coração.)
Mil dragões e anjos em luta no labirinto em que sua cabeça se transforma. Verei no espelho o movimento da sua garganta engolindo em seco alguma coisa. Vou ver tudo o que for possível ser visto no instante que pode ser último. Tentarei ver o brilho suspenso da velha navalha refletido no espelho, como farol de uma ilha perdida orientando náufragos de um amor que sobe à tona.
E continuo:
— Foi ontem, Senhor, no luar prateado de ontem à noite, as estrelas por testemunhas — foi ontem que amei sua filha Silene...
(Esse, o momento!)
Esse é o absoluto momento que eu quero viver.
O fio da navalha!
Um momento em que minha vida estará pulsando nas mãos indecisas de outra pessoa, nas mãos desse homem que é o pai da inocente futura mulher que eu hoje mais amo no mundo. E que talvez não compreenda essa minha atitude.
— Por que você diz isso agora? — perguntará.
— Para se fazer justiça, meu senhor.
E ele ali, meio perplexo, a navalha meio cega suspensa por meus olhos, seu indicador apontando um lugar imaginário no meu queixo branco de espuma, a jugular clamando gumes.
Um mosquito pousa na minha testa.
O vento balança um bilhetinho pregado com durex na moldura do espelho.
Um cachorro late lá na esquina.
Uma criança passa correndo atrás de um gato.
Vejo que a navalha não tem fio: tem uma linha de raciocínio. Respiro cuidadoso, como Bergman em noite de verão me dirigindo. Crepitam gravetos e coivaras no meu peito. O pulmão direito agora muda de lugar e o esquerdo se transforma em suspirante coração.
Continuo dizendo, calmo:
— Ontem à noite Silene não foi à escola: fomos à minha casa. Ela aceitou meu convite pra jantar. Tomamos vinho, olhamos a lua, ouvimos música, dançamos...
Em voz baixa, vou lhe dando mais detalhes.
(Conto tudo.)
É um duelo informal de cavalheiros: eu entro com a história — ele, com o silêncio. Eu entro com a garganta e as emoções — ele, com a faca e o risco. Eu entro com a dor, ele, com a filha.
Sinto que me olha sem piscar.
Mudo.
Minhas mãos pousadas no descanso da cadeira.
Esse é o momento.
(Vai ser assim!)
Porque o Paraíso não pode ser lugar de gente morta.
Há que ter risco.
— Risco, navalha, tempo, garganta, mulher, emoção.
Tudo por um fio...
Mas agora uma garrafa de vinho pela metade, rosa vermelha ansiosa por mim, três ou quatro velas azuis em castiçais de prata espalhados pela sala, uma penumbra gostosa onde sombras delicadas dançam por si mesmas, o Bolero de Ravel crescendo em todos os sentidos no meu peito apaixonado, uma brisa noturna e encantada entrando pelas portas e janelas. Mistérios no ar, desejos, também. Às vezes, silêncio: e Ravel retorna.
Espero uma das outras minhas amadas.
Se ela chega, agradeço a Deus por ter chegado, e nos amamos da forma mais gostosa. E se não chega, agradeço a Deus por não ter vindo, e continuo a me amar da mesma forma. Não faz diferença se danço com você, ou se sozinho: amo as duas coisas, e a dança sempre acontece primeiro dentro de mim. No fundo, sempre agradeço a Deus por você vir, e agradeço mais ainda se você some por uns tempos. Quando você desaparece, meu amor, o espaço que você deixa é enorme: e então procuro ocupá-lo de modo diferente, pois cabem dez outras dentro dele...
Olho para meu corpo como se olhasse a própria Natureza. Um pedaço dela — o mais importante, concluo. Quando passo as mãos em mim, é como estivesse refinando uma escultura, cobrindo-a de amor e ternura. Eu, meu alimento!
Quando me toco ouço música. Vibrante.
Não tenho uma vida só: tenho muitas. Todo dia, ao me levantar, escolho uma delas pra viver — e são todas perfeitas, todas livres. À noite, quando venho dormir após extensa jornada de amor, guardo em mim essa vida que hoje vivi, e vivo-a de novo.
Sou garimpeiro de sonhos remexendo cascalhos de amor.
Se vou mudar, nem Deus sabe.
Eu acho que sim.
— Se você não acredita, é melhor parar.
Me espanto ao ver que essas coisas que se transformaram em mim já existiam — separadas — e só se uniram para formar-me. E que outras continuam vindo para tornarem-se-me. Que inteligência as conduz até mim? Por que será que me escolhem? Ou por que é talvez que aceitam o convite para que venham a constituir-me dessa forma tão gloriosa?
Continuo perguntando como se fosse alpinista:
— Posso ver tua pequenina montanha, meu amor?
— Sim — ela responde.
"Eu sempre digo sim, quando você me fala de amor".
Então levanto delicado o azul de sua saia, clarinho, passo as mãos por suas coxas, sinto a penugem que lhe cobre a pele lisinha, firme, e vou subindo, subindo, subindo. A calcinha é preta: surpresa para mim. Adoro surpresas. Imaginava que fosse bege. (Essa é uma das vantagens dos amores passageiros: a gente nunca sabe a cor da calcinha que ela veste.) E vou subindo mais ainda minhas mãos nessa escultura de carne, sangue, tesão e arrepios.
Sussurro: — Que maravilha...
E ela, como penteasse delicada meus cabelos com os próprios dedos abertos, sorrindo, sentada na cadeira branca:
— Você é o amor.
Ela não disse: “você é um amor”.
Disse: Você é o amor — e frisa (demoradamente) o artigo definido, masculino, singular.
Mas não será agora que vou lhe ver a deliciosa colina.
Vou deixar para depois, outro dia, quem sabe. Talvez nunca. A mim me interessa mais a permissão que ela deu. Basta. Eu sei que amanhã talvez, na cama, numa posição mais confortável, vou lhe tirar a calcinha puxando-a com meus lábios evidentes. E vou então poder observar-lhe o clitóris, sua cor, textura, tamanho, volume, gostosura, freqüência, pulsações por segundo, essas coisas.
Amanhã... talvez. Nunca tenho pressa.
Hoje só quero tocar o clitóris da própria vida.
Não penduro na parede da sala as fotos dos meus amores como fossem troféus de caça. Porque são elas as feras que me caçam, me conquistam, me dominam, mordem, lambem, acariciam, me amam. Só não permito que se acasalem comigo. Assim como pintores precisam de modelos, também escrevo melhor quando as tenho à vista, nuas, puras, belas — todas. Às vezes, acho que já não mais escreverei coisas tão novas, mas logo em seguida outras idéias fervilham na minha cabeça flamejante; no coração, sentidos pululam como rãs embriagadas de amor; nos olhos, imagens dançam coreografias revolucionárias criadas por Martha Graham; de minhas línguas surgem novas palavras grávidas de encantos que se dão à luz.
Então escrevo, escrevo de novo. E de novo de novo.
— Meu único princípio é não ter fim.
E as palavras se oferecem prostitutas para mim.
Caem no meu colo, lúbricas, doces, inocentes. Caem na minha boca, na minha língua portuguesa — e em todas as outras. Se derretem por mim quando preciso delas quentes para falar de amor, e vêm geladas se preciso contar tristezas. As palavras, todas, se oferecem para mim, obscenas e santíssimas ao mesmo tempo.
Divinas e profanas — como um falo.
Então as escrevo, profundas, belas, insensatas, radicais.
Por isso há tanto lirismo na minha obscenidade.
Tanta realidade na minha ficção.
E tanto amor nos meus amores.
A história que vou contar é a mais pura das minhas verdades. Vou relatar o que vi com meus olhos do amor, descrever como tudo aconteceu. Se algo fugir do real, será mais por falta de lembrança do que de caráter. Sou um anarquista lúdico. Anarxista. Alguns dias por semana, algumas horas por dia, represento um papel: me transformo em operário, chego manso ao escritório, cabisbaixo, feito um idiota. E represento tão bem esse papel no palco da hipocrisia cotidiana, que as pessoas pensam que sou mesmo responsável.
Mas, por dentro, continuo rindo de tudo — e de todos.
Portanto, não me peçam para sofrer: não tenho complexo de mártir. Sou só um santo louco, gozador, inconseqüente, com enorme vocação para ser um Deus-palhaço — nada mais.
Na verdade, até que sou bastante responsável.
(Só que não levo a responsabilidade muito a sério.)
Deus adora o porra-louca, por isso lhe dá tanta alegria, tanta energia. E Deus não pode amar os que são sérios — e por isso os faz tão tristes. Deus gosta muito de brincar. O próprio Mundo é seu maior brinquedo. Lembre-se:
— Quanto mais sério, mais longe de Deus!
Fico pensando:
Se eu tivesse aprendido uma palavra nova por dia, desde que nasci, não saberia hoje nem 20.000 palavras diferentes. Como vemos, não basta aprender apenas uma palavra por dia. Um escritor deve saber pelo menos 50.000 palavras na ponta da língua em que escreve. Para um idiota, bastam mil. Presidente de cooperativa se vira com trezentas. Mas um pedreiro deve saber cerca de 3.000 — incluindo-se "tijolo, pedra, areia, cascalho, marmita e Corinthians".
Shakespeare sabia apenas 5.000 palavras diferentes — mas eram todas as que haviam no inglês daquela época.
E você, está pensando em ir além?
Acho que o meu além nunca vai além de mim.
Por isso ainda não decidi a quem vou deixar o meu além.
No Upanishad, escrito talvez no século VII a.C., lemos que Além é "aquilo que as palavras e os pensamentos não alcançam". O que não foi, de nenhuma forma, nomeado — o transcendente.
Quero sempre o novo absoluto.
Enquanto vocês engessam seus braços fechados, procuro abrir mais ainda meus braços abertos de amor. Só me dão prazer amizades eróticas, por isso tenho tantas amigas. Amizades masculinas, machas, não sensuais — com elas só desperdiço meu tempo. Tenho pouco interesse em ser amigo de alguém que não posso amar.
É só disso que trato nos meus livros. Da Gramática do Amor.
Le livre de la Liberté!
Se você não gosta dessas coisas não será nunca meu leitor.
Minha literatura propõe uma prática de Liberdade.
Eu só falo de amor.
— De amor livre!
(E se você não gosta disso — é melhor começar a gostar.)
O amor tem que ser livre em todos os sentidos. Mas para você é impossível; você é contra o amor livre. De novo te pergunto:
— Se o amor não pode ser livre, como deve ser então: amor preso? Amor acorrentado, encarcerado, sufocado?
(Seria contraditório.)
Quando eu era pequeno brincávamos de ver nuvens no céu de Srinagar. Meus amiguinhos só viam bois, cavalos, elefantes, mangueiras, copos de leite. Mas eu, nas mesmas nuvens, via elefantes enfeitados com safiras dançando em tamboretes de ouro em picadeiro de circo; via Bonaparte empunhando sabres num cavalo branco; via uma mulher descalça, vestidinho de chita, carregando um pote de água pura na cabeça; via um miura com quatro banderillas espetadas no lombo ensanguentado; via a Vênus de Milo de ponta-cabeça...
Eu via coisas que os outros não viam. Até hoje ainda olho para o céu e vejo coisas que nem posso contar, de tão lindas, encantadas — maravilhas.
Vocês não iriam mesmo acreditar.
Duas coisas são básicas na formação do ser humano: pensar rápido e enganar autoridades. Como eu era pequeno por fora, fisicamente fraco, economicamente dependente, e tinha pai autoritário, fui obrigado a pôr asas no meu cérebro — e aprender a jogar. Já vem daquela época esse meu poder de enganar “autoridades”. Do inspetor de alunos ao juiz da moral; do síndico do meu prédio até a polícia rodoviária, passando pelo padre e pela zelosa mãe de uma lolita.
Engano todos.
Engano até mesmo essa mulher ciumenta que dorme hoje ao meu lado e pensa que é minha dona.
E se eu tivesse patrão, chefe, professor — enganaria os três.
Mas não tenho nada a esconder. Até teria, fosse medroso.
Exceto uma vida livre em todos os sentidos, nada que me obrigue a receios. Uma adolescente aqui, outra acolá; um bacanal de vez em quando, vinho, flores. E literatura. E fazer amor com duas mulheres ao mesmo tempo, também de vez em quando. Só isso. Nada a esconder, tudo declarado: não sou gay, não sou ladrão, não uso drogas, não sou judeu, não sou nazista, não sou pobre, não sou rico, não sou muito velho, não sou muito feio, não tenho muitas dívidas, não sou muito preto, não como muitas criancinhas — não sou muito burro. Nem muito comunista sou mais. E vivo extremamente bem — na praia. No sol, descoberto, nada a esconder.
Vivo como rei, mas nem sempre foi assim.
Quando cheguei a São Paulo eu era pobre — muito.
E pobre vive fazendo conta só pra ver se o dinheiro estica. Eu mantinha um rigoroso diário financeiro, com letras minúsculas, um personal cashflow. Tenho vontade de rever uma daquelas fichinhas coloridas, caprichadas, cuidadosamente guardadas na carteira, onde eu descrevia o que gastei e de que forma: guaraná Antarctica, pipoca com queijo na Filosofia, duas passagens de ônibus, um jornal, duas entradas no Belas Artes, um chocolate, pizza brotinho na madrugada Xangai do Parque D. Pedro, um sabonete Lux, O Grau Zero da Escritura no sebo...
Era uma pobreza tão rica!
Só lamento ter perdido as “Recordações da Casa dos Mortos” porque o dinheiro não deu. Fiquei com o livro na mão quase uma hora, esperando acontecer um milagre na Avenida São João. Depois fui dormir com Dostoievski, imaginando o seu romance. Meu quarto na pensão aquela noite parecia uma Sibéria, eu só tinha um corta-febre me cobrindo de frio e de agosto.
Ou seja: nada a esconder.
Mas se você quer mesmo me criticar, vai ter que esperar.
Sempre que não estou construindo pirâmides, eu faço amor. Das 24 horas do dia, reservo algumas. Não são muitas mas são tantas, tão intensas! Nessas horas só faço amor, com toda a delicadeza que a expressão comporta. E de uma forma pura, inocente, quase religiosa. Nessas horas eu amo. Só isso: amo. Depois tomo um vinho, rouge, sossegado, o leão que trago no peito repousa, me sinto bem. Se você não ama todo dia, como amo, nem toma o vinho que eu tomo, o problema não é meu. Só quero que você viva a vida — se é que podemos chamar de vida essa tua indecente ausência de amor.
E deixe que eu viva a minha — só!
(Cada um na sua.)
Se você não concorda, melhor fazer outra coisa.
Prefiro o cume, prefiro o pico, porque aqui não tem fila, não tem ajuntamento, empurra-empurra, confusão. Prefiro o cume porque aqui ninguém me aporrinha, ninguém me pressiona, nem me pede autógrafo, nem me enche o saco. Prefiro o cume, o píncaro, porque é só aqui que eu sei viver. Nasci para o pináculo. Para o auge.
Portanto, cada um na sua — sempre.
Se você não concorda, etc.
Aliás, será que você me entende?
Quando eu digo “Saltar no belo escuro profundo da Vida” tem gente que pensa que é para baixo! Ora, eu me refiro a um salto para cima. O salto mais profundo é o que damos para cima!
Por falar em salto, Fernanda hoje beijou-me os pés. Mil beijos cândidos, lúbricos, a língua dançante feito cobra vermelha entre os meus dedos, todos explodindo de alegria. Agora sei o que sentia Jesus quando chegava a prometer até o céu às mulheres que Lhe beijavam os pés. Agora eu sei! Jesus, por que você demorou tanto tempo para mostrar-me essa menina e Suas coisas?
Mas Deus agora me veio de ouro em fernanda pessoa.
Assim como Zorba, o grego, eu vivo no paraíso.
Se o paraíso for só para depois da morte, não me interessa. Como disse Zorba, o Buda, cada um procura (ou constrói) seu próprio paraíso: alguns transformam seu paraíso num monte de tonéis de vinho; outros, em igreja evangélica; outros ainda, em saldo bancário. Nem me refiro a paraíso fiscal. Eu, como poeta que sou, tenho assim meu paraíso: uma bela tarde ensolarada, brisa delicada me tocando as faces, gostosuras preenchendo meus olhares, e ao meu lado um amor que eu agora esteja amando.
E mais duas ou três mulheres-fernandas me beijando os pés.
Só isso...
— É assim meu paraíso.
Por isso estou lançando hoje uma “Campanha de Preservação da Natureza”. Da minha natureza.
Nunca mais forçarei Minha Própria Natureza!
Sou amigo até das feias, mas das belas, sou mais. Quando olho uma bela mulher com olhos de amigo, sinto por cima dos ombros o amante à espera de uma chance. À primeira vacilada, o amante que mora em mim ataca. Com delicadeza, mas ataca. Por isso, menina, não ligue quando pouso minhas mãos em tuas coxas: não quero mais nada. Mas o amante em mim te observa, te foca.
O amante em mim te lambe com a língua do sonho, e te vê com os olhos da alma. E aguarda o momento, o mágico momento em que, felino, vai tocar o teu sexo com poesia e tesão.
— Respeitosamente!
Porque o instante de uma coisa não a precede. O momento de um fato não chega antes dele mesmo. Antes do caos, tem que haver uma desordem. Meus amores são todos turbulentos. Parecem calmos por fora, mas por dentro estão fervendo. Mesmo quando tudo parece que repousa, a pele ainda não: seu arrepio não se cansa.
A coisa mais profunda no corpo humano é tesão à flor da pele.
Escravo por um dia.
Um dia desses vou fingir que sou normal.
Comprar um despertador de plástico, regulá-lo para que toque às sete e quinze da manhã, e acordarei sobressaltado.
Meu coração vai bater com força nos meus desejos.
Vou virar-me de lado, fazer de conta que reclamo da vida, mostrar-me sonolento — mas pularei da cama como se fosse um autômato desesperado.
(Vou tirar até a remela dos olhos, que é pra dar um tom.)
Fazer tudo com pressa: escova, pasta, banho, pente, sabão, creme de barba. Vestir-me, tomar café, abrir a porta, fechar, sair — tudo correndo.
Terei hoje uma missão extraordinária:
— Foder-me.
Desperdiçar minha vida.
Prostituir-me em troca de um salário ridículo.
(Todo salário — se não for fantástico — é ridículo).
Vou trocar um pouco de vida por um pouco de morte.
E à noite, quando chegar em casa, vou ligar a tv pra ver o que perdi. Vou aguardar o jantarzinho que não vem. Vou até esquecer-me de beijar essa esposa que nem tenho. Dizer que não posso brincar com o filho imaginário, porque meu jornal é "indispensável".
Vou sentir-me um escravo.
Escravo e estúpido. Porque, antes de ser normal, antes de bater cartão de ponto, antes de escolher um chefe, antes de se casar, antes de assassinar a tua própria liberdade — você tem que ser essas duas coisas, simultaneamente: Estúpido e escravo.
Felizmente, minha missão extraordinária vai durar um dia.
— Só um dia!
(Porque, fosse para sempre, aí é que eu tava fodido mesmo!)
O filósofo, o poeta, o artista — nossa função é saltar barreiras, subir à tona, transpor obstáculos, desbravar caminhos, quebrar ícones da moral, fulminar a hipocrisia da sociedade, melhorar a vida, mudar o mundo. O poeta, o artista, o filósofo, o cientista, o escritor — somos a vanguarda da História.
Somos líderes porque não podemos ser outra coisa.
Em nós, razão e loucura disputam corrida.
A razão ganha todas, mas num lindo gesto de grandeza cede sempre o troféu à loucura.
Pois é.
Qualquer coisa que digo pode estar na primeira página, porque tudo tem verdade que lhe sustenta. Até aquilo que nego pode às vezes ser verdade. E quando nego, também o faço porque creio. Assim como afirmo por amor e doçura, não nego com segundas intenções. Mesmo quando falo de mim penso no outro, no que representa para si — e para aquele que pensa ser. Quando digo "representa" não penso só em significância, mas também em teatro, jogo, simulação. Nem tudo o que significa diz alguma coisa — nos iludimos às vezes com aquilo que é real. Fala não se confunde com voz, aquela é mais profunda, tem mais cor, mais peso, mais volume.
Não dá pra se enforcar num lacinho de cordas vocais.
— Nem todo nó na garganta pode ser desatado.
Melhor engoli-lo do jeito que está — é muito melhor digerir o que estiver sufocando.
Penso em Nietzsche. “Não existem verdades definitivas”. O que existem são interpretações sobre a realidade, determinadas pelo ponto de vista e pela capacidade intelectual de quem as propõe.
O vinho é feito de agulhas, meu copo um dedal. Costuro à mão pedaços da infância — com eles faço um lençol. Peço à Lorenna que me cante cantigas de natal da Idade Média, e ouço a Singer rangendo seus pedais no meu CD. Minha mãe também costurava, pregava remendos, colava botões nos buracos, lavava roupas de amor. Vejo até sabão de cinzas no fogo que tanto me arde agora no peito, espumas de lembranças incendiadas.
— Edson?!...
— Ahn?
— Nada.
— Edson?!...
— Ahn?
— Nada.
De tempos em tempos eles me chamavam, e eu “— ahn?”. Depois da terceira pergunta, fiquei esperto. E aí veio a quarta vez:
— Edson?!...
(Silêncio profundo.)
— Edson?! Tá dormindo?...
(Silêncio mais profundo ainda.)
Segurei a respiração, não respondi, abri as orelhas como duas enormes antenas parabólicas, e fiquei aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Meu coração barulhento fazia "tum tum, tum tum tum, tum tum tum, tum tum tum". De novo, como certificassem que eu estava mesmo dormindo:
— Edson?!?!...
(Silêncio lunar.)
Então começaram. Eu tinha um misto de curiosidade e de ciúmes. Com sete anos, o sexo era incômoda, enorme incógnita para mim — e desesperada curiosidade. Nem me mexi, para que as palhas do colchão não fizessem barulho. Meus pais supunham fazer aquilo que chamavam de amor, no escurinho de um rancho de sapé, no sul do Maranhão — e eu fingia dormir na caminha fofa de taquara verde.
Naquela noite, sonhei muito. Tanto, que nem me lembro. (O mistério do sexo era maior que o meu próprio. Para mim, o sexo era um mistério absoluto. Para mim e para Freud.) Na madrugada caí da cama, a única vez que devo ter caído da cama em toda minha vida, exceto aquela em Lhasa, como já disse. Caí no chão meio duro de terra batida, envergonhado, ainda que ninguém tenha visto a cena da queda. Trepei na cama de novo, em silêncio. E dormi, um pouco angustiado, sentindo-me traído naquela madrugada perdida no meio do mato, no sul de um estado que nem mais existe.
Já dormi em colchãozinho de palha, com um pau de lenha por baixo, fazendo as vezes de travesseiro. Experiência poética que você não terá jamais. Porque, antes de ser trágica, era poética aquela experiência. Não me incomodavam as palhas nem o barulho que faziam quando se roçavam entre si, como se loucas por mim, como se me aplaudissem. Eu era tão pequeno, tão pequeno, que aquilo não era uma cama: — era o meu berço.
(Esplêndido!)
Primeiro, Luiz e Vitalina, depois, Luiz e Maria. Afinal, Luiz e Iracy. Agora, Eu e Mim. Pouco a pouco, muito a muito, fui chegando. Numa sucessão gloriosa de luz, vida, pureza e açúcar — cheguei.
Portanto, aproveite-me, tente-me, prove-me.
Sou filho do que há de melhor.
De manhã, não fico ruminando o luar que já se foi. Antes do primeiro gole de café, limpo o gostinho madrugante que minha boca possa ainda estar sentindo. Não me atenho a coisas que passaram, não me ligo a cadáveres de nada, o que morre não me encanta, eu me ocupo só do agora.
Eu amo o agora.
— Só.
Portanto, "dá-me mais um tempo, Demônio: ainda não caiu o último grão do meu relógio de areia". Busque-me mais tarde, volte depois, porque agora estou amando como Deus, ainda conquistando minha amada imortal. Não me interrompa esse último ato, a taça de cristal da minha vida transborda de amor e prazer. Quem sorve esse néctar derramado é a escancarada boca gulosa da liberdade absoluta. Para compor esse quadro com harmonia, cadência e sorriso, você tem que dançar comigo a dança livre da alegria pura.
A vida é uma festa — em todos os sentidos.
Portanto, chega de médio, de pouco, de medo, de escuro.
Viva a cor, viva a coragem viva!
Castelli, meu grande “amigo-da-onça”, sugeriu-me um dia:
— Se gosta tanto de coisas novas, Edson, case-se, tenha um ou dois filhos — e você viverá uma experiência nova.
Ao que respondi, lamentando esse conselho:
— Eu amo o novo, mas só o novo que não suprime a possibilidade do novo novo. Se um novo por acaso traz consigo o germe que tenta torná-lo perpétuo, e de algum modo impõe certas exclusividades não naturais, ainda que delicadas e ainda que passageiras, fujo dele, como Deus foge da cruz. Não posso — jamais! — amar o novo que vai me impedir novos amores. Por que razão fecharia uma situação de futuro? Como poderia eu amar uma coisa que logo logo vai acabar atrapalhando meu amor por todas as outras? Nesse caso, trocar o todo pela parte é uma impressionante demonstração de burrice!
Minha descendência não está assegurada. Ao contrário: acabo-me em mim — para sempre. Não continuo, não me prolongo, não me estico, nem me desdobro: quando me for, irei inteiro — todo.
Não deixarei uma gota sequer do meu sangue perdida por aí.
De mim nada ficará, exceto as palavras que falei, os livros que escrevi, e todos os amigos e amores que amei — a minha historia e as minhas histórias: só isso.
Filhos, netos, bisnetos: nunca os terei. Nunca.
Jamais serei proletário!
— Felizmente.
(Fico sonhando.)
E são sempre coloridos os meus sonhos. Mesmo quando sonho em preto-e-branco, vem Van Gogh e os transforma. Às vezes, vem Cézane, outras vezes, correndo desde Papeete, desde a Patagônia, vem aqui o Paul Gauguin me socorrer. Pinta as mulheres minhas como se suas, leva algumas com ele, embora.
E me lança olhares perguntantes ao sair.
Respondo sempre: — Pourquoi pas?!
Dali também costuma vir aqui. É o mais irreverente: às vezes, as ama antes mesmo de pintá-las, outras vezes, nem lhes deixa secar direito, e se lambuza em tinta fresca. Gauguin é deles o mais louco. Só Van Gogh é mais contido, mas sempre ao terminar beija a orelha delas. Já Picasso é cuidadoso: as mais feias ele apaga e diz apenas:
— Essas não têm conserto, Edson.
(Não era Picasso que usava os pincéis uma só vez, “como se fossem mulheres”?)
Algumas das "pintadas" se misturam às coloridas de verdade, e depois ficam rondando pela casa quando me acordo. Mas todas são originais, e amo-as até que mais não possa.
Ou até que a casca caia.
Eu também só escrevo a cores — vocês não vêem?
Se não as vêem — desistam.
Em terra de rei quem tem um olho só é cego!
Minha mãe e meu pai me deram o que tenho de mais valioso: a Vida. A forma de geri-la, contudo, é de minha inteira responsabilidade. Sou o gerente da minha vida, “o capitão da minha alma”, o general do meu mundo.
Sou meu próprio diretor!
O autor exclusivo dos caminhos que percorro.
Não sou como Joaquim, meu avô paterno, que era carroceiro por profissão. Não o conheci porque ficou louco bem antes de mim. Todos os dias ele ia à estação ferroviária com a esperança de fazer carreto, um servicinho qualquer — para salvar o leite das crianças. E todo dia, isso era sagrado, trazia alguma coisa para casa, embrulhada geralmente num paninho branco de saco de açúcar. O coitado era tão humilde que não posso me lembrar dele sem que chore.
Era assim: toda segunda-feira ele trazia uma latinha de massa de tomate Elefante; na terça, um pacotinho de macarrão; na quarta, cem gramas de queijo ralado; na quinta, quilo e meio de tomates bem maduros; na sexta, lembrancinha para os filhos, doce que seja, umas balas; no sábado, a garrafa de vinho tinto, daqueles de barril — e estava então completa a tão querida macarronada do domingo, ao lado dos filhos e da mulher que ele amava, Maria.
Era a sua maior alegria...
Depois, anos mais tarde, doente, chorando, tremendo de frio, ele foi abandonado pelos próprios irmãos na porta de um hospício em ruínas, na cidade de Franco da Rocha, SP.
O nome dele era Joaquim dos Santos.
Bebia, sim, mas não era um pau-d’água.
E talvez o maior erro da sua vida foi ter permitido que outros tomassem decisões em seu nome.
— Enlouqueceu do lado errado.
Fico pensando em inglês.
Because My Joyce Will Go Ann.
Outono, sábado, 22 horas, 51 minutos, 17 de abril, a pressão atmosférica ao nível do Mar Azul do Guarujá é de 759 mmHg. Ao meu lado uma prova de que a Natureza pode às vezes ser perfeita. Peso: 49,9kg, altura: 161 cm, pressão arterial máxima sistólica: 118 mmHg; mínima diastólica: 68 mmHg. Pulso: 92 por minuto. Idade: treze. Nome: Joyce Ann.
Saudável, assustada, inocente, lolita — naturalmente.
Um pouco mais tarde, olhos fechados, a Musa torna o começo da madrugada mais brilhante que aurora trazida por Lúcifer. Sua mãe, cansada de tanto nos cuidar, vai dormir, deixando a incumbência para Simone, irmã mais velha — que meia hora depois dormiu de roupa e tudo no sofá. Ou seja, Deus, em sua magnífica bondade, foi preparando o mundo para que só nós dois ficássemos acordados esta noite. Deitada com a cabeça em minhas pernas, mãos infinitamente dadas, após nelas ter passado creme suíço Collagen Elastin, ouvíamos o disco que ela trouxera: Celine Dion. A música era My Heart Will Go On — repetindo por mais de vinte vezes.
Luzes apagadas, o controle remoto nas mãos para desregular o som de acordo com o desejo de Deus. Um pé esquerdo de sandália preta na cabeça da estátua argentina que tenho na sala.
O fascículo com a biografia de Delacroix, que havia antes lido para ela, aberto na página em que a Liberdade conduz o povo.
Detalhes que moram no meu peito como se eu fossem.
Momentos que ainda me parecem o resumo dos últimos cinco mil anos de história. Quem nunca viveu o amor com tal intensidade não sabe o que está perdendo.
Aciono o controle remoto para Celine cantar Immortality para nós, e aciono o controle imediato para tocar a vida:
— Posso tocar teu coração, Joyce Ann?
— Sim.
A resposta veio rápida, minha mão direita saltou os milímetros que a separavam do peitinho-coração de Joyce Ann. É a segunda vez em minha vida que toco seu corpo dessa forma, e meus gestos, delicados, serão inesquecíveis para mim. Sei que não devo avançar demais, porém algo mais forte agora que a razão me impele, firme.
Então lhe digo:
— Meus dedos querem atravessar o tecido da blusa e tocar tua pele ao vivo, posso?
Ela sorri, esconde o rosto com inocência excitante nunca vista por mim, e diz:
— Tenho vergonha...
Não era um sim nem era um não — mas a manifestação de um pequeno temor e grande desejo ao mesmo tempo. Joyce Ann apertou-me o pulso e fez com que eu sentisse um mamilo pronunciado, espetando a palma da minha mão. Então larga meu pulso, suspira, sinto tesão e dúvidas — simultâneas. Devo enfiar meus dedos pelo decote ou procurar outro caminho mais discreto? Devo orientar as circunstâncias ou jogar-me de cabeça dentro delas? Devo jogar-me como se eu fosse um jogo ou como se fosse um brinquedo? Enquanto me decido, me questiono. Minha mão, em minúsculos movimentos circulares, dançando sobre o mamilo durinho, como prato de porcelana girando na pontinha da vareta de um malabarista chinês apaixonado.
Não era um sim nem era um não.
Há duas horas que meu sexo deliciosamente excitado me aponta um caminho como fosse uma seta — mas resolvo não segui-lo. O caminho deve ser longo para que possamos percorrê-lo passo a passo. Step by step. Decido-me deixar minha mão onde está.
No máximo, em todos os sentidos.
— Não será hoje!
Celine Dion continua "talking about love", e Luciane começa a deixar de responder, sua cabeça pende ainda mais e uma coisa chamada ternura se apossa de mim. Ajeitei sobre ela o acolchoado que já nos protegia e fiquei mais duas horas velando seu sono, ouvindo a faixa nove: "Miles To Go (Before I Sleep)”. Velando seu sono — e tentando acalmar meus instintos, enquanto vasculhava a memória em busca de momentos iguais a este.
(Não encontrei nenhum parecido).
Ela dormia criança — bem solta, entregue a si, pura, a cabeça repousando no meu colo inocente, confiante.
Como um quadro de Klimt, especialmente o Retrato de Mada Primavesi — Joyce Ann requer demorada contemplação.
O tempo foi passando, veloz, e quando meu próprio sono começou de madrugada a derrubar-me sobre ela, me lembrei de Kundera. Tento acordá-la, em vão, e há cabelos prisioneiros no meu zíper, indicando-me sonhos que imagino agora ter tido.
Levo-a para sua cama, cuidadosamente, carregando-a em meus braços de amor, como carregasse a mais sustentável das levezas de um ser perfeito — 49,9 kg de gostosura absoluta.
(Não é preciso sentir mais nada.)
Mas, antes de fechar este capítulo, uma frase, que talvez seja de Nietzsche:
“Mesmo à beira do abismo — dançar, dançar, dançar...”
Jupiter com guaraná.
Minha mãe, dizendo o que sentiu ao lado do caixão do marido, que por acaso era meu pai: "Eu só tinha medo de que não chorasse. Depois que chorei, foi como se cumprisse um dever. Ufa! Fiquei com medo de rir da cara dele, estatelado ali no caixão. Mas parte do meu choro foi além da coreografia, um pouco era verdade, um pouquinho era verdade. Mas chorei muito mais por mim do que por ele. Chorei por ter sido tão burra, tanto tempo: ficava sozinha com onze crianças, a menor com seis anos. E o filho-da-puta sai de cena justo agora... Nessa mistura de alívio e incertezas, derramei umas gotinhas.”
Era o que se esperava dela naquele momento.
— Fiz o que pude — confessa.
Fico pensando.
Meu pai morreu de ataque cardíaco.
Meu avô, bisavô, tataravô, seu pai e o pai do pai dele, todos os meus antepassados morreram de ataque cardíaco. Meus tios e primos — da primeira, segunda e terceira geração, também. Meu irmão, ameaçado. Até cunhado meu anda morrendo de ataque cardíaco.
Tenho, portanto, que romper com a tradição.
(Mais uma vez!)
Acho que meu pai bebia não para ficar alegre, mas para esquecer tristezas. Acontece que o coração dele era movido a tristezas, e quando as perdia se desesperava, tornando-se triste de novo por tê-las perdido e para tê-las de volta outra vez.
Era um círculo vicioso reduzido ao infinito.
Ele sempre me concedia dois direitos: respirar, e ser escravo — mas só o segundo era exercido plenamente. Quando Júpiter visitava-lhe o peito, me dava bolachas com guaraná. E quando Júpiter se ia, ele me dava bolachas com ódio. As primeiras, de trigo, se esfarelavam com amor na minha boca criança. As segundas, de palma, produziam feridas no meu ego. Naquela fase, ódio, guaraná e bolachas foram se alternando, cada vez mais.
A guaraná eu bebia, mas o ódio — o ódio eu devolvia!
Por isso que aos treze anos tive que matar meu pai.
Vou descrever a cena, falar das pressões, do amor, da família. Como era tudo fruto da minha imaginação, descobri que nunca seria um assassino, porque já era um escritor. Consegui cortar-lhe a cabeça num só golpe de machadinho de açougueiro mas não fui capaz de quebrar as regras da gramática.
(O texto ficou vermelho, cheio de sangue.)
Psicanaliso-me.
Será que não o matamos, nós mesmos, com ódios escondidos, vontades submersas naquela brutal atmosfera de opressão, olhares desafiadores atirados por toda parte? Será que não o matamos com risos crepitantes, fugas cotidianas, alegria inesgotável, e aquele nosso escandaloso amor à liberdade que ele nem supunha ser possível? Será que nós não o matamos — felizmente?
(No atestado de óbito se lê infarto do miocárdio. Mas quem o matou mesmo foi o médico que tinha morte no próprio nome, Samir. Fez diagnóstico por telefone, o irresponsável, e errou longe na terapia que prescreveu. Um charlatão de vilarejo!)
Ou será não morreu de tristeza ao descobrir que agia errado ao nos prender? Terá sido desgosto pela vida? O que sabemos é que acabou mergulhado em álcool, pressa, gorduras e gritos. Continuasse vivo, nosso pai seria para sempre um enigma cruel.
Tinha seu lado bom, é claro.
Certa noite chamaram a polícia, uma denúncia: havia menores numa casa de prostitutas. Ele era o delegado suplente, um cargo que ganhara do governador Ademar de Barros. O soldado Diomedes Cavalcante dirigindo o jipe, lá foram ambos fazer o flagrante, “resgatar a moral da sociedade”. (Diomedes, se não me engano, filho de Tadeu, foi educado pelo centauro Quíron, comandou os etólios no cerco de Tróia. E foi na escola de Quíron, vocês sabem, que Hércules aprendeu Medicina, Música e Justiça — mas essa é outra história grega). Assim que chegaram meu pai gritou:
“Fechem as portas. E que ninguém saia!”
Pessoas corriam, alguns pediam por favor seu Luizito, eram homens de bem, pais de família, senhores respeitáveis... Então, surpreendente, meu delegado preferido grita ainda mais alto:
“Hoje é tudo por minha conta, putada!...”
E bebeu a noite inteira.
Era um Zorba, espontâneo, com uma naturalidade que ficava no limite do vulgar, porque ao coitado lhe faltava cultura. Zorba, sim — mas com onze filhos pequenos e um Olimpo de compromissos, duplicatas a pagar, alicerces meio abertos, paredes quase erguidas. Saldo negativo no banco, e pretensões de cobri-lo. Comia apressado demais e sempre perdia a calma: só podia mesmo morrer de enfarte do miocárdio.
Mas era um grande homem: “fechava” até zona!
Quando chegou em nossa casa na manhã seguinte eu estava escrevendo numa folha de papel de embrulho um poema de amor, mentalmente dedicado a Sonia Maria, e que terminava assim:
“Depois de acender estrelas no teu céu da boca, depois de vascular os teus encantos, depois de ultrapassar os teus limites, acabei concluindo que só a união de duas grandes espontaneidades pode gerar e manter, por algum tempo, um belo caso de amor”.
Ainda meio bêbado, leu duas vezes em voz alta, passou a mão na minha cabeça e, antes de ir para o seu quarto, rosnou um elogio inesperado: “Bonito! Escreva mais, escreva mais...”
Nunca nos disse que gostava de poesia, mas certa vez mandou que plantassem trezentos e sessenta pés de girassol no fundo do quintal. Exagerado! Depois que as plantas cresceram, ele ficava todos os dias lá no fundo, sentado num banquinho de madeira, sorrindo, olhando os girassóis girarem. Ele — no fundo — talvez fosse um poeta, mas nunca nos contou.
Quando morreu, morreram as circunstâncias carcereiras de si mesmas que eu trazia no meu peito. Embora houvesse ainda um monte de coisas não resolvidas, penduradas num passado que teimava em resistir, foi fatal o tipo de adeus que nos ligou aquele dia. Antigas imagens opressoras se apagaram com o tempo, uma a uma. Tudo de mal se havia ido antes dele, ficando livre o terreno para que pudéssemos os filhos talvez amá-lo um pouco. Vivíamos uma suspensão temporária das hostilidades, uma espécie de paz armada, com certas escaramuças de vez em quando na fronteira.
As lembranças mais recentes eram brandas, quase delicadas, com exceção do excesso de álcool e de algumas ilusões.
Claro que foi chocante sua partida, e a forma como se deu.
Assim como a nossa, a vida dele era um jogo — e o perdeu.
(Quando descasco a cebola da existência meus olhos ardem.)
Mesmo as oito horas que se passaram entre a ciência da sua morte e a visão do cadáver por sobre a mesa não foram suficientes para acalmar meu coração alvoroçado. Embora vencedores, os filhos trazíamos na boca um amargo sabor de derrota: talvez um maior inimigo já estivesse à espreita das crianças que éramos então.
Imprescindível seria o retorno da mãe que pensava em morrer para salvar-se da vida.
Minha mãe arrumou-me a cama em que ele dormia, no quarto que fora meu quando morava lá. Cumprindo ordens de um deus que só ela ouvia, puxou-me pelas mãos quase chorando naquela noite e me disse, séria — não como mandasse, nem como pedisse:
— Você dorme aqui.
Olhei para o duplo símbolo de morte, vazio que esteve antes de mim, agora bem arrumado — e com amor, pela mulher que passou a ser viúva de si antes mesmo de morrer o marido.
Era como se passasse creme nos meus pés rachados...
De novo olhei firme para a cama e o lençol de metáforas que a cobria, e aceitei jogar ali por um dia o meu corpo.
Mas disse à minha alma assustada:
— Vai-te agora para bem longe daqui!
Voa, alma, voa rápido — mas volta, por favor, volta buscar-me amanhã de manhã!
(Ela voltou.)
Beijos no céu da boca.
Como nos ensinava nossa primeira professora, toda história tem começo, meio e fim.
Então, por que todo esse espanto ao perceber que a nossa história — nossa história de amor — também vai ter começo, meio
e fim?
Era outubro, chovia.
Fabiane, a musa que dançava sobre patins no asfalto da nossa rua, deliciosa, me traz um papel:
— Que coisa linda você escreveu pra Suzana!
— Escrevi tanta poesia pra ela... Qual é essa?
— Sobre a primeira vez que você a tocou sensualmente. Vou ler só o finalzinho, veja: “Se os deuses quiserem me fazer um grande favor, um favor especial; se quiserem me cobrir de glória outra vez, que me dêem de novo, antes que eu morra, mais dois ou três segundos iguais àqueles”.
— Realmente — concordo.
— Mantém essas coisas que você disse, ainda hoje?
— Tudo o que escrevi e tudo o que pensei a respeito dela; tudo o que falei para Suzana será mantido até o fim dos meus dias.
— Ela foi a única paixão da tua vida?
— No sentido que você provavelmente pensa, não, pois te considero também uma paixão. Grande e também única.
— Como assim?
— Toda paixão é única. Só que Suzana é incomparavelmente única. E quando falo dela é como se falasse de alguém que está perto de mim, dentro de mim, sobre, embaixo, em volta de mim. Alrededor. E longe ao mesmo tempo. Suzana é um caso à parte...
(Lembro aquela noite em Juqueí, no hotel, nós dois, foragidos, deitados num quarto com vista para o mar, as janelas abertas. E eu, quase sem voz, dizendo-lhe em pensamento: Agora, Suzana, agora que sinto teus mamilos espetando com açúcar minha língua trêmula, a pontinha dos seios tocando-me os lábios vermelhos; agora, que minha mão esquerda remexe teus cabelos negros, e acaricia tua orelha; quando ouço teus suspiros delicados nascendo do espírito e vivendo por tesão; agora que minha mão direita alcança de leve teu clitóris e vasculha teus pêlos e arrepios; quando sinto tuas unhas me riscando as costas de amor; agora, que estou envolvido por duas atmosferas de escândalo sobre nós; agora — justamente agora, Suzana — como eu poderia me esquecer de Deus? Como?)
Fabiane me puxa para fora de mim:
— E esses dois ou três segundos a que você se refere: gostaria de tê-los com ela outra vez?
— Impossível: dois segundos nunca se repetem — ao menos não com a mesma pessoa, o mesmo amor, o mesmo ardor, a mesma emoção. Dois segundos serão sempre outros.
— Então pode ser outra mulher?
— Deve ser outra — respondo convicto.
(E fico dois segundos pensando em Jenny Lou.)
Meu verbo vive em permanente estado de ereção, e não teria razões para colocar camisinhas nas palavras que profiro: Proteger-me do quê? Impedir metáforas de engravidar teus sonhos?
Jamais.
Porque sou um poeta — não animal invasor!
Não penetro minhas amadas, quase nunca. Primeiro, eu entro nelas com poesia. Depois, às vezes, com dedos delicados, mãos de seda, língua fantástica, ombro bronzeado, cotovelo dobrado, orelhas atiçadas, cérebro em ponto de bala. E um coração entusiasmado.
Já interiorizei meu sexo e só falo com o próprio corpo.
Um cetro sangüíneo é a última coisa que penso em colocar nas mãos de uma rainha.
A tesão da minha poesia é inesgotável.
Portanto, divinos os orgasmos que ela dá.
(Meu verbo vive em ereção.)
Hoje já é sete de março do ano que vem.
Ontem passaram por aqui Crazy e Dominique — as primeiras. Fizemos amor da forma mais escandalosa e impressionante que os nossos loucos corações conseguiram. Oito horas ouvindo a faixa sete, Destination Anywhere, tomando vinhos — brancos e vermelhos — comendo azeitonas gregas, conversando sobre a vida, tocando nossos corpos, uns nos outros — nus.
— Etc.
Nunca havia sido tão bom.
Caímos de cabeça na Ilha de Lesbos!
Tentei encontrar Danielle, mas não foi possível. (Sei que ela iria gostar também: formaríamos um quarteto de cordas). Meia noite depois, Diana trouxe uma prima, loirinha, parecendo um anjo de onze anos. Uma coisa "indescritível", por enquanto.
Ainda não voava mas já tinha asas...
Paritosh ficou tão impressionado que tive de contê-lo:
— Swami, ich möchte Käse! — grito com ele em alemão. "Nur eine kleine Portion". Ele sorri da minha pronúncia como dissesse: "Desse jeito, Edson, você nunca vai conseguir ler Johann Wolfgang von Goethe no original". Resignado, larga suavemente as mãos da princesinha, e vai buscar a pequena porção de queijo que lhe pedi.
Traz uma grande.
Fico pensando.
(A faixa sete é "It's Just Me" — Amo essa música!.)
No dia em que comprei "Os Sofrimentos do Jovem Werther" e estava lendo a primeira página, Paritosh me olhou, sarcástico:
— Edson, comece pelo "Fausto", em português. Você ainda olha mais para o dicionário do que para o Goethe...
(Acabei seguindo seu conselho.)
O sátiro corta um pedacinho de queijo, pede que Diana feche os olhos e abra a boca — mas ele, antes de mais nada, faz teatro, acaricia os ombros dela.
— Lua, qual é mesmo o nome da tua priminha?
— Jenny Lou.
— Ah... Jenny Lou...
Com o pedacinho ainda suspenso de queijo, Diana esperando, os lábios descolados, ele me olha meneando a cabeça, sorriso de Mefistófeles, e repete:
— Jenny Lou, Mahatma — Jenny Lou...
(Diana, essa, é quem me deu o disco do Jon Bon Jovi. Há também a outra Diana, aquela... — para mim, inconfundíveis.)
ImageNation is my country dot com.
Pouco depois chega R, a virgem dos mamilos enormes. Mais tarde, vestida de preto, loiríssima, Alexandra, aquela que um dia me disse: "Quando te conheci, Edson, e fizemos amor logo no primeira meia hora, pensei que você fosse um grande filho-da-puta — e te odiei. Depois, ao ver que era só um pequeno filho-da-puta, comecei a te amar, apesar de tudo. Mas quando fiquei apaixonada realmente, e vi aquele monte de mulheres ao teu lado, cheguei à conclusão de que você é, realmente, um enorme filho-da-puta."
("Gigantesco".)
E eu aqui, agora, meio bêbado, no meio dessas mulheres todas. No meio, em cima, por baixo, por dentro, por fora, por frente — e às vezes por trás de algumas delas.
Meio bêbado, mas excitado inteiro.
Aquela tarde, plena quarta-feira, com Crazy L. e Dominique, a coisa foi realmente fantástica!!!!!!!!!
(Toda vez que passo por aqui me lembro do amor que fizemos, e acrescento mais uma exclamação. Logo serão mil.)
Mas tem coisas que jamais poderei contar.
Por exemplo, a conversa em alemão que tive com a Marlene. Você sabe que as lagartixas usam força atômica para andar pelo teto e em superfícies lisas? Elas se utilizam da chamada “força de Van der Waals”, que age em distâncias curtas entre átomos não ligados entre si. Os filamentos microscópicos, pelinhos cuja espessura não passa de um décimo de um fio de cabelo de Daniele, são conhecidos como setas. Um pé de lagartixa tem cerca de meio milhão dessas setinhas, e cada uma é subdividida em centenas de estruturas menores. Fiquei massageando os pézinhos de Marlene enquanto líamos a Nature na internet. Aproveitei para registrar newwwork ponto com.
(Uma confissão: a princesinha que encantou Paritosh com sua nudez de Botticelli aparentava onze, mas tinha doze — e seus pelinhos despontavam ansiosos por nossas carícias inocentes, como se já tivessem treze).
Se, após minha morte — ou ida para a Grécia —, alguém abrir esses arquivos e ler o que digo que fizemos, vai achar que delirei, ou que usava drogas. Nem uma coisa nem outra. Delírio — só de prazer. E drogas — nem maconha. Antigamente, não fumava maconha por razões ideológicas: um marxista tinha que estar consciente. Agora — por não sei quê. Mas, só por curiosidade, saiba você que certas drogas agem no sistema nervoso central e aumentam a atividade cerebral. Algumas são de síntese, tais como ecstasy, nexus-erox, flatlyner, etc. Até mesmo o tetrahidrocanabinol já foi sintetizado e parece que se chama nabilone, o princípio ativo do colírio de marijuana.
(Fico pensando, cá com os meus clitóris e botões. 13 anos: e minha pupila vê mais longe que meu mestre. Por isso vamos dizer que a princesinha tem quatorze — ou quinze. Acho melhor livrá-lo de um processo por sedução, aumentando ainda mais a idade da nova musa. Então ela passa a ter 16. Para os estranhos, 17.)
Como disse minha vó Vitalina quando colhíamos café maduro no quintal da casa dela certo dia:
“Se a tentação passar por você, meu filho (ela me chamava de filho), e for uma tentação muito forte e muito gostosa, você tem um único caminho a tomar: Pense em Deus...”
— E peque!
Minha vó fumava, e guardava o fumo picado numa latinha meio enferrujada de manteiga Aviação. Delicadas palhas de milho, dobradas, cortadinhas, amarradas num laço de barbante antigo, esgarçado. Vitalina: eu não me lembro dela morta. Vejo-a de porta aberta, na privada do quintal, limpando-se por frente com um pedaço de papel de pão. Talvez por isso é que hoje detesto ver mulher fazer xixi: nenhuma imagem pode se sobrepor a essa que tenho viva de minha vó. Nenhuma.
Toda tarde, na janela do quarto, me aguardava passar voltando da escola. Todo dia me olhava lá de cima, sorrindo, eu lhe pedia “bença, vó!”, ela respondia “Deus te abençõe...”, — e então fechava a veneziana e se recolhia para rezar suas rezas de amor.
— Minha vó!
(De mais ninguém.)
Um dia ela me deu o melhor conselho da minha vida:
“Estude muito, não se case nunca e jamais tenha filhos!”
Esta é a receita básica do sucesso.
Fora disso não há salvação.
(Se você quiser saber como era a velhinha encantadora, assista ao filme tcheco "A Pequena Loja da Rua Principal". E procure saber o significado de aférese.)
“Lave as mãos antes de comer qualquer coisa” — me dizia.
Ela me ensinou o nome completo da Princesa Isabel. Nunca esqueci: Maria Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga — e d'Orleans, quando se casou com o Conde d'Eu. Certo dia me deu um pedacinho de papel meio amassado, que arrancou de um calendário que havia na parede da cozinha.
"Gravura de um pintor italiano."
— Sandro Botticelli.
Acabo de chorar por uns dez minutos sobre a "Virgem da Romã" que ele pintou. Anjos de asas douradas e rosas vermelhas na cintura, rodeando feito loucos um menino Jesus que acabou de mamar. E vejo ainda “O nascimento de Vênus”, a inesquecível “Alegoria da Primavera”, “Natividade”, a vibrante “Alegoria da Calúnia” — tudo nele é magnífico.
(Se você somar os minutos que já ficou olhando um quadro de Botticelli, e o total não der no mínimo sessenta, é sinal de que você não sabe porra nenhuma da vida.)
Fico pensando.
Mesmo os encontros que tenho com o Destino são marcados por mim — nunca por ele. Raramente erro mas quando erro procuro errar de modo perfeito, — errar profundamente.
Se for preciso que erre, quero sempre errar com doçura, com suavidade, consciência, critério, precisão.
Acostumei-me a ser o primeiro, em todos os sentidos.
E seria o primogênito, mesmo que viesse depois.
Único — mesmo se fosse muitos.
Também tenho dois Egos: um é esse aqui, público, que mostro aos meus amigos e aos meus amores; e o outro, lógico — é só pra mim. Ambos magníficos. Eu não seria capaz de tê-los se não os tivesse grandes, enormes.
Um verdadeiro Ego não merece ser pequeno.
Por favor, não confunda mediocridade com comedimento.
Porcos chafurdando num chiqueiro também podem sorrir, mas será que podemos considerá-los felizes?
Zaratustra dizia que é melhor ser um gladiador ensangüentado, do que um porco contente...
(Uma mão na consciência, outra na faca!)
Toda obra prima causa espanto ao ser publicada. Você sabe quantas pessoas compraram o Ulisses de James Joyce nos primeiros dois anos após ter sido editado pela primeira vez? Quantos quadros vendeu Van Gogh?
É o preço que pagamos por antecipar o futuro.
Nesta manhãzinha, quando a luz se fere de noite ainda e me descobre, sento-me aqui fora, começo a escrever. Meu coração é um viveiro e meus amores, pássaros. Dois ou três pipilam no jardim. Há na grama letras e estrelas. As primeiras me esclarecem, as outras me iluminam. Como Edson, Marx diz: “por mais escura que seja a madrugada, a menor gota de orvalho já contém todas as cores do universo. Mas a tradição, num absurdo gesto de violência, força nossa alma, em toda nossa grandiosidade, a refletir apenas uma cor: a cor cinzenta daquilo que se apaga.”
Estou morando numa casa que tem tramela, uma corruíra canta ali na laranjeira e a tampa da chaleira de alumínio começa a tremer lá dentro, no fogão de lenha. Nenhum barulho que não seja agradável. Um tiziu aveludado toma a decisão de me encantar, saltando vertical no palanque do portão. Se a gente não nasceu num lugar assim como esse pode ainda ter a sorte de renascer num parecido.
Sinto-me Herman Hesse cultivando rosas e alfaces, tocando clavicímbalos e coçando o saco.
(Na verdade, fico pensando, a casa não tem tramela)
Fabiane me puxa de novo para o agora:
— Posso ser eu, talvez?
(Falávamos da possibilidade de me apaixonar de novo, por outra mulher que não Suzana.)
— Poeticamente sim, mas efetivamente — não.
— Por quê?
— Você não tem mais a inocência que Suzana tinha.
Ela abre os braços, simulando perplexidade:
— Então você só ama as inocentes? E as pecadoras, Edson, como ficam?
— Pecadoras não existem, você sabe. Tua inocência é menos angelical que a de Suzana: — este é o ponto principal.
(Às vezes uso pronomes da segunda pessoa para aproximar-me da terceira. E se uma regra da gramática enjaula a Estética, temos de quebrá-la por amor. Tenho licença poética para ser livre.)
— Além de inocência, o que precisa ter a mulher para que você se apaixone por ela?
— Não sou em quem decide — respondo. — É meu coração.
Ela me olha candidamente, e pergunta:
— Onde está aquele teu poema das mulheres?
Levanto e vou procurar no armário do fundo.
“Sou um emprestador de verdades. Você pode usar as minhas quando quiser. Só que tem um problema: todas vão carregadas de dúvidas. E as dúvidas vão minar essa estrutura de ilusão que você adora tanto...” — fico pensando enquanto procuro.
Nossa! Há quanto tempo não lia os Provérbios do Inferno, de William Blake. Vejam este, que lindo:
“O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.”
Volto com meu livro (aquele tempo ainda inédito) “Beijos no céu da boca”, e abro na página 140. É um belo poema, escrito quando estávamos ao lado de uma cachoeira, e Suzana foi o modelo que se despiu dos preconceitos para que eu a esculpisse de amor entre os seus versos e folhagens.
Mulheres!
(Começo a ler.)
Mulheres
Não me bastam os cinco sentidos para perceber-lhes toda a beleza. Para viver o mistério profundo que trazem consigo eu preciso de mais. Eu tenho que tocá-las, cheirá-las, acariciá-las, penetrar-lhes o sorriso, sentir o seu perfume, beijar-lhes o céu da boca, ouvir suas histórias, transformá-las em deusas.
Tenho que dar-lhes o amor que ao meu corpo as conduz, e na volta sustenta-me a alma.
O amor natural de todos os corpos humanos do mundo.
Tenho que dar-lhes a posse imprecisa de mim.
Como num espelho de paixões em labareda, quero sentir nos seus olhos o mais raro brilho diamante.
Eu as amo como se lhes devesse a Vida. E as venero com a graça de um cisne nadando num lago tranqüilo e a ousadia de um touro selvagem recém-despertado.
Não lhes faço perguntas, não as pressiono por nada, nem quero mudá-las jamais. Imagino o que sonham e entro no sonho delas.
Cavalgo em pêlo um cavalo branco para visitar-lhes as razões e as emoções, a loucura e a libido.
Como um Deus que se liberta da sua própria mitologia, eu me surpreendo em nome da Criatura,
Entro no coração de cada uma como se entrasse no meu.
Mergulho nos seus desejos e me espanto com tanta fantasia, com tamanha formosura. Os sentidos, por não serem precisos, não bastam, e eu preciso mais do que cinco para compreendê-las.
Porque toda mulher é silenciosa por dentro. Sua existência se manifesta em cada detalhe. Assim na terra como no céu, o amor tem que ser livre. Bendito sou entre as mulheres.
Fazer amor tem que ser uma experiência religiosa.
Por isso eu as amo como fina substância, como deve amar quem ama de verdade: incondicionalmente.
— Sem ciúmes.
Amo as morenas e as loiras, as baixinhas e as altas, as lindas, as quase feias. As virtuosas, as magras e as gordinhas. Diabólicas, tímidas, mentirosas, iluminadas, pecadoras ou santíssimas, virgens, pobres, ricas, loucas, inocentes ou safadinhas — não importa, eu amos todas. As bronzeadas e as branquinhas. As inteligentes e as nem tanto. Desde que sensíveis, eu amo as jovens, as velhas, as solteiras, as casadas, as noivas, as separadas. As amadas e as abandonadas. As livres, as que lutam por liberdade — e também as indecisas.
E se me dessem o poder, o tempo e a chance, eu a elas daria um orgasmo sublime — todos os dias.
Poeticamente.
Apanharia flores silvestres, tomaria sol com todas elas.
Andaríamos descalços na areia, contemplaríamos crepúsculos cor de abóbora, jantaríamos à luz de velas, dançaríamos.
Tomaríamos vinho branco, comeríamos morangos.
E eu lhes faria poemas de amor olhando estrelas.
Puro como um anjo, amaria todas eternamente — uma por vez. Com delicadeza, com doçura, com inocência. Entusiasmado, como se cada fosse única... Como se no mundo não houvesse mais nada.
Todas as noites, sem pressa, passaria cremes e encantos no seu corpo, falaria sobre fábulas, contaria histórias românticas, as veria dormir. Ao som de Vangelis, velaria por um tempo o sono delas, e de madrugada, antes do sol raiar, antes do primeiro pássaro cantar, cobriria seu corpo com o resto de luar que ainda houvesse.
— E sairia em silêncio.
Felino, deslizaria pelo cetim azul-celeste dos lençóis, saltaria por sobre todas as metáforas, e sorrindo iria embora.
Enfim, se eu fosse Deus, não mais cuidaria do universo, nem dessas coisinhas banais.
Não ficaria controlando o destino das pessoas, o tempo, a pressa, a hora de chegar, o átomo, as ondas do mar, o caminho dos planetas, os genes, o cotidiano, a Internet, o infinito, a geografia.
Não!
Eu somente iria amar as mulheres.
Como elas merecem — e como nunca foram amadas.
Só isso — definitivamente.
Nada mais, nada mais.”
Eu somente iria amar as mulheres.
Foi o que eu disse.
Fabiane recosta a cabeça no meu ombro, segura forte minhas mãos, sorri e me sugere:
— Não precisa dizer mais nada.
(Não digo?!)
Mas o tempo passa, voando, e hoje estou aqui.
Escrevendo coisas que nem sei se alguém vai ler.
“Ceux Qui parlent d’Amour sans le réfèrer a la vie quotidienne ont un cadavre dans la bouche” — se meu francês estiver bom, é assim que se reescreve algo que li na memória.
(Penso no meu poema Mude e quero mudar de vida.)
Mas agora não.
Vibro quando minha sensibilidade vai mais fundo que meus olhos no objeto que eles tocam. Sinto que uma coisa redonda desliza entre nós nesta tarde azul do Guarujá. O Atlântico manda um vento oceânico e sinuoso sobre as coisas que vivemos nós três nesta hora feita de açúcar e escândalo. As cortinas voam.
Cris me conta seus sonhos e diz que o maior deles está muito longe dela. Digo-lhe que isso é bom e mau ao mesmo tempo. Mau, porque há distância entre a coisa e seu desejo. E bom porque já tem consciência do caminho a percorrer.
(Sentir-se preso é o primeiro passo para se ver livre.)
Peço-lhe que me conte um sonho erótico. Vai falando. Sonhou com uma casa enorme, muros altos. Cris tem lábios indecisos, não sabem se riem ou se beijam. Fala como se nada tivesse a dizer, numa espécie contida do que não se deve esconder. Seus mamilos crescem quando suspira, despontam como dois sóis, os de Danielle respondem de forma igual. E algo até mais profundo que sensibilidade começa a sobrevoar nossas cabeças escandalosas.
Cadeiras são arrastadas, copos se desesperam, as águas ficam revoltas, meu vinho vai transbordar.
Como um Zaratustra adolescente eu lhe pergunto:
— Me diga, Cris, qual a coisa mais importante da vida?
(Ela responde com palavras que fascinam.)
— Volte ao sonho — então lhe peço.
"Há uma casa onde mora minha mãe, e no fundo outra, mais escura. Vejo homens nus dormindo aos montes. Dezenas de corpos vivos, belos, entregues a uma escolha que posso fazer. Ando um pouco mais, eis que um deles surge de repente e me cobre com seu gozo surpreso. Esfrego cremes de vida no peito branco, me lambuzo como nunca e volto correndo ao pesadelo que existe no outro lado do sonho. Há um guarda me esperando no portão da nossa casa, em pé, me olhando mudo, gigante de braços cruzados, como já soubesse o que senti. Então, armada de medo, acordei do pesadelo que havia no meu sonho e fiquei sonhando só. Em seguida, pouco a pouco, como fugisse de mim, fui me acordando do sonho também. E quando acordo totalmente, horrorizada, sinto que em verdade voltei para dentro dos dois outra vez..."
O sonho de Cris me joga direto no peito aberto de Freud.
Danielle lembra que sonho "é a realização disfarçada de um desejo inconsciente". Para Freud, o inconsciente é uma espécie de saco de lixo, onde nossas experiências reprimidas se acumulam — ou seja, a parte não escrita da nossa biografia. Não sabemos o que fazer com tais coisas, mas também não as jogamos fora.
Para Jung, o inconsciente repousa na biologia, e as energias do corpo são as mesmas que nos fazem sonhar. Chamo Carl Gustav para que me ajude na análise, mas o sonho agora de Cris é a prometida massagem nos pés. Arrumo um colchão na sala, cubro-o de amor e cor de rosa, e peço a ela que fique da forma que quiser.
Deita-se de costas e se entrega ternamente à minha espantosa naturalidade. Vejo uma alma que suspira desenhada no lençol, e me transformo no Picasso da primeira fase preparando uma gravura.
Suas pernas são perfeitas, seu corpo é feito à mão.
Beijo-lhe a testa, peço que relaxe, tento soltá-la de si, toco em seus lábios. Ponho Enya trazendo celtas, recomendo:
— Feche os olhos, e só os abra se Danielle te pedir.
Então fez-se o silêncio mais completo e mais gostoso que é possível de ser feito, nessas horas encantadas em que as humanas emoções se mostram todas à flor da nossa pele. Danielle deita-se ao seu lado, e sussurra docemente:
"Pense numa flor, Cris, e respire como se amasse."
(O que veio depois não é preciso que eu conte — sou discreto. Só digo que tudo teve a ver com amor.)
Agora que elas se foram, Ticiano se abre para mim, na página certa. Bebo o restinho de licor que ficou no copo, chupo a fatia de laranja baiana dentro dele, e beijo o olhar que Danielle deixou no espelho da sala, pregado como se fosse um bilhete.
Só me resta chamar Baco:
— Traga-me, Deus, mais um copo de vinho!
Já estamos em abril, e este ano ainda não abri nenhuma garrafa de vinho. Todas foram abertas por Baco — em pessoa. (Sei lá por quê, lembro agora que Dionísio conquistou a Índia viajando numa carrocinha puxada por dois tigres de Bengala). Assim como orgasmo, tem vinho lógico e vinho não. Alguns são silogismos, outros nos enganam — falsos raciocínios. Aqueles que têm premissa maior, premissa menor, e conclusão — todas verdadeiras — são dos bons: descem redondos, aromas complexos de frutas vermelhas, cedro, chocolate, e falam à baunilha atijolada. Mas, os outros, os outros não dizem quase nada.
Uma espécie de orgasmo chocho.
Puro vinagre!
Preciso às vezes pisar nos lagares em que me leva Baco.
Piso, e piso dançando, não como se fizesse vinho, mas como fizesse amor. Vinho e amor: essas coisas quase sempre se misturam, aos meus pés.
Paritosh me garante que a louca arquitetura dos meus amores e a composição dos vinhos que Baco me traz — são coisas que sempre o confundem.
(Pode ser.)
Certa época ele desapareceu por mais de quinze dias, o safado.
Quando voltou, sorrindo, como se nada tivesse acontecido, dei-lhe um forte abraço e perguntei:
— Por que sumiste tanto tempo, Paritosh?
— Pra te conceder o direito de me sentir saudades!
Senti.
E tem gente que é capaz de morrer tentando ser feliz.
Mas do lado errado.
Os idiotas quase se matam na luta por aquilo que chamam de vida. Usam dois relógios de pulso, pager, telefone, celular. Amam o despertador como se amassem um deus, tomam taxi, ônibus, avião, metrô, lotação, elevador. E ainda sobem escadas, inclusive rolantes. Às vezes brincam, namoram, brigam, casam, ficam, descasam, se esgotam, casam de novo, trabalham, separam, quase piram. Se perdem, gritam, correm, caem, sacodem, suspiram, levantam, quase nem respiram. Trabalham, se ferram, atendem, digitam, suportam, bajulam. Engolem, rastejam, trabalham mais ainda, se juntam de novo, empacotam, remendam, amarram, vomitam.
— E ainda sorriem...
Mas o pior é que fazem tudo isso e continuam infelizes.
Esses medíocres não pensam na possibilidade de mudar de vida. Ridículos, acham que seu estilo de viver é o máximo.
— Que horror!
Parece que misturam em si mesmos doença e crueldade.
Sócrates dizia que os maus acabam fazendo mal a seus próximos, e os bons, algum bem. Concordo — porque os maus não podem ser bons a ninguém, pois isso seria contraditório. Os maus não conseguem amar, nem podem ser amigos. Por mais que pretendam fazer algum bem a quem pensam querer bem, será um bem sem virtude, feito por escusos interesses, com segundas e horrorosas intenções.
Nunca será um bem natural, espontâneo, puro, porque isso iria contra a própria natureza dos maus.
Fuja dos maus, portanto — enquanto é tempo.
Procure os bons.
E Paritosh me ajuda no raciocínio:
— Os maus acabam sendo cruéis também para si, mais cedo ou mais tarde, pois, ao conviverem consigo mesmos por muito tempo, e fazendo o mal que sempre fazem, deturpam o restinho de alma que ainda possam ter. A menos que entrem num contraditório processo de alienação, tornam-se insuportáveis para si mesmos. Além do mais, os maus acabam ficando péssimos.
— Só é cruel quem é fraco — eu digo.
— Claro: quem é forte não precisa ser cruel — ele finaliza.
Tento mudar de assunto:
— Conte-nos alguma coisa do Kama Sutra, Paritosh.
— Depois. Agora quero fazer umas rabanadas.
“O inteligente nunca será cruel.”
Peço que coloque La Traviatta. Saudades do Verdi.
Ele sorri, levanta-se em silêncio e põe La Cumparsita! Abre os braços e sai voando em direção à cozinha, dançando alto, irônico:
“Si supieras, que aún dentro de mi alma conservo aquel cariño que tuve para ti...”
Joyce Ann me abraça e diz:
— Esse cara parece louco...
— É o jeito dele, logo você se acostuma — justifico. E mais tarde vi que também dancei: “Los amigos ya no vienen ni siquiera a visitarme, nadie quiere consolarme en mi aflicción...”
— O que significa o nome Paritosh? — ela pergunta.
— Paritosh Keval: Contentment, Aloneness.
— Não entendi...
— Contentamento em solitude, alegria de estar só.
Cerca de uma hora depois ele volta com as rabanadas, deliciosíssimas, e três meias taças de leite gelado.
— Mestre, como se faz rabanada? — pergunto.
Faz de conta que não ouve, e me entrega dois cartuchos de vídeo embrulhados num saquinho do Pão de Açúcar.
— Edson, essa menina disse ontem que não sabe quem foi Shakespeare. “To be or not to be” está em Hamlet, não se esqueçam. Trouxe o “Macbeth”, do Polanski, mas tem muito sangue, melhor que ela comece com “Othello”, dirigido pelo Oliver Parker. É recente, leve, bom para um primeiro contato. Se puderem, vejam mais tarde ainda hoje, com bastante atenção nos diálogos.
Coloca a 40 “do Amadeus”, primeiro movimento, ouve só um pouquinho como se lembrando de alguém, e troca o CD. Vejo que se esqueceu da Traviatta. Andrea Bocelli passa então a nos encantar, e vai dizendo “Ammore mio, stamme vicino a Dio”.
Paritosh, compreensivo, retorna ao mundo e à receita:
“Como será o sonho de um cego?” — penso.
— Muito fácil: Bater três ovos de galinha, tomando-se antes o cuidado de retirar a membrana que recobre a gema. Adicionar duas colheres de açúcar, de preferência cristal. Como é para nós três, pegar seis fatias de pão de fôrma...
Eis que é interrompido pela vibração do celular. Atende sorrindo, conversa uns dois minutos com alguém que não sabemos que é e encerra o diálogo quase gritando, alegre, entusiasmadíssimo:
“Estarei aí em dez minutos, menina! Te amo também!”
Dá-nos um beijo no rosto e sai — voando.
“É a membrana da gema que tem cheiro de ovo...”
Ficamos comendo as “misteriosas” rabanadas, recobertas de canela da Índia, Joyce com a cabeça no meu colo. Falo da papoula azul do Butão, e ela quer saber mais sobre Paritosh.
Eu me interesso, vocês sabem, por tudo que leva ao êxtase, mas mesmo quando vejo um belo corpo de mulher ao meu lado não me espanto, não tenho desejos velozes, não me surpreendo, não sinto medo, nem tenho pressa.
A forma revelada de uma musa tem que ser contemplada sem o apoio dos sentimentos meramente humanos.
Meus olhos são de criança, claro, mas não infantis.
Por isso, vejamos Othello, simplesmente.
Joyce Ann chorou nos meus ombros, chorou pela sorte de Desdêmona. “Eu não queria que ela morresse...”. Gostou tanto do filme, que vai “amar tudo de Shakespeare”. Veremos.
Lembro-me agora da música que minha mãe cantava:
“Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora...”
Foi nessa mesma noite, em algum lugar do passado, que lhe fiz a grande declaração do amor possível:
“Quero de ti fazer uma estrela — não uma esposa!”
(Mas Joyce Ann não me entendeu.)
Compreendo.
Também sou humano.
Por isso, mais tarde, na mesma noite, coloco para rodar no ato a Rhapsody On A Theme of Paganini, de Rachmaninov. E me lembro dela, você sabe quem. Quando falo dos meus amores, este livro vai ficando de trás pra frente. As musas mais recentes ficam nas primeiras páginas. E agora, folheando-o, vejo que uma delas está lá na 180, não porque tenha caído; eu é que aumentei a velocidade, a freqüência e a quantidade das minhas paixões.
Júpiter costuma mandar-me deusas em baciadas.
Musas — uma por dia.
Vejo duas havaianas branquinhas que ela deixou no corredor. Jenny Lou acabou de chegar pela segunda ou terceira vez, e o fato de entrar descalça me diz alguma coisa. Quero partilhar minha sensibilidade com você. Tem horas que eu sinto tanto, tanto, que nem consigo sentir tudo sozinho, e preciso repartir as emoções em toneladas. A nave pulsante do meu vôo intelectual é movida com a energia mais potente que existe no universo — orgasmo! Meu coração — motor à explosão. E o combustível é tesão nuclear a quente.
Jenny Lou fica dançando um tempo pela casa.
"Santa madre de diós!" — a princesinha está com um biquini de crochê, quase cor da pele. Santa madrecita de diós. São 12h37 deste dia que é eterno. Uma princesa esculpida por Michelangelo no momento mais inspirado de sua vida. Hoje ela dormiu em minha casa e acordei pensando nela. Nada mais havia no meu cérebro, além da sua imagem. Meu hipotálamo, cerebelo, córtex — tudo refletia o que vi ontem à noite na horizontal mais diabólica que um deus se permite. Momento inspirado da vida de Michelangelo e da minha, a princesa descalça me encanta. Seus olhos verdes, seus cabelos de trigo, seus peitinhos começando a despontar, a futura mulher já me abraça forte — e sinto seu corpo colado ao meu.
Até as músicas já ouvidas me parecem novas, hoje.
Cortei laranjas em pedacinhos para colocar em sua boca, senti nos meus dedos sua respiração de cerejas, e seu umbiguinho — ah! — como meu indicador vibrou tanto quando penetrou nele, como se fosse fundo. Ela tem um corpo que parece alma. Bela e frágil como orquídea de estufa. Deve ter quarenta mil, oitocentos e noventa e sete gramas de gostosura, distribuídos por mil e seiscentos milímetros de altura. Meus lençóis agora brigam no armário para ver qual deles será o escolhido para recebê-la sobre si esta noite.
Jenny Lou — este nome é um poema, ele só.
Quando eu o pronuncio, minha língua dança no céu do céu da boca da boca. Jenny Lou — história de amor histórico. Sua presença faz com que eu saia do meu corpo e entre nela. Jenny Lou, nunca pensei que um dia fosse tanto. Nunca pensei que houvesse tanto amor em mim para ser dado, recebido, sentido, distribuído, tanto...
Meu deus!
— Jenny Lou.
Eu pensava que já sabia tudo nesse área. Engano astronômico, só menor que o amor que hoje sinto. Meu reino não precisa de rainha mais: a princesinha será tudo.
— Lolita!
Amanhã já poderei até morrer. Dois ou três dias dessa forma valem por duas ou três eternidades.
(Ela saiu, e eu espero: diz que vai voltar.)
Como olharei para outra mulher depois de agora?
— Jenny Lou...
Sempre pede que lhe passe cremes e óleo de amêndoas. Tirei seus cinco anéis com minha boca hoje à tarde, enquanto flutuava na rede amarela (se eu tirasse da cor a primeira metade da rede, só iria amá-la.). Passei creminhos no seu corpo todo e me espantei com sua belíssima clavícula. Princesa dos cabelos de trigo, modelo preferida de Van Gogh quando pinta seus trigais. Algo de muito profundo no ar ao meu redor. Seus peitinhos parecem menores que os mamilos...
Tenho de inverter o que penso sobre ela, mas sobre ela já não penso mais: amo, só.
— Jenny Lou.
(Nosso pássaro dia voa!)
Acabo de vê-la dormindo no quarto, pequeno vulto desenhado no lençol. Vulto que respira arte, desenho no lençol como se fosse um quadro. O lençol se torna tela. Sinto-me pintor naquela cena, seus cabelos, soltos, amarelos — o verão acaba de fazê-la descoberta, a melhor descoberta desse novo mundo.
Eu me desbravo!
É bom lembrar-se de que estou na Espanha...
Dá vontade de ser um decidido, um delicado Cortez, e mandar queimar os barcos para nunca mais sair daqui. Me descubro, também, até das coisas mais profundas que eu nem sabia mais haver em mim. Penetro-me feito Deus que se procura, meus olhos se acostumam, e a penumbra se esclarece pouco a pouco.
Já posso ver-lhe agora suas linhas encantadas, novelo de vertigens em que tento me enrolar. Lábios levemente descolados, a cabeça inclinada — tudo solto nesse corpo que suspira.
Espigas amarelas que balançam se as assopro, os trigais são de Van Gogh, novamente. Um tecido escandaloso cobre-lhe as pernas levemente abertas, dobradas, naquele ponto que é o limite entre a despreocupação e o convite à pura sacanagem. A mão esquerda repousa ao lado da cabeça, a blusinha azul, claro, respirando ao mesmo tempo. Madrugada chega me ajudando a vê-la mais e há mais luz no meu olhar — mas a noite, desgraçada, a quer toda para si.
Para ver melhor a musa, tenho que brigar todos os dias com as trevas deste mundo. De todo os mundos.
Fiat Lux! — tenho vontade de gritar ao lado dela.
Gênesis, 1:1.
Não quero mais nada, só vê-la como um deus que se levanta. Pois vou lá de novo e vejo-a mais um pouco, ela dorme como se nem existíssemos. E se meu amor profano é sagrado, me lembro de Ticiano — sou agora ao mesmo tempo os dois lados do meu quadro: o da esquerda e o da direita, o de dentro e o de fora.
Quando pinto Jenny Lou, me encanto azul.
Até quando, até quando será que me apaixonarei assim?
Parece que amo cada vez mais, e mais musas me escolhem para ser minhas. Acreditem, não sou eu que as escolho — são elas que se escolhem por mim.
Amanhece.
Nesta manhã brilhante tomo banho demorando, como se o próprio chuveiro estivesse no gerúndio — e penso no que vi com esses olhos que hão de um dia comer a Terra.
Paritosh já se foi, não sem antes me dizer:
— Cuide bem da princesinha, Mahatma. Não corra o risco de espantá-la com gestos indelicados, ou coisas que ela não queira. Lembre-se: "nem toda musa pode ser amante".
(Como se precisasse mostrar-me o que já sei...)
No fundo, a virgindade não está no hímen da própria virgem, essa membrana só impede a penetração, nada mais. Mas quem disse que quero penetrá-las? — Eu quero é só ficar tocando com amor a superfície dos seus lábios. O hímen é apenas um símbolo em forma de guarda. Simula proteger do futuro um passado que já não há.
Sempre amo como se ama a primeira pessoa.
Toda virgem tem que se amar como amasse a Primeira Pessoa — tanto de um lado, quanto de outro. Um evidente sinal de que amo: escolhi o shampoo que Jenny Lou prefere e deixei o frasco no banheiro. Agora, todo dia lembro-me dela quando começo a me molhar: tomo banho com as espumas que ela gosta.
Hoje, portanto, sou movido a duas coisas indispensáveis: — memória e escândalo.
Fico pensando.
Há treze anos Jenny Lou nasceu. Mas a musa, só anteontem. Há doze anos, onze meses e quatorze dias, mais precisamente, nasceu essa gloriosa figura. Há quatorze anos, era apenas uma possibilidade entre as duas que talvez houvesse no Divino Saco do Deus que a gerou. Vocês sabem, musas não são geradas por um espermatozóide fecundando óvulo, não — elas são concebidas com a graça orgástica dos espíritos santos.
São poucas, portanto.
Mas, felizmente, todo dia nasce uma nova.
Pelo menos uma — a minha!
(Amanhece outra vez.)
Molhei meu dedo com North Wind, tento acordá-la com perfume, suspirou talvez dentro de um sonho e nem abriu seus olhos verdes. Vou à sala e ponho Enya na vitrola, encantadora. São nove e quinze, mas o tempo é coisa que não há. Ligo o computador, sinto cheiro do café que está passando. O vento refrescante vem do sul, o perfume foi Suzana quem me deu, o disco, Janaína que escolheu e a musa, trazida por Lúcifer e Diana. Eu — nascido de Iracy.
As circunstâncias que me envolvem são todas feitas de amor e açúcar. Há uma conjunção magnífica de fatores contribuindo para que tudo fique perfeito nesta manhã em que o próprio Deus se anuncia, fazendo conspiração com os meus desejos.
Erotizo o ternura que lhe dou agora.
A realidade cai de cabeça naquilo que eu sonho!
Lembro-me de Edma Lux, uma das maiores paixões da minha vida, que escreveu no seu livro filosoficamente feminista “Perguntas que uma Mulher faz quando Sonha”, a sugestão de um:
Infinito jantar
Faça o mínimo, que a Providência se incumbe do resto.
“Saia e respire o ar mais puro que puder. Sinta o perfume da vida. Veja as árvores, o movimento. Observe o céu, penetre no azul. Veja um pássaro em pleno vôo, e voe com ele para onde quer que seja. Olhe nos olhos das pessoas que encontrar — no mesmo sentido. Os homens mais bonitos. As mulheres mais bonitas. As vitrines. Não: não aceite convite para um café. Nem para nada — nada! Nem pense em convidar ninguém. Passe pelas pessoas como abelha passando por margaridas em flor. Ultrapasse-as. Siga em frente. Veja a criança que passou. Troque sorrisos. Ande como estivesse passeando.
Compre então a flor mais bonita, e uma garrafa de vinho do melhor. Volte calmamente para casa e deixe o mundo no portão. Tire a roupa toda e ande nua por uns tempos, como desfilasse no Olimpo. Se o vinho for branco, ou rosé, ponha-o para resfriar um tempo, na temperatura que você prefere.
Deixe uma comidinha preparada, daquela que você mais gosta, simples. Pode ser omelete de rum, com um pouquinho de caviar ao lado, ou peixe de água doce cozido em vinho branco e suco de laranja. Pode ser fatias de presunto com melão, ou arroz soltinho com caldo de feijão; ou salada de tomate com manga e agrião; ou dois ovos fritos na manteiga de cabra e cobertos com folhas de manjericão — qualquer coisa... A comida não importa qual, desde que seja boa e feita de amor. Comida, como sempre, é apenas pretexto.
O importante é você.
Troque os lençóis, coloque aqueles mais bonitos e macios, deixe a cama arrumadinha, esperando. Borrife um pouco de perfume no seu quarto, olhe-se no espelho, de frente, de lado, de costas, de dentro — e respire fundo. Acenda na sala um incenso — com fósforo, porque tem cheiro de pólvora — talvez um Poem, indiano, e espete a varetinha numa laranja madura. Ponha aquela música de que você mais gosta. Uma vela comprida e azul no castiçal de bronze. Desligue o telefone e todas as campainhas que houver no teu mundo.
Livre-se de tudo o que for supérfluo.
Tome então um banho demorado, com teu sabonete preferido. Cante alto no banheiro. Quando terminar, passe as mãos pelo corpo, como fosse para tirar-lhe todas as gotas de água que houver, espécie pura de massagem carinhosa. Enxugue-se com a melhor toalha. Maquiagem leve, baton discreto, o melhor perfume, aquele que lhe traga as mais deliciosas lembranças. A calcinha de algodão. Vista uma roupa linda, fresca, leve, macia. Prepare-se como se fosse a uma festa no teu corpo, uma festa onde a tua alma vai hoje ser rainha.
Descalça, como deusa sorridente ao sair de um labirinto.
Respire mais fundo.
O vinho, que já fora escolhido com amor, deve agora ser aberto com mais amor ainda. Se possível, uma taça de cristal tcheco. Se não tiver, serve uma dessas francesas, grande. Ou um simples copo, transparente, bem lavado. Sirva delicadamente. Sente-se. Levante o copo contra a luz. Sinta a temperatura do vinho, sua cor, o seu cheiro. Esmague o vinho com a língua no céu da tua boca, como se esmagasse um cacho de uvas maduras num vinhedo do sul em dia de sol de primavera. E sinta o sabor.
Nenhuma expectativa. Ninguém vai chegar. Você já cuidou para que ninguém chegue nos próximos dois mil anos.
A festa é para uma só pessoa.
Você tem agora todo o tempo do mundo.
Porque, se você não tiver todo o tempo do mundo, não adianta.
(Se você tiver pressa vá fazer outra coisa!)
Então arrume a mesa como se fosse a própria Babette. Um prato, um talher, um guardanapo de linho. A flor que você trouxe, num vasinho de cristal – ou numa garrafa vazia de qualquer coisa, tanto faz. Mas é indispensável a flor ao lado da vela. Todas as outras luzes apagadas. Acenda outro incenso. Baixe o volume da música.
Nenhuma chance de que possa haver interrupção dessa liturgia de amor.
Nenhuma possibilidade de haver intervenção do horror.
Toda a atmosfera envolve então o teu corpo — e o consagra.
À alma, ao vinho, ao silêncio — à vida!
Você está com a consciência à flor da pele: seria capaz até de ouvir uma mosca tossir. O ar fresco que penetra pela janela e levanta um pouco a cortina. Um cachorro late lá na rua, na esquina. Você se lembra de certas coisas que estão longe, e de outras que estão perto. Pega o talher como pegasse um violino, começa a comer, sem pressa alguma. Sem barulho. Mastiga demoradamente, sente o gostinho real daquilo que logo fará parte do teu corpo, do teu sangue. E bebe o vivo, também sem pressa, como estivesse deitada num altar católico, olhando você mesma no teto da Sistina.
E sorri. Por dentro, um festival de gostosuras.
A vela está balançando as sombras vivas das coisas livres.
Você fica à mesa o tempo que quiser.
Quando se der por satisfeita, leva para o quarto o castiçal, a flor, o silêncio, a vida. E a garrafa com o vinho que sobrar. Deita-se do modo mais confortável. Nenhuma expectativa, só o coração pulsando de alegria. Tira a roupa devagar, passa óleo de amêndoas no teu corpo, respira fundo duas ou três vezes. As mãos, bailarinas que deslizam pelos seios, dançam o que há de melhor. Acariciam. Então você enfia a mão direita por dentro da calcinha, sente o monte de Vênus, a floresta de pêlos macios, desbrava essa incógnita que atende pelo nome de menina. Passa os dedos leves nos seus lábios úmidos de amor, espalha delícias por todos os pontos. (O dedo médio pode ser o máximo!). Olhos fechados, você vai coleando, movendo-se numa coreografia de cobra em êxtase.
Caminha até o topo da pequena montanha.
E vai se tocando como se música.
Devagarzinho...
Você vai se amar como nunca — como sempre.
Tua mão esquerda desliza pelos seios, umbigo, garganta, clavícula, boca. E a música crescendo, de tal forma que se pode ouvir teu sangue correndo por sob a pele. Há um rio dentro agora de você — fluente. E que logo vai transbordar.
De alegria. De prazer. De tesão.
Você viverá o maior orgasmo da tua vida.
Em seguida, você abre os olhos e as outras portas do paraíso também, uma a uma. Depois, com o restinho de luz que a vela estiver dando, pega um livro de poesia para ler. Pode ser Rilke, Paritosh, Adélia, Cecília, Pessoa, Leminski — qualquer.
Talvez Neruda, como este: “Aqui llevo la luz compañera / y la extiendo hacia el mar / y abrirá su cuerpo en la noche / y yo duermo cubierto de estrellas / y canto / y llegará la mañana / con su rosa redonda en la boca / yo canto / yo canto / yo canto / yo canto.”
Com certeza, você viverá hoje o mais belo sonho possível nos braços abertos do Amor, antes de seguir — livremente — em direção ao infinito de todas as coisas.
(Ah. Que saudades que eu tenho de Edma Lux...)
Viva, a Espanha!
Na verdade, é a velha Lei das Possibilidades estraçalhada por um golpe de sorte. Ontem jantamos com Janaína. Pizza, tomates secos, muzzarella, rúcula, quatro queijos, meio a meio. Tomamos um Santa Helena, que não conseguiu nos fazer a cabeça. Então convido-as para um Mateus branco em minha casa. Duas horas de conversas, entusiasmo, chocolates, poesia, pedacinhos de laranja.
Jenny Lou e Diana se despedem, vão dormir.
Mais tarde, Paritosh leva embora Janaína, e eu vou andar na praia por um tempo. Quando volto, o sátiro, que chegou antes de mim, está abrindo a porta do quarto em que as meninas hoje dormem. Pé ante pé, entrei com ele. Diana (que surpresa), calcinha preta, deitada de bruços, bundinha virada pra si mesma. (Silêncio). A cortina balançando suas brancuras, o ar fresquinho da madrugada-quase nos inunda de arrepios. Swami sugere com um gesto de cabeça que eu acaricie Diana — mas não quero, apesar das lembranças deliciosas que tenho dos seus seios. Ele sabe, o sátiro lúbrico, que hoje nós dois queremos a mesma coisa:
— Jenny Lou!
Quando ambos fazemos a mesma escolha, um dos dois tem que ceder, e eu cedo quase sempre porque sou compreensivo — além de discípulo. Jenny Lua dorme como dorme uma boneca, e só se vê seu pé direito saindo do lençol prateado que finge protegê-la. Não sei bem o que fazer, se saio já do quarto ou se mais tarde.
Não será pecado deixar uma lua nova num quarto crescente?
Trago o creme que ela gosta, perfumado, e coloco nas mãos do mestre toda aquela pompa e circunstância. Jenny Lou se mexe, parece acordar, junta os lábios, move a boca como estivesse sentindo o gosto de um sonho. Paritosh começa a descobri-la com uma delicadeza furtiva que jamais havia visto nele — pouco a pouco, a partir dos pés. Faz tudo em silêncio profundo, como se fosse um ladrão de gostosuras furtando a si mesmo.
Diana se vira na cama, sua bundinha parece agora que tem voz. Paritosh pára um pouco, olha para uma e para outra sem mover a cabeça, me olha também, sorri, coloca o indicador em frente à boca fechada, e diz:
— Shhh...
Jenny Lou está quase toda descoberta.
Agora é a vez de derramar creme em minhas mãos, esfregar a suavidade de uma na outra, como se isso tudo fosse tudo. Passo o creme primeiro nas mãos dela, nos braços nus, tomando cuidado para que não se acorde. Passo tão levemente que é como se não a tocasse. Três anéis na mão direita, dois no mínimo da esquerda — os mesmos que ontem tirei com minha boca. Paritosh me puxa, quer talvez que eu saia do quarto: ele acha que ainda tenho restos de preconceitos morais pequeno-burgueses que não combinam com as delícias da inocência. Vai passando creme no corpo todo dela, exceto onde não lhe permite o short que ela veste. Enfia seus dedos por debaixo da camisetinha, e eu ali, em pé aos pés da santa cama, surpreso como o sono dela é profundo. Paritosh toca mais forte, e eis que ela se acorda, sem sobressaltos, como já sonhasse com isso. Ela nos olha, simulando não entender o que se passa — além do creme.
Agora sou eu que lhe digo:
— Shhhh...
Ela olha para Diana, que dorme tranqüila, busca talvez cumplicidade. Inclino-me, beijo-lhe a testa e sussurro:
— Você é linda, menina...
Ela sorri — e fica ainda mais.
Além do creme que passo há um limite que não.
Já Paritosh pensa mais longe. Lembro-me de um dia ter dito: "Vou sempre até o limite, Edson. Mas quando vejo que terei mesmo de ultrapassá-lo eu o desloco um pouco mais pra frente. E assim por diante, simplesmente."
Um de nós dois vai ter que sair.
Se Paritosh é o sátiro, tenho que ser cavalheiro — e me retiro. "Vou derrubar a Lei das Probabilidades com dois golpes de sorte."
Eu tenho “know-how”, mas ele, “savoir-faire”.
A sala agora é Sodoma e meu quarto, Gomorra. Só espero que não caia sobre nós uma chuva de fogo e de enxofre...
Paritosh permanece em Gênesis — como depois me contou — vibrando como se fosse de novo a primeira pessoa de um testamento antigo.
— Jenny Lou tem um colarzinho de couro, com pingente de ametista e dois brinquinhos de prata — ele me diz.
E eu — brinco de Van Gogh na orelha de Jenny Lou.
Seus olhos me capturam!
Mas a clavícula, seu melhor adorno, se destaca quando ergue as mãos pra me abraçar. Talvez ela não queira mais do que amor, e eu quero exatamente isso, muito mais! Desvencilho-me do abraço, tiro-lhe a camisetinha cor de anuência, e tudo se esclarece de novo na penumbra do quarto. Jenny Lou me olha como se esperasse uma surpresa em que cada gesto que faço. Suspiro gostoso no seu lóbulo. Passo-lhe creme nos seios — tão pequenos, poéticos, encantadores, tão significantes — que os Demônios da Poesia pedem-me para chamá-los, respeitosamente, de peitinhos.
Olho dentro dos seus olhos e lhe digo:
— Jenny Lou, volte a dormir, que vou ficar aqui, fazendo amor com teu silêncio.
— Estou sem sono — ela sussura, quase ronrona, e move as pernas como se movesse o mundo.
Vão se abrindo em minhas mãos, delicadas, as alavancas de Arquimedes, os joelhos de Jenny Lou. Les genoux de Jenny Lou.
A música na sala passa a ser de Jon Bon Jovi — e concluo alegremente que meu discípulo amado não abandona o mestre em seus caminhos escuros.
I celebrate myself.
Mas fico em dúvida.
E quando fico em dúvida entre um orgasmo e a dúvida, escolho sempre o primeiro. Suspiro de novo, respiro, transpiro, e me ajoelho aos pés da musa. Chupo-lhe os dedos pequeninos como se chupasse um cachinho de uvas na parreira do céu. A princesinha se contorce de uma coisa que só pode ser tesão. Meu cacete, suportavelmente duro, força as grades da prisão de brim. Dou-lhe então a liberdade que precisa, ele salta como tivesse vida própria, feito gato. Sete vidas próprias. Será a primeira vez na vida que a cabeça intelectual do meu cacete vai tocar a pele dessa musa.
É um momento mágico, religioso — por isso ele começa a ficar respeitosamente duro.
Sempre com malícia, nunca com maldade!
— Jenny Lou, feche os olhos — eu lhe peço, e vejo suas pálpebras se abraçarem. A delicadeza inocente de um prepúcio inteiro tocando-lhe os pés. Me lembro de Suzana. Meu sexo vai subindo, passa cuidadoso pelos tornozelos da menina, se detém um pouco nas canelas. Duas gotas de óleo de amêndoas lhe dão mais brilho. Ele se entusiasma e vai subindo cada vez mais — porém não passará dos joelhos de Jenny Lou.
(Ela é musa, não amante.)
E depois, quando tudo foi se acalmando naquele precipício de paixões em que saltei; quando já estava no terraço tomando um suco de laranja, olhando o mar brilhante, a noite veio me dizer, com sua voz adolescente:
— Mahatma, a vida é bela!
Lembro-me de que ontem Roberto Benigni ganhou um Oscar. Hoje, ganhei o meu. Ele, por seu filme. Eu — por meu amor.
Amanhece pela terceira vez consecutiva.
E Jenny Lou acorda como das vezes anteriores: — irretocável.
Fico olhando para ela, o sorriso dessa menina me mostra como descrever uma cena de amor com palavras nunca ditas. Me faz dizer "eu te amo" de uma forma que ainda não houve. E se precisasse de algo mais do que isso, eu seria menos do que ela merece.
Torno a descobrir que o maior afrodisíaco é a tesão.
Diana sai do banho, cabelos molhados, enrolada numa toalha que era de Suzana, encosta seus mil peitinhos nos meus ombros nus e diz que precisam ir embora, as duas. Compromissos, promessas, escola, mães preocupadas — coisas assim. Como chove, e porque quero, vou com elas. Quando volto, Paritosh está na sala, pensativo, com a sacola colorida de Jenny Lou nas mãos, as roupas que ela havia trazido anteontem. Me pergunta, sem me olhar:
— E as meninas?
— Fui levá-las.
— Mas Jenny Lou "esqueceu" a bolsa aqui? Um “ato falho”...
— Não: um ato de amor, sem falha alguma — digo.
Vejo que ela deixou na mesa da sala um bilhete escrito em azul: "Amei te amar. Assinado: Jenny Lou".
— Ela te deixou um bilhete — eu lhe aviso.
— Acho que é pra você — me diz. — Não tem nome.
(Talvez seja.)
— Quer tomar alguma coisa? — pergunto.
— Não, mas tenho um pouco de fome — diz Paritosh.
— Que tal um salmão ao molho de laranja, com arroz?
— Seria ótimo.
Convido-o para buscarmos o peixe. Ele vai em silêncio. E eu tentando me lembrar de Roberto Freire: “Porque te amo, tu não precisas de mim; porque tu me amas, eu não preciso de ti. Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários.”
Quando já estávamos na fila da balsa Paritosh me diz:
— Volte, Mahatma.
— Por quê?
— Volte, pegue o caminho da Cachoeira.
Obedeci. Na chácara das plantas, no farol, ele me orienta:
— Pare, deixe o carro aqui bem longe, e siga à pé. Lá na esquina há uma placa: "Peixaria do Povo". Entre, compre meio quilo de sardinhas, e peça ao balconista, o João, que as pegue uma a uma.
— Sardinhas?!
— Sim.
— Meio quilo é muito pouco, Swami...
— Não discuta, há dois mil anos que você as multiplica.
(Gosto dessas palavras, tanto, que me havia esquecido.)
Ele permanece no carro. Trago o pacotinho de peixe, voltamos. No caminho, passo por frente de onde mora Silene, preciso cortar o cabelo. Me lembro de seu pai e da navalha suspensa. Assim que entramos em casa, Paritosh pega o Mateus que ontem sobrou de Janaína e me pede, olhando as sardinhas prateadas:
— Agora, Edson, lave-as com amor, passe-as em farinha de trigo, e as frite em óleo de girassol bem quente.
Me espanto com os detalhes. E o mestre continua:
— Volte, Mahatma, volte mais ainda, retorne às origens.
Você não nasceu só pra terraço com piscina. Volte à goiabeira lá no fundo do quintal, suba de novo no pé de jaca, na mangueira. Colha ariticuns maduros, veja aqueles maracujás dependurados na cerquinha de taquara. Trepe naquela mesma laranjeira e colha metáforas em vez de laranjas. Brinque de novo com tua irmã que já morreu, pese outra vez meio quilo de sal, varra ciscos no armazém. Abrace teu irmãozinho — que ainda nem bebia. Volte fundo na tua inocência, abrace mais forte teu pai que já se foi. Pegue a mesma pedra que você atirou aquele dia na testa da tua mãe, e atire-a de novo — só que agora erre o alvo, por favor, falhe na pontaria. Derrame as lágrimas que você guardou por todos esses anos, e abrace os teus irmãos como se fossem meus.
Continua falando comigo, como se soubesse tudo de mim.
(O peixe vai acabar queimando bem no meio das lembranças).
Enya me encanta com sua voz de Janaína irlandesa. Delicado, ele põe a emocionante sacolinha colorida de Jenny Lou no meu colo, se levanta, dá-me um beijo no rosto, e quase some.
Então lhe digo:
— Paritosh?
— Sim?
— Nada...
Enxugo meus olhos com um guardanapo, e vou à cozinha, multiplicar os peixes — pois também tenho fome.
(Também sou humano.)
Os acontecimentos só são mensuráveis no seu próprio tempo. Nem antes, nem depois. Mas fico me lembrando.
Minha mãe faz um doce chamado Freud. Leva maizena, clara de ovos, banana, calda de açúcar negro — e traz alegria e lembranças. Uma delícia. Amo-a tanto, que às vezes fico bêbado de mãe. De tanto que a tomo nos braços, que me embriago dela por mim. E sempre me acordo no interior, mesmo quando viajo para fora.
Mas há dias que acordo duplamente no interior — como hoje, em que estou na casa de minha mãe. Sinto cheiro de café. Um galo índio, de cristas excitadas, canta dentro de mim, bem longe, como se cantasse na minha infância.
(Ouvi tanto esse galo cantar que já lhe sei o co-co-ri de cor.)
E o acaso vira os dados de Einstein.
Sobre o balcão uma cesta de triunfos à espera de mim.
Eu vivia escrevendo nos papéis de embrulho as palavras Vitória, Liberdade, Justiça, Verdade, Amor, Sexo, Vida, Perfume, Pecado, Filosofia, Desejo. Portanto, tudo o que eu vendia era embrulhado com poesia, desejo, amor, vitória, justiça. Muito pão sovado embrulhei com liberdades, muita mortadela, com verdades e perfumes. Escrevi centenas de poesias nas bordas da Folha de S. Paulo e do Estadão — e com essas folhas que embrulhei mercadorias fui publicando meus primeiros poemas de amor. Certa vez, tinha doze anos, escrevi uma poesia enorme nas bordas da página oito do primeiro caderno da Folha. Depois, utilizei o jornal para fazer embrulhos ao acaso: não me lembro qual cliente teve a honra de levar meu poema inédito. Com doze anos eu já era poeta consagrado: publicava minhas poesias na Folha de S. Paulo. E varrendo ciscos, papéis e tranqueiras aprendi a amar a limpeza, mas não de forma neurótica. Aprendi a me organizar. Varria com método, coreografando a dança com a vassoura, meditando, desenhando na poeira coisas que dessem sentido às regularidades caóticas daquele chão de cimento.
Dessa forma planejava minha vida, meu futuro.
Varrendo ciscos geométricos sobre cacos coloridos de cerâmica, dançando como Nietzsche à beira de um abismo, eu construía a mais louca arquitetura de mistérios insondáveis. Então chegava um cliente querendo meio quilo de sal, cem gramas de mortadela, um pão sovado. Não importava o que fosse: em qualquer hipótese, antes de atendê-lo, eu me transformava no balconista do Olimpo.
— E sorria.
Porque tinha certeza de que, aprendendo a vender coisas com método, aprenderia a vender idéias. Todas próprias.
E foi assim que aconteceu.
Fico pensando no meu primeiro discurso público:
— Precisamos romper com o passado morto!
Eu não quero só ver o circo pegar fogo: quero incendiá-lo com meu próprio fôlego. Na quadra de esportes, mil alunos e professores reunidos me assistindo. “Vamos estabelecer novas relações!” Faço pausa, olho a platéia, respiro fundo, continuo: “Não mais deixaremos a bandeira da imaginação hasteada a meio pau!” (Li mais tarde esta mesma frase no Manifesto Surrealista. Cinqüenta anos antes André Breton fizera plágio do que eu disse.) Não me lembro do restante. Eu, quatorze anos, fora eleito presidente da AJAN, Aliança Juvenil dos Amigos da Natureza. Logo quis mudar o nome para ALAN - Aliança Libertadora dos Amantes da Natureza.
Era só para discutirmos ecologia de superfície, mas eu queria discutir a Natureza profunda de todas as coisas. Não permitiram, obviamente. Mas foi o começo da minha luta política. Tornei-me marxista, lutei contra a ditadura, fui preso várias vezes.
Virei subversivo!
Com o tempo, parte dos meus sonhos socialistas se perderam, mas nunca perdi a capacidade de sonhar. Minha imaginação quebraria todos os limites. Até os seus próprios — se os tivesse.
A vida é um jogo de dados, em que Deus perde sempre para os que arriscam. Quanto mais você arrisca, mais vivo será.
Aliás, falar de Deus na terceira pessoa é falta de respeito!
(Einstein joga dados ao acaso. Você sabia que Einstein tocava piano? Ele adorava fazer “experiências mentais”? Einstein só falou aos três anos — e falou mal, tartamudo, tatibitate. Depois que um professor lhe disse que não tinha futuro, passou quase doze anos vagando pelos campos da região de Toscana. Foi quando começou a ver o mundo de outros ângulos. E tornou-se um Einstein!)
Um ventinho beau de l'aire toca-me a pele — como se Einstein tocasse piano — e me lambe como se eu fosse poesia. O lençol de cetim que ganhei de minha mãe, desfiado nas pontas, macio. Lembro dela e das coisas que me deu: vida, saca-rolhas e lençol.
Só coisas lúdicas: vida, amor à liberdade, um jogo de lençol de cetim — e um saca-rolhas erótico.
Tudo a ver com prazer, tudo a ver com poesia.
(Com amor!)
No jogo de lençol, só me jogo para vencer — e me perco!
— Todo jogo de lençol foi feito pra gente brincar.
Como vocês vêem, tendo mãe assim não preciso de mais nada. Também me lembro de Belle, quando sonhamos a múscia, ela dando seus passinhos no tempo certo. E Vangelis cantando Le beau et Le Sauvage. Et la Belle, sauvage Issa. Então apago as luzes que estão fora e começo a dançar. Mas não sou como Jesus, que antes da dança expulsava os demônios do próprio Corpo. Não. Eu apenas os convido a sairem de mim por algum tempo. Só para que dancem no canto escuro que é meu, claro.
(Fico dançando.)
Fecho meus olhos, me olho por dentro.
Pelado, danço cada vez mais para dentro de mim.
Sinto clarões relâmpagos, mas não abro meus olhos para fora. “Como será o sonho de um cego?” — penso nas imagens que ele não tem. Piso sem querer no pratinho onde coloco incenso, faz barulho, cai emborcado, cinzas pelo chão. Resolvo acender um — de olhos fechados. Pego fósforo no escuro, escolho a vareta, risco o palito, sinto outro tipo de clarão, vou tateando, sem medo que me queime.
Mas me queimar faz parte do risco.
— Às vezes me corto com fogo!
Sinto calor, fumaça em meu nariz, cheirinho da Índia que me penetra gostoso, me lembro de Paritosh. Meus demônios — todos eles — rebolam. Danço pelado na sala nua. E sabe quem está aqui, orientando a coreografia? Maurice Béjart, em pessoa. (Isso também é inexplicável). Palavras não dizem tudo: aquilo que senti não pode ser dito. E mesmo que diga tudo, direi metade só.
(Fico me aplaudindo.)
Patricia não gostava que eu dançasse desse jeito.
Reclamava. — Você rebola muito, Edson.
(Quem não rebola, se enquadra — eu falava dançando.)
Suzana, ao contrário, me dizia:
— Rebole ainda mais, meu grande amor!
"Você é sensual: dança Shiva misturado com Cazuza."
E sempre me repetia:
"O maior afrodisíaco é a tesão".
Então, neste escuro madrugada, danço da forma que eu quero, da forma que sempre quis. Ninguém me censura, nem mesmo meus olhos. Sauvage et Beau, olhos fechados, danço loucuras abertas. Sinto sede, vou tomar mais coca-cola. Tateio com a sola nua dos pés, fácil encontro a mesa, conheço a geografia, o copo, a garrafa. E tomo coca, como tomasse vinho. Perfeito.
E o grego, Sauvage, faixa 13, repetindo — e repetindo.
(Mas nunca do mesmo jeito.)
— Demônios, eu os convido a deixar novamente o meu corpo. Mas não saiam de perto de mim, por favor!
Foi Deus quem os colocou todos no meu corpo, para que eu pudesse dançar com Ele. Grande bailarino, partner tesudo, Deus me empresta Seus Demônios para que eu possa viver como Ele.
(Gosto tanto de Deus, que Ele é hoje a primeira pessoa do meu próprio Singular.)
Eles se vão, mas quero que retornem, os Demônios.
Que me habitem de novo, sejam meus outra vez. Quero que acordem no ponto, me encham de glórias, me agitem por dentro — e mais fundo. Que rebolem no escurinho do meu peito. (Demônio foi feito pra dançar). A dança que cura é a dança por dentro. Tum tum, tum tum tum, tum tum tum, tum tum tum. A dança gostosa é a dança profunda. Tum tum, tum tum tum, tum tum tum, tum tum tum. A dança mais louca é a dança de Shiva. Tum tum, tum tum tum, tum tum tum, tum tum tum. E que me enfeiticem com suas gostosuras, que me encantem com seu ardor, que me tragam mais febre. Temos o mesmo estofo, o mesmo estilo: feitos de volúpia, desejo, paixão, sinfonia — somos tentações.
Quando me acaricio neste momento único de amor é a mão do demônio que me toca primeiro. Isso, de um lado. Porque, do outro, são anjos que me arranham com doçura. Eu gozo por dentro e por fora. E o grego, Le Beau et Le Sauvage, nesta madrugadíssima caleidoscópica, continua.
Shiva agora é Nataraj.
Fico dançando, passo as mãos em mim, abraçado a meus demônios, protegido por anjos, me lembro Suzana. Se me canso deito no chão refrescante, viro de lado, penso dormir. Vou depois acordar, o sol me lambendo como lambesse o deus desgovernante. Meu coração parece montanha russa. Quando a gente dança a dança da verdade, tem sempre que dançar pelado. Então lembro de minha mãe, me acordo mais. Lembro de Joyce, Danielle, Suzana, Edma Lux, Janaína, Andrea, Fernanda, Rose, Joelma, Silene — e vou dando gargalhadas nessa madrugada que se chama solidão a mil.
(Nesta fase vida, as que vieram antes serão lembradas depois.)
Gargalhadas — e lembranças cambalhotas.
Abro-me os olhos, e o que vejo?
— O teto embaixo de mim.
Cadeiras de ponta cabeça, o lustre plantado no chão. Deitado de costas, colado no chão da vida, vendo coisas no teto por baixo de mim. O mundo me atrai — mas a vida me atrai muito mais. Vou à cozinha, Teresa está na pia, calada, lambendo um pedacinho de nada, me olha. De novo toco sua antena e lhe digo:
— Não precisa fugir, menina. Não quero teu mal.
“Lembranças ao Franz”.
Que vontade de comer pato cozido ao molho de vinho, com repolho roxo e purê de maçã — ao som de violinos...
Volto à sala, sento-me aqui, começo a escrever.
Sauvagement. Freneticamente. Mas não dá pra dizer tudo, por mais que eu queira. As palavras só transportam conceitos — e preciso de mais: eu quero só falar de poesia.
Não é prosa o que senti. Palavra!
— Foi prazer.
Vocês sabem: Tesão é quando a alegria faz escândalo!
Eu aqui, digitando, Diana chega perto de mim, com seus seios fantásticos. Fica lendo o que escrevo, e sorri, Nereida. Ao lado dessa menina, tenho mil olhos: um para cada peitinho dela: exclusividade absoluta. Implícitas permissões me ajudam a levantar com amor e insistência sua blusinha solta. Acaricio a pele macia com meus lábios, pergunto-lhe se quer suco de morango. Ainda sentado, enlaço-a com braços decididos, minhas mãos em suas costas, o biquini desaparece no fundo dos olhos.
Um sangüíneo objeto dá um pulo no vão das minhas pernas.
— Tesão é alegria fazendo escândalo!
Então me levanto e dou-lhe o abraço mais puro e inocente que posso dar. Por trás. Toda musa é sempre virgem para mim. Amo-a toda vez que pisco meus olhos. Vontade de gritar: Diana: te amo — tanto — que preciso de duas vírgulas para dizer o quanto. Meu sexo sobe, tanto, que alcança o sorriso dela. Viro-a de costas, ternamente, abraço-a de novo, encosto meu sexo numa esperança que se entrega e sinto a enorme gostosura de sua bundinha entusiasmada.
(O que vem depois, é o que deveria ter vindo sempre.)
Mais tarde, bem mais tarde, tocando leve seu corpo lá fora, tentando equilibrar uma cereja no mamilo dela, eu lhe digo:
— Você sabia que o Templo de Diana é uma das Sete Maravilhas da Humanidade?
— Que bom — ela responde sorrindo.
"Que delícia!" — penso. E continuo equilibrando:
— Teu maravilhoso templo fica na atual Turquia, assim como o Mausoléu de Halicarnasso.
— Quais são as outras cinco?
Tento me lembrar. “As pirâmides do Egito (Quéops, Quefren, Miquerinos), os Jardins Suspensos da Babilônia (que ficam no atual Iraque), a Estátua de Zeus e o Colosso de Rodes (na Grécia). Falta uma...” Tomo o restinho do Mateus branco, multiplicado ontem pelas mãos de Danielle, e me recordo da sétima:
— Ah, o Farol de Alexandria!
(Nereida é uma ninfa, divindade fabulosa das montanhas, bela menina. Também pode ser outra coisa mas não quero contar.)
Ela põe The Cure pra rodar e sai dançando. Deita-se lá fora, fico olhando os lacinhos azuis do seu biquini — só. Nesta tarde azul de sol absoluto, quinta-feira profunda, intensa, sinto-me um louco egípcio lúbrico, e Diana é hoje o meu farol de Alexandria.
(Torna claro o escuro que já era óbvio.)
— Jamais me perderei!
(Mas tem gente que se perde.)
É impossível ser feliz sem liberdade — repito.
Quando o assunto é felicidade o idiota sempre se perde.
Quer exemplo? Um homem casado, redundantemente infeliz, mais triste que uma lápide em ruínas no sul de Moçambique, veio ontem confessar-me, desgostoso:
“Quando estou ausente, há um estranho personagem que assume o meu papel, entra em minha casa em meu lugar, beija minha esposa encebolada e ciumenta, faz carinho nos meus filhos, senta-se na sala, e aguarda que as coisas aconteçam. Tudo mecanicamente. Esse estranho personagem toma o meu lugar, faz o que se espera de mim, sente o que eu mesmo deveria estar sentindo. Não fosse esse idiota, eu não conseguiria suportar esta vida de jeito nenhum — não sei como o desgraçado consegue. Às vezes eu olho para ele ali no sofá, afundado em tédio, cerveja e tv, cochilando... Para mim é muito cômodo ter um dublê, um substituto, mas sempre me pergunto: Qual é a graça que esse sujeito vê em fazer o que faz?”
Esse homem é um casado muito sério:
O que lhe dá ânimo de continuar vivo é a esperança de que um dia vai morrer...
Fico pensando.
A tv é hoje a maior entidade mantenedora de casamentos do Brasil: se as pessoas não ligassem a tv, acabariam conversando, e teriam que discutir aquelas questões realmente importantes de suas vidas, e que estão suspensas. Então provavelmente se separariam.
Ou se matariam...
— Fale de amor — Karen me pede, segurando-me as mãos.
— A primeira coisa que preciso para falar de amor, lhe digo, a primeira coisa que preciso muito para falar de amor, é falar de e em liberdade. Só posso sentir amor se me sentir livre, antes. Tuas mãos, suaves, carinhosas, são também perigosas. Cordões de seda adornam cinturas nuas em danças do ventre, mas também podem ser laços para um suicídio por enforcamento. Tudo tem seus dois lados: é a eterna luta entre finalidade e função que as coisas têm em si.
— Fale-me de amor — ela quase grita outra vez, soltando-me as mãos. E repete: — Fale de amor. Tô cheia de filosofia...
Sei que a safada está querendo “fazer amor” comigo.
Faço silêncio.
Mas se amor fosse só sexo, uma forma pobre de exercício, ou fosse só essa coisa fria que ela supõe que seja, eu agora certamente iria gritar, abrindo meu ziper e chacoalhando os instrumentos:
— Tô com o saco cheio de amor!
Mas Deus é justo:
Quando faz o ciumento tira-lhe a sensibilidade.
Porque um ciumento sensível, inteligente, compreensivo, seria uma contradição em termos, um verdadeiro absurdo.
Sei que encebolada não existe, esposa não é bife. Mas olho para ela, como se olhasse para além dela. E resolvo fritá-la:
— Como falar de amor sem falar de filosofia, de arte, ciência? Sem falar do Banquete, de Sócrates e Xantipa? Como discutir uma coisa com método sem pensar em Descartes?
— Você usa a Filosofia como cortina de fumaça para esconder certas coisas de mim — ela jura disso ter certeza.
— Às vezes! — digo. — Porque às vezes a cortina de fumaça mais revela do que oculta. Uma cortina de fumaça pode...
— Fale-me de amor, Edson! — ela me interrompe.
— Mas eu só faço isso, meu amor. Não faço outra coisa: só falo de amor! Mesmo quando te mostro a diferença sutil entre dois vinhos quase iguais; quando peço para não inundar o banheiro após o banho; quando te ensino fazer macarrão à carbonara; quando corrijo delicado um erro de pronúncia; quando te mostro o corpo humano de Isaac Assimov; até quando conto sobre a vida de Picasso ou Henry Miller — sempre estou falando de amor com você. Sempre!
E me lembro do banho que ela tomou há meia hora.
“Sutilmente”:
— Quando alguém toma banho aqui em minha casa e deixa o banheiro alagado, se tenho por essa pessoa muito encanto perco um pouco. E se tenho pouco já, penso logo em perder o resto.
(Mas o melhor livro de Assimov é o cérebro. “O cérebro”.)
Karen joga água fria no que acabo de pensar:
— E se você não tiver nenhum encanto por ela?
— Nem sequer entra em minha casa!
— E se for um homem?
— Dou-lhe um soco no estômago e procuro devolvê-lo à puta que, por horrível descuido, talvez o tenha parido...
Tento mostrar-me um grosseiro que em verdade não sou.
Mas ela persiste nas perguntas e diz, parecendo esperançosa, que pretende ser “a” minha namorada. Ficamos um tempo enorme falando dessas coisas inexcitantes.
“Às vezes, uma delas quer me fisgar. Joga-me a isca, adocicada. Acabo mordendo a ingênua isca, como se eu fosse um peixe bobo. Mas então a engulo. E engulo o anzol, a linha e também a chumbada. Engulo a vara de pesca, a mão e o braço. Por fim, engulo a própria desgraçada pescadora”.
— E depois a vomita? — pergunta ela.
— Preciso antes digerí-la. Mas meu metabolismo é rápido...
Reajo como se fosse dar um sorriso, mas não dou.
Pausa.
Ela me olha, surpresa, e diz:
— Antes de vomitá-la, você a “rumina”?
— Não, Karen. Não sou animal ruminante: depois de engolir a desgraçada eu a defeco.
— Por que você faz isso com as pessoas?
— Por que as pessoas tentam fazer isso comigo? Por que todas querem me fisgar, me prender, me encurralar?
Levanto-me, resoluto, encosto dramaticamente meus dez dedos abertos contra o peito, e grito:
— Por que é que as pessoas querem sempre me aprisionar? Por que é que minhas namoradas pensam...
— Porque elas te amam, Edson.
Decidida, me interrompe em voz alta.
E repete, diferente:
“ Porque nós te amamos!”
— Amam? Você chama isso de amor? Ora, o amor tem que ser livre. O amor só pode ser livre. Se não há liberdade nessa coisa estranha que você sente, chame esse sentimento ridículo de qualquer outro nome — menos de amor!
Ela acha que eu deveria controlar minhas paixões.
E se vangloria:
— Eu jamais me descontrolo.
— E eu adoro perder o controle. Todos os controles!
— Quem se descontrola...
— Não generalize, minha querida “psicóloga”...
Ela me olha, penetrante, profunda, seca.
Abre a boca para falar, abre a boca como se abrisse o próprio Código Civil. Mas se contém: não deve tê-lo aberto na página certa. Parece que todo advogado perde a capacidade até de ficar perplexo. E ela, coitada, não seria diferente. Por que é que fui incentivá-la a fazer o curso de Direito? Será que apenas para perdê-la depois, já que a amava tanto? Eu já sabia que advogados não gozam. Data venia: um advogado jamais vai te dar um grande orgasmo. Um juiz, então, nem se fala: um juiz não chega sequer a tentar. "Um juiz fazendo amor" é uma improbabilidade in extremis. Enquanto falo essas coisas ela continua me olhando e enrolando cabelos em cachos negros, belos, a cabeça meio inclinada, esboço de um sorriso.
Ela sabe que já me perdeu.
E que não tem volta.
Manter uma infidelidade em segredo é mais vergonhoso do que torná-la pública.
Fico pensando sobre tesão e mandíbulas.
As ciumentas, no início, nos acariciam. Depois nos arranham; nos abraçam, e em seguida nos agarram; nos lambem, depois nos cospem; nos beijam, e depois nos mordem, nos comem, devoram. (Chamam isso também de amor). Na hora do beijo elas injetam enzimas digestivas em nosso corpo. Então nos despedaçam, dilaceram, mastigam, deglutem. Mas não nos digerem totalmente, as víboras, só para que nossos pedaços apodreçam dentro delas — um a um.
No primeiro dia de um grande amor, logo vejo que a deusa tem lábios de mel, dentes, clitóris, tesão — e mandíbulas; tem língua, vontade, olhos cândidos, bundinha perigosa — e segundas intenções. Além de amor, a pequena deusa tem algumas tentações, e um belo e eficiente aparelho digestivo em prontidão.
Quando ela passa as unhas gostosas no meu peito me arrepio de gostosura... — e de pavor: as unhas que fazem delícias são as mesmas que às vezes dilaceram.
De unhas para garras é só uma questão de tempo...
Cada uma a seu modo, as mulheres são todas quase perfeitas, mas já trazem dentro de si a semente das maldades que um dia contra nós praticarão. É fatal: tudo vai acabar em pancadaria. Tudo!
Por isso as amo breve.
— Brevíssimo.
Foram muitas, entretanto.
As boas, tornei-as melhores e mais puras.
Às frias, emprestei-lhes meu calor e fiz com que gozassem como nunca. Às loucas, dei-lhes minha própria loucura, meu êxtase. Às perdidas, ensinei-lhes o caminho da Vida e mandei que rasgassem todos os seus velhos mapas. As putas, amei-as como se fossem santas; às incompreendidas, dei-lhes a minha compreensão absoluta; às imbecis, contei-lhes sobre a Razão e ensinei-lhes a pensar como Descartes. Às perseguidas, dei-lhes meu único abrigo; as que choravam ouvi-as com atenção, sem pressa, e deixei derramassem suas lágrimas nos meus ombros de amigo. Às famintas, preparei-lhes salmão ao molho de alegria. Às que tinham sede, dei-lhes água cristalina do meu pote, e às que se sentiam presas mostrei-lhes como amar a Liberdade sobre todas as coisas.
As pequeninas, cobri-as de inocência e candura, e ensinei-lhes a crescer. As deusas, todas, tomei-as nos braços e fizemos amor.
Mas às ciumentas, coitadas, só lhes pude dar três coisas:
— Distância, distância, e distância.
Karen me interrompe esse “ensaio filosófico”:
— Por que você é tão complicado?
— Complicado em que sentido? — pergunto.
— Em todos...
— Vou fazer de conta que tua pergunta procede. Sou em verdade muito fácil de ser entendido por todos aqueles que se apaixonam pela Liberdade. Se você não amar a liberdade primeiro, não vai nunca me amar da única forma que posso aceitar teu amor. Só quem se apaixona pela Vida é capaz de ser amante da Existência sem trair a Liberdade. Para mim tudo isso é claro, cristalino, transparente. Por que é que as pessoas não amam a liberdade? Porque são medíocres! Como pode alguém, em sã consciência, não amar a liberdade em primeiro lugar? Como podem essas pessoas esmagarem suas vidas nos moinhos gelados da estupidez, jogando fora o suco delicioso, ficando apenas com o bagaço? Por que atordoam suas existências com preconceitos horrorosos e antigos? Por que se convertem em vermes repugnantes, e não em pássaros canoros? Por que escolhem o caminho fácil do desespero absoluto? Por que se transformam em carrascos do amor, verdugos da paixão, assassinos da alegria? Por que não vivem as gostosuras todas, em total liberdade?
Ela não sabe as respostas para isso.
Então se levanta e pergunta se quero mais vinho. Esse assunto não lhe agrada, é claro. O ciumento que se sente derrotado no amor doentio detesta falar sobre liberdade.
— Sim, quero mais vinho, muito mais vinho e muito mais vermelho. Quero um italiano, a taça transbordando de Chianti. E acenda mais um incenso indiano Poem.
S'il vous plaît.
E continuo.
— Você pergunta o motivo da minha obsessão pela verdade. Ora, porque só existe a verdade. Aquilo que não é verdade não existe. Só o que é verdade existe de verdade. E a obsessão pela Liberdade? Porque só através dela é que podemos alcançar a felicidade.
Repito de novo: — É impossível ser feliz sem liberdade!
Mas eu deveria ser mil, para amá-las todas ao mesmo tempo.
Deveria ter mil mãos para acariciá-las simultaneamente. Mil dedos em cada mão, para tocá-las, todas, de mil maneiras diferentes, ao mesmo tempo. Deveria ter mil olhos, mil bocas, mil línguas, mil corações. Na verdade, eu deveria ser agora dois mil — para amá-las, todas, ao mesmo tempo.
Porque descobri que meu espírito é santo.
E acho que no fundo não me interesso pelas pessoas em si, mas pelo que elas dizem e fazem. Sou um escritor, meu amor. Eu preciso é das suas histórias. Às vezes, troco-as por sexo, às vezes por vinho, e outras vezes troco-as por uma paixão escandalosa, como essa que agora sinto por você, Suzana, Joelma, Fernanda, Rose, Fabia, Luciane, Paula, Sandra, Aline, Joyce Ann, Vânia, Silene. Por você, Janaína, Andrea, Danielle. Às vezes sou mais que amigo, mas eu gosto mesmo é de ser só amigo.
Sensualmente amigo.
Quando entro em estado de excitação total, não faço isso em nome de uma mulher só. Quando me inspiro, eu me excito por toda a porção feminina da Humanidade. Por todas as fêmeas do mundo.
Embora exerça a ereção e a doçura com essa musa que agora repousa delicada nos meus braços, em verdade estou amando, neste momento, todas as outras também!
(O nome do meu único amor imortal é Fulana.)
— Você pensa que eu te amo por você?
(Vou me transformando no cavalo do Artaud.)
“Pensa que preciso de você? Não: eu preciso é de um personagem para ocupar esse vácuo que existe na história da minha vida. Preciso é de alguém para ocupar o vazio no cantinho do palco: na coreografia da vida não existe papel mais importante que o meu. Sou o ator principal nessa peça que encenamos, meu amor. Nem aplausos eu quero de você. Há uma platéia entusiasmadíssima no meu peito gritando por mim”.
— Não quero amores definitivos, nem beijos definitivos, nem coisa alguma definitiva. Só quero pessoas sensíveis, de carne e osso. Carne, osso e coração. Quero pessoas de carne, osso, coração — e cérebro, para que subam no meu palco, para que vivam com amor os papéis que lhes crio em meu nome de Deus.
E o Antonin se despede pensando como se eu:
“Somos todos atores, querida, atores! Se você pensa que pode ser mais, procure-me, só, depois do ensaio...”
Quando um grande amor está nascendo, Paritosh me diz:
“Não interfira, Edson: você não nasceu pra ser parteira".
E quando um grande amor está morrendo, Paritosh também me diz, olho no olho:
— Não interfira, Edson: você não nasceu pra ser coveiro.
E assim se vão os meus amores, nascendo e morrendo — por si só, por conta própria. Nunca interfiro. Nesse assunto, sigo o que me manda o mestre. Deixo as coisas rolarem.
— Paritosh, fale um pouco do Kama Sutra.
— Depois...
(...)
Fico filosofando.
Nunca mais conseguirei namorar, no sentido tradicional desse verbo: encontrar-me com ela todo dia, andar de mãos dadas, tomar sol juntos, andar pela praia, passear no Shopping, mostrar-lhe novos lugares (que quase sempre já os conheço) — e ter certeza de que ela me ama, todo dia. Ser abraçado, agarrado, beijado, a todo minuto. Repartir lugares, corpos e camas, toda hora.
Dividir espaços, desejos, olhares, licenças, costumes.
Todo dia...
Nunca mais!
Talvez seja a deliciosa lembrança que tenho de Suzana. Ou de Rose. Desprendidas, elas nunca retiravam de mim o que considero fundamental: espaço para respirar, tempo para ser livre. Me deixavam dormir sozinho, nunca me acordavam, não faziam barulho, não acendiam a luz, não apagavam a luz.
Não interrompiam minha leitura no banheiro.
E gozavam todas as vezes — todos os dias.
“Acho que vou buscá-las de novo!”
Karen acaba de sair, um pouco menos esperançosa, e estou aqui em meu lençol de cetim, aquele mesmo bege, deitado no terraço, olhando estrelas, e tomando o restinho de Drambuie. Vou reler Zorba, o Grego, a partir da página 37, mas (não sei nem por quê) parei para escrever, nesta madrugadíssima doce.
Começam relâmpagos, venta muito. Karen, uma potranquinha tentadora, fico concluindo. Certos dias amo-a — tanto — que minhas emoções se desprendem todas na sela onde me sinto a cavalgá-la. Em sua testada, milhares de pedrinhas preciosas, safiras tilintando azuis na minha boca, milagres derramados sobre mim, desejos diferentes encantando as minhas mãos.
“Quando abstraímos parte da realidade, abstraímos a própria realidade desta parte.” — como disse-me um dia na USP Ana Maria Marques, a maior geógrafa humana do Brasil. Falávamos da Tia Ana e da importância transformadora positiva que ela teve sobre mim. Depois da minha mãe, nenhuma outra mulher mudou tanto o rumo da minha vida. Para melhor! Quando voltar a Itararé vou escrever uma poesia de amor no túmulo dela.
Hoje é 29 de janeiro do ano passado.
Chove forte nesta noite muita, relâmpagos riscando à faca o céu de alto a baixo. Entro inteiro na piscina, como entrasse na própria madrugada, e deixo que os pingos de chuva martelem meu corpo nu, que às vezes sobe à tona.
Iluminado por uma luz brilhante que vem de cima, solto as gargalhadas todas que acumulei nas últimas horas. Há um desafio emocionante lançado agora por mim: que caiam no meu peito esses raios de absinto. Que me firam — se puderem — que me penetrem, me rasguem, me partam, me furem.
Neste momento Deus rivaliza comigo no quanto de amor que Eu sinto e no tanto de bom que Sou.
Neste momento criamos muitas coisas incomuns.
Um para o Outro — tantas, que até nos confundimos.
E se um de nós dois tiver que se foder — que seja Ele.
São divinos meus adeuses.
Ao voltar de Salamanca sempre me despeço da minha mãe como se nunca mais fosse vê-la outra vez. E me coloco inteiro no adeus que lhe dou agora. Minha alma se pronuncia, chego a chorar por dentro de mim, morro um pouco nesse ato. E se um dia eu vier a morrer de verdade — o que é bastante improvável — já terei feito todas as despedidas que gostaria de fazer.
É a vida.
Isso é que eu chamo de milagre.
Minha mãe falou-me sobre um santo, protetor dos perturbados, cujo nome é Vito. Não achei o ícone de barro nem na lojinha de umbanda que tem aqui na esquina, mas encontrei uma biografia dele na Internet, acompanhada de uma reza, que era muito negativa, só falava de sangue, pesadelos, furor, inveja, ressentimentos. Só miséria, fome, tribulação, calamidade. E para o pecador é “sete vezes pior”. Ora, se alguém ler aquilo à beira de um abismo se atira. Acho que Vito, ao inventar tal reza, pretendia povoar o céu com desgraçados.
Então fiz alterações, cortei, substituí, acrescentei.
A começar pelo nome. Onde era “Prece do reconhecimento das limitações”, mudei para Prece de Conhecimento dos limites e do Poder de Reagir. Alterei tudo na oração, coloquei poesias, auroras, brilhos, pintei sol, coloquei futuros, ousadias, compreensão. Deixei alguns pesadelos para não tirar a originalidade, mas coloquei sonhos, todos recheados com marmelada. Ficou um texto limpo, poético, positivo, que anima e dá coragem a quem pretende viver.
Ela ligou-me agradecendo: “como é linda essa oração...”
Por falar na Santa que me gerou.
Quando eu era bebê, dois meses de idade, tive uma convulsão. Fiquei azul, e a família inteira ficou louca — eles não sabiam que era só o meu sangue que estava mudando de cor.
Apenas minha mãe não chorou.
Sabe por quê?
— Porque ela é a santa que me pariu.
Me conhece...
Aos seis anos também quebrei uma moringa e trouxe água na própria camisa.
Ela nem se espantou.
Naquele ano da graça de não-sei-quanto, minha iluminada mãe pariu-me, como se desse Luz à Luz. Era a minha estréia! E ela em dúvida se me dava ao mundo da luz ou se me dava a luz do mundo. Na superposição de brilhos e loucuras, decidiu que eu seria um sol. Para ela, portanto, não era apenas um filho, era um sol que ali nascia. Primogênito — e de primeira grandeza.
O primogênito é o produto mais poético da primeira tesão na relação de amor.
Nesse aspecto, eu não seria diferente, mas seria em todos os outros.
Dancei nas águas coloridas, mergulhei, naveguei — surfei nas ondas magníficas de um belo mar amniótico. Eu vibrava como um sol recém-nascido numa constelação de gostosuras. Então, ela pediu à parteira e aos demais, que todos saíssem, apagassem a luz, fechassem as cortinas e a porta, fizessem silêncio. Naquele escuro escandaloso que caiu sobre nós dois, fez com que eu brilhasse ainda mais: — sorriu emocionada, colocou as mãos em minha testa, e apenas com esse gesto carinhoso e delicado deu-me de presente, como bênção, meu primeiro grande orgasmo.
— Inesquecível.
(Divino — meu primeiro já foi na cabeça!)
Só pediu-me que guardasse um segredo pelo resto da vida: meu verdadeiro nome.
(Guardei.)
E me deu este apelido que ainda uso: Edson Marques.
(Quando ela estava grávida de mim não lhe cresceu a barriga, porque eu não estava no útero: foi seu coração que me gerou.)
Nunca me disse “está frio, vista blusa...”; nunca me disse: “vai chover, leve uma capa, não esqueça o guarda-chuva...”
Ensinou-me estar atento, para ser livre. Sempre atento.
Jamais controlou-me a hora de dormir, nem quando meu sono já bastasse. Nunca escolheu meus amigos, nem tentou proteger-me de nada que eu estivesse querendo. Jamais me acordou para dar-me comida ou falar-me de fome. Um dia disse: “o cálcio é importante, diminua o açúcar — ou sobrevive sozinho, ou vai perecer, também sozinho”. Nunca me deu proteção demasiada nem verbalizou cuidado excessivo. Jamais precisou dizer-me “te amo,meu filho”, pois eu entendia seus olhares expressivos.
Por não ser possível dar-me o próprio leite, que havia secado em seu peito devido ao susto que levou quando soube que Einstein morrera, dava-me o leite da cabra, chamada Afrodite, que tínhamos no fundo do quintal.
Minha mãe, minha própria Via Láctea.
Foi a primeira mulher que me ensinou a voar, com todas as asas, em todos os sentidos. Jamais quis ter exclusividade sobre mim. Achava que eu e o mundo nos merecíamos. (E nos entenderíamos, eu e o mundo, através do amor). Em alguns raros momentos de fraqueza emocional, quando a razão talvez lhe tenha escapado por instantes, chegou a pedir-me que lhe desse um neto, mas depois viu o absurdo do pedido: filho é um contrato irrescindível.
“Não assine contratos sem cláusulas de rescisão, claríssimas e precisas” — disse-me.
E jamais fazer acordos verbais com pessoas psicologicamente instáveis.
“Lembre-se do escorpião...”
Sempre me alertou:
— No palco da vida, nunca desempenhe papéis trágicos.
"Deixe a paternidade para os reprodutores: sempre haverão de existir, e a espécie não será extinta por tua causa".
Nunca olhou-me com censura nem proibiu-me coisa alguma. Não é elogio de filho hipócrita: é pura realidade. Quem a conhece, sabe. Nunca sentiu ciúmes dos meus amores, nunca interferiu, nem de leve, nos meus relacionamentos: todas as minhas amigas são suficientemente boas para que sejam amadas por mim. Só uma vez disse que uma nossa empregada era "um pouco feia", e que não “merecia” minha atenção. Mas a razão não devia ser estética — era de outra ordem, jamais lhe perguntei qual. Talvez tenha sido a humildade da menina, que viera da roça.
Minha mãe dizia: “Nunca faça amor com pessoas humildes”. Fosse assim a mulher por quem me apaixonasse, primeiro eu deveria, com amor, delicadeza e respeito, arrancar-lhe a humildade da alma, fazê-la crescer, enchê-la de orgulho, transformá-la em deusa gloriosa de si mesma...
E só depois fazer amor com ela — "se for o caso".
De igual para igual...
Deu-me as mil asas da liberdade, e mostrou-me com amor as portas escancaradas do mundo.
Não só as mostrou: sempre ajudou-me a abri-las com entusiasmo.
Olho no olho, disse-me um dia: "Vai! E não me segue!"
Só pediu-me que — em qualquer circunstância — respeitasse muito, e amasse profundamente as mulheres.
— Todas.
(Obedeço-lhe!)
Nada mais belo que ternura de mãe...
Como já disse, tenho agora dois corações:
Um, para amar os meus amores, e outro — só pra mim.
Mas se for contar minha vida vou acabar escrevendo um livro — mais um. E que vai talvez encalhar que nem os outros. É melhor parar, portanto. Se não, vou me foder. Aliás, esse verbo tem sempre dois sentidos: um que vai, um que vem. Depende muito do modo como você o conjuga. Um que vem, outro que vai. E do tempo, da temperatura, do ambiente, do modo. Não importa que chova, ele tem que ser conjugado no presente, continuamente.
Quer saber de uma coisa?
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O ciúme é o gesto mais pobre de quem teme a Vida.
Restringe.
Sufoca.
E todo comportamento que impede o fluxo do amor, suspende a vida por instantes. Numa relação de amor, toda censura assassina a paixão de certo modo — e massacra a liberdade quase sempre.
Fico pensando no que acabo de pensar:
— Se o ciúme entra pela porta, o Amor sai pela janela!
E se você não gostou — é melhor entender.
Hoje, manhã passarando, bem te vejo e ouço. Hoje a sereia das sete só faz barulho e nada. A vida pensa por mim como se fosse um dilema, mas sei que as possibilidades agora são três. O beco em que meu futuro se meteu parece uma estrela de cinco pontas, cada uma delas me espetando com a lança da saída.
Paulo me ligou dizendo que a Unesco pretende tombar Itararé, patrimônio da Humanidade, pois a região tem formações geológicas monumentais. Além de possuir um dos maiores potenciais turísticos da América Latina. Editaremos um guia de assuntos ecológicos, cujo nome acabei de criair: EcologUia.
E logo viajo na idéia.
Editar um Mapa de Lugares Inexistentes e um Guia de Caminhos Inventados.
Seria um sucesso...
Todo dia preciso começar um romance.
Romance é que nem romance, você sabe. Vira tédio, cansaço — às vezes até rancor. Assim como certos dias você nem quer relar o sexo na tua esposa, eu também me recuso a tocar num dos meus romances antigos. Cansei-me deles, de quase todos. Assim como você deixa tua mulher mofando na cama, enquanto finge assistir a tv, também deixo alguns romances mofando na gaveta, enquanto finjo escrever outros.
Somos iguais, nesse aspecto.
Como você vê, somos uns putos.
Por que não desatamos logo a relação, e livramos os coitados para que possam viver suas vidas? Tua mulher — achar um amante de verdade; e meus romances — um editor que creia neles.
Por isso é que eu começo um romance novo todo dia, das duas formas — pra não virar tédio.
Por que você não faz o mesmo?
Se você não entendeu, é melhor parar.
Eu escrevo só para aqueles que entendem, e escrevo só para quem sabe ler de modo profundo. Não vou gastar sabão em cabeça de burro. O "meio-louco" é sempre "meio-burro". Não dá pra ser meio-louco sem ser, ao mesmo tempo, meio-burro.
Você tem que ser total.
Para um lado — ou para o outro.
Mas você quer recomeçar só a partir da metade.
Retroceder só um pouquinho, um instante, um minuto...
— Não dá!
Todo recomeço tem que ser do zero.
— Absoluto!
Se você não me entende, não posso fazer mais nada:
Porque eu dispenso a compreensão daqueles que não conseguem me compreender. Só busco a compreensão de quem é sensível, e mesmo a falta desta não me fará mudar de idéia no que diz respeito à liberdade e à minha concepção de amor. Facínoras, ditadores e ciumentos podem me crucificar pelo que eu penso. É natural que os brutos não me compreendam. Se ainda estivéssemos na Idade Média eu teria virado churrasco. Já teria sido provavelmente queimado vivo.
É a vida!
Mas antes que o meu barco singre os mares encho-o de coragem e de remos, iço as velas, desfaço planos, jogo a bússola, rasgo todos os mapas e me afundo no desejo de amar.
— Vou criar uma tempestade no coração de vocês!
Sou que nem a formiga, que às vezes não consegue saltar uma gota, mas cai de um arranha-céu sem se ferir!
Edson Marques.
Este livro foi escrito quando estávamos na Espanha. Todas as referências a idades cronológicas dos personagens obedecem às leis daquele país. A versão completa, com oito capítulos, terá 480 páginas, e será reeditada em março ou abril de 2012, pela Pandabooks. Entretanto, uma versão antecipada e reduzida, com 240 páginas, já está à venda pela internet.
Consulte o site www.EdsonMarques.com
...
Começar a escrever um livro sempre me parece mais difícil que escrevê-lo todo. Mas, depois que li o Retrato do Artista quando jovem e vi como Joyce começou, criei coragem.
Principalmente agora, que da vida só temos o resto.
“Memento mori” — sussurra-me Deus. É fatal.
Olho na engrenagem do espelho profundo e pergunto:
— Será que existe um outro modo bom de se viver?
Fico pensando e acabo sonhando.
Eu sonho tão alto que o próprio barulho me acorda.
E me desperto perguntando se há no mundo melhor coisa que ser feliz. Vejo estrelas no teto, repito a oração como se fosse reza e me espreguiço gaiarsa, felino, gostoso — sorrindo. Mas me levanto só depois que gargalho. Se não acho motivos para gargalhar também não os acho para levantar. Enquanto isso, faço contas complicadas de cabeça, abraço a Vênus de Milo, calculo logaritmos a olho, traduzo algumas frases do latim, reconstruo mentalmente um ranchinho de sapé, imagino cúpulas geodésicas no quintal da nossa casa, visualizo Marlon Brando sem destino. Acordo já fazendo ginástica com meu cérebro, pois não quero teias de aranha nos neurônios. E sinapses, só as brilhantes me excitam. Potencializo-as com lógica e amor.
(Toda emoção, você sabe, é produto do raciocínio.)
Acordo e me levanto, deslumbrado e respirando, cheio de luz — iluminado portanto de novo — e de mim.
Meus dias começam assim.
Viro um construtor de pirâmides.
“Não sei o que dói mais...” — eu adoro fazer comparações. As palavras já nascem madrugantes na minha língua portuguesa. No meu pensamento. Crio analogias. Invento coisas
E continuo não sabendo o que dói mais.
“Se é o eventual castigo pelo desejo realizado, puro, livre, satisfeito — ou se esse mesmo desejo sufocado no peito, contido, esmagando a minha alma...”
— Não sei o que dói mais!
É o dilema entre exercer a liberdade ou viver na escravidão. Daqui a pouco eu volto a falar desse assunto. (Deu uma vontade de escrever “capoquinho eu vórto a proseá essas coisa...” — como se eu estivesse de novo em Dublin).
Sinceramente, não sei.
Só sei que, aos treze anos, menino ainda, sentado no cinema do interior, acabei misturando Pitágoras, Pasolini, Antonio Visconti, Samuel Barbosa e Sônia Maria Fernandes para fazer uma promessa: “Todas as minhas relações de amor serão triangulares: eu, o outro — e a Outra.”
A relação é um tripé, e dasaba se um deles faltar.
Mas já notou que entre você e a liberdade sempre existe um muro, baixo, feito de tijolos e ciumentos? Salte logo essa barreira: a vida está lá do outro lado!
— É impossível ser feliz sem liberdade.
Pensei que esse assunto só viria mais tarde, mas tem que ser agora. Afinal, você pode sofrer um colapso na página dez e morrer sem saber o que eu digo. Ser transformado em cinzas por um ataque suicida, ou levar tiro de um ciumento, quem sabe.
Enfim... O que eu digo não é uma provocação: é um desafio emocionante: é a possibilidade aberta de escolher o próprio caminho na vida. Nada mais — nada menos! É um convite à transformação pessoal. A busca por algo fundamental à dignidade humana.
O que proponho vai no sentido de romper com esse marasmo em que tua vida se transformou. Uma radical e consciente ruptura com essas normas morais injustas, e com tudo o que de alguma forma te oprime e faz sofrer.
Você hoje mais tosse do que ri...
Tijolos quentes e ciumentos frios!
Só quando assumes ter um dono é que ficas dispensado de lutar. Até peço ajuda a uma segunda pessoa para te chamar à Razão. Ser escravo é muito fácil: qualquer idiota consegue. Reaja!
(O que eu digo é mais ou menos isso. Até o fim do livro vai ser esse o assunto. Até o fim dos meus dias vou ficar falando dessas coisas. E se a você não interessam tais assuntos, feche o livro e me abandone. Se não puder me dar atenção me dê sossego!)
Um outro dia, ainda adolescente, quando estava começando a entender a vida, escrevi minha definição de amor.
“Amar é sempre permitir, é deixar que o outro vá — ou que fique, se assim o desejar. Amar é ter respeito absoluto pela própria liberdade e pela liberdade do outro. Amar é compreender sempre. E isso não significa só entendimento racional, vai além, muito além: Amar é reconhecer afetuosamente o direito que o outro tem de fazer suas escolhas.”
(Mesmo que as escolhas eventualmente me excluam.)
Quem não concorda com tal idéia de amor não merece o meu.
Aliás, eu recuso o amor de quem não ama a própria liberdade antes mesmo de me amar.
Porque o amor tem que ser livre — em todos os sentidos.
E toda mudança, você sabe, requer um plano.
À vezes, plano esboçado em folha de papel, outras vezes, um plano intuído no cérebro do homem. Mas a mudança mais gostosa é aquela que só requer plano inclinado, por onde vamos escorregando em óleo de amêndoas como se fosse no corpo de um grande amor, deslizamos até a borda — e então saltamos no vazio do belo escuro profundo da vida.
Quando as coisas resistem às idéias e o mundo resiste aos sonhos — não devemos mudar de sonhos nem mudar de idéias: temos é que mudar de coisas e mudar de mundo.
(Ah, “Memento mori” quer dizer “lembra-te que morrerás”.)
Eu gosto de mudar. Descendo de Heráclito!
— Só o que está morto não muda.
Sempre troco um grande entusiasmo por outro maior ainda.
Amores, vou tê-los muitos para que os tenha sempre — esta, a melhor filosofia. Ousei amar diferente, tive coragem de continuar puro nos meus relacionamentos. Alguns querem punir-me por tanto, mas sobrevivo, sobre todos. E o que mais indigna meus detratores é que há lirismo na minha obscenidade.
São poéticas as minhas transgressões.
Quando enfio a cabeça pela janela da parede da vida, já não sei se estou olhando para fora de mim ou para dentro. E mergulho nessa alegre correnteza interna onde eu rio fluente de mim mesmo — líquido, cristalino, vibrante.
Por isso eu digo.
Nunca deixarei de ser jovem: há minas no meu coração.
Mesmo quando tiver mais idade, serei um véio de ouro, e as garimpeiras de amor sempre vão querer me encontrar.
Sei que preciso acelerar o acontecer das circunstâncias, tenho que aumentar o tamanho e a freqüência dos fatos que me circundam, trazer Deus em pessoa para jantar comigo às vezes, tomar um vinho com Ele, inundá-Lo de carinho e gratidão.
— À luz de velas!
Deus sempre foi generoso comigo, mas.
Tenho que resistir aos ataques da mediocridade quotidiana e me afastar da jacarezada. Quero encher de glória os buraquinhos que os ratos pensam fazer no pão da minha vida. Preciso reagir, tornar-me um subversivo, abandonar as hienas, jogar fora tudo o que não presta, refinar as relações, multiplicar o que me eleva.
Sei que o principal sobrenome do amor é ilusão.
E sei também que ser livre é fundamental.
Portanto, se eu tiver que um dia me desfazer de todos os meus bens, a liberdade será o último deles.
Quanto ao que penso sobre meus amores, disse quase tudo a Edma Lux no livro “Perguntas que a mulher faz quando sonha”. Devo deixar claro que valorizo uma mulher não só pelos prazeres que posso ter ao seu lado, mas principalmente por aqueles que deixo de ter por causa dela.
Já me casei quatro ou cinco vezes e continuo achando que o casamento é o túmulo do amor. O cemitério das paixões...
— Por isso continuo solteiro!
O casamento é uma velha escola em ruínas que só tem duas matérias: sadismo e masoquismo.
(Dos dois lados.)
E casamento indissolúvel é pior do que prisão perpétua!
Sou observador.
Tem dias que vejo uma procissão de formigas em direção a um saco de lixo — e me lembro de vocês: trabalhando, cumprindo horários, correndo muito, seguindo regras tolas, mansos, ordeiros, pacatos, oprimidos em grupo, submetidos, uniformizados.
U-ni-for-mi-za-dos!
— E sendo “felizes”, cada qual à sua maneira...
Passam a impressão de que põem uma dose de fúria nessa busca cotidiana do nada. Agitam-se como em vias de alcançar o céu. No fundo, se esperneiam, mas não olham sequer para cima. Por isso não sei mais se o que sinto por vocês é pena ou desprezo.
Só não creio que possam mudar de verdade — de verdade.
Parecem moscas sobrevoando um monte daquela coisa...
De vez em quando se mexem, coitados, mas se mexem pouco, timidamente. Nessa agitação aparente não querem turbulências nem riscos: meros movimentos de acomodação. Parece que estão por demais atolados nessa meleca gosmenta que chamam de vida, e de tal forma envolvidos com coisas tão rasteiras, tão vãs, tão minúsculas, que só me resta dar-lhes um digno — e definitivo — adeus.
Doentes!
Não devo mesmo ter dó de vocês, porque só me daria pena o doente que não tem o remédio diante de si.
É compreensível, como diz Montaigne.
Vocês discordarão de muitas coisas que aqui vão ler. Muitas. Afinal, cada um de nós tem seu próprio tempo, seu sistema de valores, sua própria maneira de julgar um fato, de analisar fenômenos, de encontrar saídas. Cada um de nós tem sua particular visão do mundo, intransferível, única, exclusiva. Cada um tem suas idéias de verdade, de justiça, de amor, de religião.
Cada um de nós tem seu próprio modo de se salvar.
Ou de se foder.
Cada um de nós é um ser único. Mas interagimos, em nome de alguma filosofia, de um negócio, de um deus, um projeto, uma causa. E existem atributos que nos elevam à categoria de humanos: inteligência, amor, criatividade, compreensão, espontaneidade. Tudo isso deixa a vida mais fascinante ainda. E o que é melhor: a vida que merecemos viver só depende de nós.
Quero que você abandone as verdades recebidas por herança ou por contágio, e passe a pensar com independência. Se chegou até aqui (não só neste livro mas na vida), é porque você deve ter aí na cavidade do crânio uma parte do sistema nervoso central chamada encéfalo — que abrange o cérebro, o cerebelo, pedúnculos e coisas que nem sei. Essa máquina sensível requer cuidadosa manutenção, precisa de carinho, tempo, leitura, dedicação, liberdade.
Não permita, portanto, que joguem lixo nesse aparelho.
E lembre-se: nada de verdadeiramente grandioso foi criado até hoje na história do mundo sem paixão, ousadia, inteligência, loucura — e liberdade.
E eu só entendo a liberdade como liberdade de mudar de vida.
Qualquer outra que não essa será pouca.
Por isso, reaja!
Mude.
Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante que a velocidade.
Sente-se, diferente, em outra cadeira, no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude também de mesa.
Ande pelo outro lado da rua,
mude de caminho, ande por outras ruas, mais devagar,
observe os lugares por onde a vida passa.
Mude o estilo das roupas, dê aqueles sapatos velhos,
procure andar descalço por alguns dias.
Tire uma tarde livre para passear no parque, ou na praia.
Saia sozinho para ouvir o canto dos pássaros.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra portas e gavetas com a mão esquerda.
Durma do outro lado da cama.
Primeiro, troque o colchão, depois, mude de cama.
Veja outros programas de tv, compre jornais diferentes,
leia outros livros, viva novos romances. Troque de carro.
Não faça do hábito um estilo de vida. Corrija a postura,
faça ginástica, durma mais tarde, ou acorde mais cedo.
Aprenda uma palavra nova todo dia em outra língua.
Escolha novas comidas, novas cores e temperos,
outras delícias, novas exuberâncias.
Experimente a gostosura do insólito, do inesperado.
Tente o novo lado, o novo método, o novo jeito, o novo sabor,
o novo prazer, o novo amor. A nova vida.
Faça novos amigos.
Conheça mais pessoas, vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde — ou vice-versa.
Escolha um outro mercado, outra marca de sabonete.
Tome banho em horários flexíveis.
Troque de bolsa, de carteira, de malas.
Compre novos óculos, escreva poesias, quebre o despertador.
Abra conta em outro banco, vá a outros cinemas.
Tente um cabeleireiro mais ousado.
Descubra novos horizontes.
Seja livre até na forma de pensar.
Procure fazer uma viagem longa, de preferência sem destino...
Desperte o aventureiro que dorme no teu peito.
E se não encontrar razões para ser livre, invente-as.
Seja criativo.
Mude.
Você vai conhecer coisas melhores e coisas piores,
mas não é isso o que importa.
O importante é a mudança, o movimento, a energia.
— Só o que está morto não muda.
Até o “Mude” eu sempre mudo.
Por isso é que fiz várias versões desse meu poema.
Mesmo que você já tenha encontrado seu suposto melhor lugar na vida, procure outro. Se ainda não achou o melhor caminho, continue procurando-o. E após ter certeza absoluta de tê-lo encontrado, ainda assim procure outro. A pior coisa da vida é a estagnação — não pare nem mesmo quando estiver no pico que você suponha ser o mais alto. Porque sempre será possível ir além.
A vida tem milhares de caminhos possíveis.
Reaja!
Porque qualquer futuro é melhor do que qualquer passado.
Fico pensando.
Brigar comigo — e vencer — são coisas contraditórias, mutuamente excludentes. Há que se escolher uma delas.
Sou Deus quando me armo de fúria e perdôo quem me ofende. Porque Deus está dentro de mim e fúria só é o nome de um silogismo. Quando se trata de uma história de amor, e não apenas, todo processo deve ter três instâncias básicas: verificação, avaliação e julgamento. E só depois — conforme o caso — condenar ou absolver.
Mas alguns não passam pelos estágios racionais fundamentais, e condenam logo de cara, sem considerar a presunção da inocência. Alguns não se preocupam com a própria reputação intelectual.
É a vida, você sabe.
Mas a morte é um cavalo que trota encilhado ao lado da gente, e nos olha por baixo do tapa, convidando.
Sempre recusei.
— Aliás, morrer é a última coisa que eu quero fazer na Vida!
O Cadáver de um Palhaço.
Se o que digo é fundamental, por que então considerá-lo de outro modo? Ainda que você não goste do que escrevo, acredite em mim. Mas isso não tem hoje a mínima importância, pois não escrevo pra ser famoso, nem falo para ser lido.
Eu falo é por ser amado, e escrevo porque gostoso.
Minha literatura é feita de excessos — eu sei — mas é sincera, tem cadência, suavidade, juventude, pulsação.
Mas até mesmo a sinceridade tem limites.
Não se pode ser sincero além de um ponto.
Como eu ia dizendo.
A vida é um milagre — e não vou agora desperdiçar o meu!
Já fiz uma promessa: Vou sobreviver a todos os meus amores. Naufragar por causa deles — jamais! Posso até me afundar um dia, quem sabe, mas ao voltar à tona trago nos dentes o punhal do pirata. Afundo-me em nome da liberdade mas trago depois enrolada na ponta língua a pérola pura, pois fui capaz de morder com doçura a ostra hesitante. O aventureiro que habita o meu corpo pode até simular um naufrágio em teu nome, meu amor.
— Mas nunca quererei te salvar.
Lembro de coisas antigas como se em silêncio as vivesse outra vez. Do que não presta, me esqueço. Sempre. E se minha memória, que sabe das coisas, guarda um fato — por que iria eu jogá-lo fora? Amo só o que acontece e sempre me apaixono pelo ato em si. Sou cúmplice da realidade. Depois de quatro dias falando comigo perco a razão, e a perco de forma profunda, como se fosse perder a vida — só para buscá-la outra vez com amor não sei onde.
E com a certeza de que volta para mim — outra vez.
Falo de mim como falasse de você.
(E fico pensando.)
Minha vida parece a tua, não porque sejam elas iguais, mas pelo fato inegável de que você pensa que vive no espelho. Nem todo espelho reflete a imagem que lhe damos: alguns a engolem, não para consumi-la em fogo, selvagem, voraz, mas sim para poder amá-la escondido, no fundo mais fundo do fundo de si.
O certo é que não sabemos ao certo o que pensa um espelho a teu próprio respeito. Talvez não se enxergue.
Você não se acha cego.
Pois é.
Sabe aqueles dias em que teu peito parece uma Sibéria?
Você olha no espelho da vida, olha fundo, e não vê um ser humano: — vê um palhaço. Nesses dias você tem que reagir. Porque, se não reagir imediatamente, logo logo vai olhar no espelho da vida outra vez e terá uma nova surpresa:
— Verá o cadáver de um palhaço!
Não falo isso pra te assustar — quem sou eu pra me ter medo? Sou bom, amável, e não teria coragem de meter medo nem mesmo a mim. Meu maior defeito é talvez ser bom demais.
— Quem sou eu? — você pode se perguntar.
Sou um poeta, um escritor de idéias, bem-sucedido mas não famoso. Escritor de idéias libertárias, eis o que sou. Um apaixonado trapezista louco dando um salto vital no escuro de um circo chamado vida, sem redes de proteção. Porque sempre que ouço a voz de Deus dizendo-me “Salte!” — eu salto.
Começo a ouvi-la de novo, insistente.
A voz de Deus que ouço vem de Mim. Meu coração é que se abre como fosse uma boca — e me conta coisas, segredos, me conta tudo. A voz de Deus me conta histórias, me acalenta, faz ninar.
E grita comigo, às vezes, que nem agora que grita salte!
Insisto. Só quem salta inteiro no belo escuro profundo da vida é que pode viver de verdade.
E você — tem saltado muito?
Como vão teus delírios voadores? Como estão os teus amores? E os teus brilhos, tuas dores?
— Como vão tuas misérias e delícias?
Ah, você só quer saber das minhas, é? Deveríamos fazer uma troca, não delas, propriamente — as delícias e as misérias — mas do seu relato apenas. Sei que é difícil pra você abrir o peito assim, à faca, e mostrar-se todo — é muito difícil. Dói, eu sei. Mas o gostoso nesse tipo de dor poética é exatamente isso: Doer em êxtase.
Você nem imagina...
(E se você entende — é melhor saltar.)
Eu me escrevo, você se lê. Por que não invertemos os papéis? Eu me mudo em leitor e você fala que escreve. Ah, você só quer me ler? Quer saber o que tenho pra dizer? Saber dos amores que já tive — e gozar com minha boca e minha história, é isso?
(Você não vai ficar satisfeito...)
Ou você, no fundo, só quer saber das maldades que eu já fiz? Você é leitor ou fiscal do meu prazer? Leitor? Ah, bom. Mas pretende que eu fale dos pecados que cometo em nome de Deus? Quer saber as razões pelas quais matei a Leprosa — se é que existem. Acho que você quer me ver confessando as sujeiras que ainda nem fiz. Você pensa: “será que vou encontrar um cadáver fresco, coberto com jornal de ontem, na próxima linha? Será que o safado vai confessar um estupro na próxima página?”
Acho que você não vai ficar satisfeito.
— Se for só por isso, é melhor parar.
Não fui transformado em abismo em vão.
Nem sou um poetinha de meia-tigela — não!
Sou safado no sentido de travesso, não de cafajeste.
Quando caio em mim, tenho que me cair todo. Assim que me acordo, me acordo outra vez, pela segunda — de novo. Ou você pensa que é um só Deus que me ilumina? A luz de um só Deles me seria pouca. Fechado no escuro do meu quarto me abro, inteiro. Pra tudo quanto é lado, mas principalmente para dentro de mim. Hoje estou com Ele no corpo, o Outro. Não ligue — porque Diabo eu escrevo com inicial maiúscula. Diabo é uma espécie de Deus — a melhor. Mais sangüíneo, mais esperto, o Diabo é o inventor do frenesi, o criador das circunstâncias em que mergulho todo santo dia. Sempre me orgulho pelado: a pele é a maior proteção.
Minha nudez me descobre das vergonhas mais humanas, aquelas profundas, e me cobre de amor e tesão por mim.
Sou rebelde.
(Não sei ser outra coisa.)
Fui, sou e sempre serei contra os conservadores.
Sou revolucionário, amo a vida, a liberdade, o amor.
Isso já vem de família.
Não é genético mas é hereditário.
Meu bisavô Luiz Marques já era um rebelde: trocou o futuro garantido e certo por um presente gostoso e mais certo ainda. Um belo dia jogou fora o velho baú das verdades antigas, e tomou aquelas decisões que só os grandes homens conseguem tomar:
Montou o cavalo negro do risco absoluto e partiu!
Abandonou tudo para não ter que abandonar sua própria alma naqueles caminhos já percorridos. Ele também já sabia que
O único crime que não tem perdão é desperdiçar a vida.
Não fosse por isso eu não estaria aqui, agora, todo coração, tomando essa taça de vinho vermelho e contando minhas histórias de amor pra você.
Sou portanto bisneto da rebeldia.
Bisneto da rebeldia, neto da emoção, filho da loucura, irmão do desejo, primo do prazer, amigo da liberdade — e amante de todos os meus amores.
E existo, por incrível que pareça:
No céu da minha boca não há fogos de artifício:
— Só estrelas.
Digo isso e Paritosh me questiona.
— Por que você repete esta página em todos os teus livros?
— Em quase todos. Repito-a para sentir como pulsa o coração do meu leitor. Ela é o portão principal da minha literatura. O leitor tem que abri-lo para entrar nos meus jardins.
— Mas um mesmo leitor talvez não goste de encontrar, outra vez, o mesmo “portão”...
— E daí? Eu quero outros leitores. Minha posição é delicada: defendo a mudança mas me coloco, me distribuo, me espalho por todos os meus livros, falando sobre as mesmas coisas transformadas. Parece contraditório, mas tem que ser assim. Eu sou assim...
— E se o leitor se cansar?
— Busco apenas o leitor incansável. Não quero acomodados tocando com seus olhos as palavras que escrevo.
— Leitor acomodado também compra livro...
— Às vezes. Mas não quero que o leitor comum leia os meus livros. Seria como se me prostituísse, falando de amor e liberdade a quem não posso amar de forma alguma.
“Faz sentido”.
Não sei aonde vamos chegar com essa conversa. Por dentro, no âmago de mim, sorrio duvidando, mas concordo: até certo ponto, faz sentido. E Paritosh, um representante da Associação Mundial dos Críticos de Arte, me ataca numa parte sensível:
— Isso repele leitores. Acha que já os tem muitos?
— Não: são poucos mas quero tê-los ainda menos. Só os quero se inteligentes. Desde o meu segundo livro já dizia:
“Se, ao ler esta página, você não conseguir ver a velha senhora pensando na vida, abandonada numa cadeira solitária de balanço à espera do marido que não volta; se você não percebe ali, por perto, netinhos alvoroçados olhando a porteira por onde o avô sumiu; se você não ouvir claramente os cascos do cavalo negro do ousado Luiz Marques chutando pedregulhos numa estradinha de terra — abandone esta leitura agora.
Se você não consegue cavalgar a própria imaginação — desista de mim: não escrevo pra você. Se você não consegue nem isso, vá ler Marimbondos de Fogo. Vá ler gibi, jacaré...
Ou Sidney Sheldon. Mas desista de mim.”
— OK: vejo uma velha senhora, gorda, como se acorrentada à sua cadeira de balanço... — ele começa dizendo.
— Não disse "gorda" — retruco.
(Sei onde Paritosh quer chegar. Estou engordando e ele quer me chamar à Razão de uma forma indireta. Quer ser elegante nas críticas para não ferir minha adiposa sensibilidade...)
— Mas já reparou que os maridos abandonam mais facilmente as mulheres gordas? — aproveita para defender uma tese.
— Nunca pensei nisso — respondo.
Ele agora está olhando pra minha barriga, e diz:
— Pois pense. As gordinhas são abandonadas não por causa da banha: a gordura é só uma conseqüência.
— De excesso de comida — opino.
— Sim, lógico, porém mais do que isso: a gordura demonstra o nível de desleixo que tem por si. Há uma atitude que o gordo assume — por isso engorda. Essa atitude depreciativa perante a vida o torna menor, e a gordura em demasia é um possível reflexo. Claro que é um processo inconsciente... talvez uma somatização.
(Ele continua me olhando discretamente a barriga. Acho que nem é tanto assim, mas vou vestir uma camisa...)
— Estamos nos afastando do tema — tento voltar.
— Voltemos: quem já leu teus outros livros, já ouviu o galope, viu o cavalo negro, sentiu o cheiro da crina, ouviu os pedregulhos. Por que então repeti-los?
— O barulho dos cascalhos nunca é o mesmo. São outras as pedrinhas que o cavalo chuta, você tem de senti-las diferentes. Temos que galopar a imaginação.
— Se não?! — Paritosh continua contestando.
— Se não, desista! Nesse caso, minha literatura não foi feita pra você — eu digo, convicto.
Mesmo também me questiono. Porque sempre me questiono, especialmente quando pareço ter certeza de que estou certo. Quanto mais informação você tiver sobre um determinado assunto, mais dúvidas deve ter a respeito dele.
Quanto mais culto você for, mais questionante será!
A certeza absoluta inquestionável é um recurso do imbecil.
(Aqui, ao norte das águas, sinto-me o dono do mar. Penso nos marimbondos de fogo e acabo respeitando Sarney — como escritor e como presidente. O Plano Cruzado foi a maior experiência de distribuição de renda que já houve no Brasil.)
Acho que um desgraçado nunca vai ler o que escrevo — e se ler não vai gostar. Infelizes detestam quem fala de prazer, de alegria. Para um escravo, tal assunto é tabu. Para um escravo a liberdade é frescura. Portanto, só falo para espíritos livres.
Só gostará do que escrevo quem já vive de amor.
— Só esses vão gostar do que eu digo.
Acontece que um livro jamais será melhor que a biografia do escritor. Nenhuma obra supera a vivência do própria autor. Literatura sem observação é vazia. Sem experiência a arte é oca.
— Nada substitui a vida.
Para Voltaire a coisa mais bem distribuída no mundo é o bom senso: ninguém acha que tem pouco. Nem eu, é claro. Mas, antes do fato, não me importa o que se diga dele. Sou até comedido ao contar as aventuras — são muitas, teria de contá-las devagar. Quando chego a mil, perco a conta, começo tudo outra vez. Isso, quando as conto. Mas não conto todas: não sou louco! Eu gosto mesmo é de vivê-las, as aventuras, não de contá-las.
Só as conto por precisão, por ofício, por ócio, por amor.
Para mostrar a você que é possível viver fundo, viver tanto.
(Tudo de uma vez.)
— Morrer é a última coisa que eu quero fazer na vida.
“A esperança é um sonho que caminha”. Aristóteles disse.
Espero que você perca o medo antes de perder a esperança. Que você mostre o avesso da Pandora ao avesso da caixa, e o avesso de si a si mesmo. Que não se contenha em mostrar só Continente, mostre também o Conteúdo — oceânico.
Faça como eu, que abro-me, mostro meus avessos, entranhas coloridas e inteiras, exponho-me como doces invertidos num balcão de sacrifícios. Então, meu interior se agita, cria coragem e resolve mostrar seus próprios avessos. As conhecidas entranhas se reviram e se abrem para dentro de si. Descubro que a parte mais profunda de mim é o contrário dos meus avessos, e que o lado de dentro do meu lado de dentro é a fantasia que de amor me veste.
Minha grande inspiração é Henry Miller. Deus e Zorba, em segundo plano. Pairando agora sobre minha cabeça uma doce ameaça de vida. Sinto-me Dâmocles, a espada — suspensa por um fio de seda — brilha seu fio nesta tarde de sol sobre mim. O vento a balança, eu olho pra cima, começo a sorrir.
Tudo por um fio...
É neste momento — quando confio — é neste exato momento agora que a Vida chega. A vida só chega no justo momento em que temos consciência de que ela está por um fio...
— Só neste momento!
Cabos de aço não conseguem segurar a vida, porque ela não se prende a brutalidades. A linha tem que ser fina, delicada.
Há que ser muito fino para se viver de verdade. A vida não se liga a coisas grossas, densas, brutas. Vista-se de véu para viver de luz. Ou você acha que seria possível viver sempre de mortalha?
(Só falta mesmo ter tesão por escritório!)
Fico pensando: será que você sabe quem foi Dâmocles? Vou abrir o Webster na página certa da memória: "Damocles: a courtier forced by Dionysius the Elder, tyrant of Syracuse, to sit under a sword suspensed by a single hair, to demonstrate the precariouness of a king’s fortunes".
Se não entendeu — stop! Melhor parar. E nem pense traduzir “fortunes” por fortunas... Mas não desista agora, é cedo, você ainda terá tempo. Os saudáveis enlouquecem, os outros ficam por aí — parecendo normais.
Pense nisso.
Os normais aceitam o mundo com o ele é, e os loucos sempre querem mudá-lo. Por isso o mundo muda só por causa dos loucos.
Se todos fossem normais não haveria progresso.
(Onde será que guardei aquele ensaio escrito em Porto Alegre: “Se nós pensássemos como nossos pais”?)
Negar meu potencial é matar-me como ser.
Se por acaso eu vivo um dia de rotina, espremo à noite o meu cérebro como quem torce roupa, e não sai nada — nem uma palavra, nem uma gota, nem um pingo, nenhuma emoção.
E meu corpo só consegue adormecer.
Mas quando vivo um dia de aventuras, vivo também uma noite de amor. E meu cérebro, só, sem esforço, produz e me oferece um milhão de palavras, tempestade de desejos e de mel, um livro inteiro se quisesse. E meu corpo — um milhão de orgasmos de uma vez. Só aventuras acumulam as energias de que meu corpo precisa, e minha alma merece.
(Então me lembro de Silene, de novo.)
Hoje fui à casa dela e encontrei seu pai, um homem simples, simpático, me tratou carinhosamente. Tem uma barbearia. Conversou comigo, sorriu pra mim, parecendo agradecido. Mas se soubesse as coisas que fazemos — eu e sua filhinha —, ele provavelmente me expulsaria de lá. Mas, se soubesse, mesmo, o que eu e Silene estamos fazendo há mais de uma semana; se pudesse saber, mesmo, o tamanho do amor puro que sinto por ela; se soubesse, mesmo, o quanto sua filha é respeitada por mim, em todos os sentidos — me agradeceria mil vezes por segundo. Se o pobre homem soubesse, por exemplo, que a vida sexual da sua filha era um deserto antes de mim; que ela ainda não havia sido amada de forma alguma; que eu a transformo de mulher em musa, diariamente; se soubesse quem sou realmente — esse homem simples, religioso, me recomendaria a Deus, e talvez até colocasse uma pequena estátua minha no oratório do seu quarto, para venerar-me todo dia.
Santo Edson!
(E eu agora o respeito como se já soubesse quem sou.)
Lembro-me do olhar bondoso que me deu quando fui vê-la, e ela não estava. Simulei que fora entregar um envelope, duas ou três folhas dentro, poemas que escrevi. Para ele, importantes documentos talvez. Dirigi-me àquele homem com meu olhar ressabiado, confuso, e ele devolveu-me um olhar terno, fraterno, quase angelical.
Fiquei pensando.
Que é com o dinheirinho ganho ali, honestamente, manuseando pentes, escovas e tesouras, que foi comprada aquela camiseta branca de malha que ela ontem usava — e que molhei com saliva na altura dos seios para que os mamilos saltassem. Foi com o esforço de pai que sua mãe comprou aquela calcinha de algodão, macia, fofinha, azul, que ontem tirei puxando-a com meus dentes de amante. Silene senta-se talvez naquela cadeira ali, ao lado da mesa que vejo através da janela, para tomar café com leite toda manhã, pão com manteiga passada por suave mão de mãe. Foi com o amor desse homem que se fez essa musa há mais ou menos dezessete anos.
Por isso, só posso mesmo amá-la tanto.
É para mim uma honra, Silene, poder te amar da forma como te amo hoje. Tanto, que você não sabe. Nem sabe esse homem tão puro, teu pai, de quem não sei ainda sequer o nome.
Então, numa tarde de sol, vou me sentar na velha cadeira azul do seu salão, e pedir-lhe, "por favor", que me raspe a barba rala e cinza de dois dias, essa amanhecida e poética barba de cafajeste.
Vou olhar-me bem de frente naquele espelho oxidado, cheio de manchas nos cantos, e que tem moldura de madeira comida por anos e cupins. Vou olhar-me firme no espelho, e supor-me um deus arrependido.
(Arrependido — mas sincero.)
Enquanto afia a navalha na tira de couro pendurada no braço de ferro da cadeira Ferrante, vou esboçar um sorriso ao canalha que pareço que sou, lá no espelho — e respirar fundo. (Sinto-me Sófocles com dor de barriga: “A justiça é às vezes inoportuna...”) E quando estiver com meu rosto cheio de creme, branco como palhaço húngaro em corda bamba; quando ele levantar a navalha com sua mão direita, naquele gesto delicado e profissional de um homem honrado que sabe o que faz; quando colocar o indicador de sua mão esquerda no meu queixo para esticar um pouco a pele bronzeada — quando for este preciso momento, vou lhe dizer, com poesia, com cuidado:
— Senhor, fui eu que tirei a virgindade da sua filha...
Sei que vai parar seu gesto ao meio.
Ficarei imóvel também, aguardando a decisão da suprema corte que lhe habita o coração.
(Que lhe agita o coração.)
Mil dragões e anjos em luta no labirinto em que sua cabeça se transforma. Verei no espelho o movimento da sua garganta engolindo em seco alguma coisa. Vou ver tudo o que for possível ser visto no instante que pode ser último. Tentarei ver o brilho suspenso da velha navalha refletido no espelho, como farol de uma ilha perdida orientando náufragos de um amor que sobe à tona.
E continuo:
— Foi ontem, Senhor, no luar prateado de ontem à noite, as estrelas por testemunhas — foi ontem que amei sua filha Silene...
(Esse, o momento!)
Esse é o absoluto momento que eu quero viver.
O fio da navalha!
Um momento em que minha vida estará pulsando nas mãos indecisas de outra pessoa, nas mãos desse homem que é o pai da inocente futura mulher que eu hoje mais amo no mundo. E que talvez não compreenda essa minha atitude.
— Por que você diz isso agora? — perguntará.
— Para se fazer justiça, meu senhor.
E ele ali, meio perplexo, a navalha meio cega suspensa por meus olhos, seu indicador apontando um lugar imaginário no meu queixo branco de espuma, a jugular clamando gumes.
Um mosquito pousa na minha testa.
O vento balança um bilhetinho pregado com durex na moldura do espelho.
Um cachorro late lá na esquina.
Uma criança passa correndo atrás de um gato.
Vejo que a navalha não tem fio: tem uma linha de raciocínio. Respiro cuidadoso, como Bergman em noite de verão me dirigindo. Crepitam gravetos e coivaras no meu peito. O pulmão direito agora muda de lugar e o esquerdo se transforma em suspirante coração.
Continuo dizendo, calmo:
— Ontem à noite Silene não foi à escola: fomos à minha casa. Ela aceitou meu convite pra jantar. Tomamos vinho, olhamos a lua, ouvimos música, dançamos...
Em voz baixa, vou lhe dando mais detalhes.
(Conto tudo.)
É um duelo informal de cavalheiros: eu entro com a história — ele, com o silêncio. Eu entro com a garganta e as emoções — ele, com a faca e o risco. Eu entro com a dor, ele, com a filha.
Sinto que me olha sem piscar.
Mudo.
Minhas mãos pousadas no descanso da cadeira.
Esse é o momento.
(Vai ser assim!)
Porque o Paraíso não pode ser lugar de gente morta.
Há que ter risco.
— Risco, navalha, tempo, garganta, mulher, emoção.
Tudo por um fio...
Mas agora uma garrafa de vinho pela metade, rosa vermelha ansiosa por mim, três ou quatro velas azuis em castiçais de prata espalhados pela sala, uma penumbra gostosa onde sombras delicadas dançam por si mesmas, o Bolero de Ravel crescendo em todos os sentidos no meu peito apaixonado, uma brisa noturna e encantada entrando pelas portas e janelas. Mistérios no ar, desejos, também. Às vezes, silêncio: e Ravel retorna.
Espero uma das outras minhas amadas.
Se ela chega, agradeço a Deus por ter chegado, e nos amamos da forma mais gostosa. E se não chega, agradeço a Deus por não ter vindo, e continuo a me amar da mesma forma. Não faz diferença se danço com você, ou se sozinho: amo as duas coisas, e a dança sempre acontece primeiro dentro de mim. No fundo, sempre agradeço a Deus por você vir, e agradeço mais ainda se você some por uns tempos. Quando você desaparece, meu amor, o espaço que você deixa é enorme: e então procuro ocupá-lo de modo diferente, pois cabem dez outras dentro dele...
Olho para meu corpo como se olhasse a própria Natureza. Um pedaço dela — o mais importante, concluo. Quando passo as mãos em mim, é como estivesse refinando uma escultura, cobrindo-a de amor e ternura. Eu, meu alimento!
Quando me toco ouço música. Vibrante.
Não tenho uma vida só: tenho muitas. Todo dia, ao me levantar, escolho uma delas pra viver — e são todas perfeitas, todas livres. À noite, quando venho dormir após extensa jornada de amor, guardo em mim essa vida que hoje vivi, e vivo-a de novo.
Sou garimpeiro de sonhos remexendo cascalhos de amor.
Se vou mudar, nem Deus sabe.
Eu acho que sim.
— Se você não acredita, é melhor parar.
Me espanto ao ver que essas coisas que se transformaram em mim já existiam — separadas — e só se uniram para formar-me. E que outras continuam vindo para tornarem-se-me. Que inteligência as conduz até mim? Por que será que me escolhem? Ou por que é talvez que aceitam o convite para que venham a constituir-me dessa forma tão gloriosa?
Continuo perguntando como se fosse alpinista:
— Posso ver tua pequenina montanha, meu amor?
— Sim — ela responde.
"Eu sempre digo sim, quando você me fala de amor".
Então levanto delicado o azul de sua saia, clarinho, passo as mãos por suas coxas, sinto a penugem que lhe cobre a pele lisinha, firme, e vou subindo, subindo, subindo. A calcinha é preta: surpresa para mim. Adoro surpresas. Imaginava que fosse bege. (Essa é uma das vantagens dos amores passageiros: a gente nunca sabe a cor da calcinha que ela veste.) E vou subindo mais ainda minhas mãos nessa escultura de carne, sangue, tesão e arrepios.
Sussurro: — Que maravilha...
E ela, como penteasse delicada meus cabelos com os próprios dedos abertos, sorrindo, sentada na cadeira branca:
— Você é o amor.
Ela não disse: “você é um amor”.
Disse: Você é o amor — e frisa (demoradamente) o artigo definido, masculino, singular.
Mas não será agora que vou lhe ver a deliciosa colina.
Vou deixar para depois, outro dia, quem sabe. Talvez nunca. A mim me interessa mais a permissão que ela deu. Basta. Eu sei que amanhã talvez, na cama, numa posição mais confortável, vou lhe tirar a calcinha puxando-a com meus lábios evidentes. E vou então poder observar-lhe o clitóris, sua cor, textura, tamanho, volume, gostosura, freqüência, pulsações por segundo, essas coisas.
Amanhã... talvez. Nunca tenho pressa.
Hoje só quero tocar o clitóris da própria vida.
Não penduro na parede da sala as fotos dos meus amores como fossem troféus de caça. Porque são elas as feras que me caçam, me conquistam, me dominam, mordem, lambem, acariciam, me amam. Só não permito que se acasalem comigo. Assim como pintores precisam de modelos, também escrevo melhor quando as tenho à vista, nuas, puras, belas — todas. Às vezes, acho que já não mais escreverei coisas tão novas, mas logo em seguida outras idéias fervilham na minha cabeça flamejante; no coração, sentidos pululam como rãs embriagadas de amor; nos olhos, imagens dançam coreografias revolucionárias criadas por Martha Graham; de minhas línguas surgem novas palavras grávidas de encantos que se dão à luz.
Então escrevo, escrevo de novo. E de novo de novo.
— Meu único princípio é não ter fim.
E as palavras se oferecem prostitutas para mim.
Caem no meu colo, lúbricas, doces, inocentes. Caem na minha boca, na minha língua portuguesa — e em todas as outras. Se derretem por mim quando preciso delas quentes para falar de amor, e vêm geladas se preciso contar tristezas. As palavras, todas, se oferecem para mim, obscenas e santíssimas ao mesmo tempo.
Divinas e profanas — como um falo.
Então as escrevo, profundas, belas, insensatas, radicais.
Por isso há tanto lirismo na minha obscenidade.
Tanta realidade na minha ficção.
E tanto amor nos meus amores.
A história que vou contar é a mais pura das minhas verdades. Vou relatar o que vi com meus olhos do amor, descrever como tudo aconteceu. Se algo fugir do real, será mais por falta de lembrança do que de caráter. Sou um anarquista lúdico. Anarxista. Alguns dias por semana, algumas horas por dia, represento um papel: me transformo em operário, chego manso ao escritório, cabisbaixo, feito um idiota. E represento tão bem esse papel no palco da hipocrisia cotidiana, que as pessoas pensam que sou mesmo responsável.
Mas, por dentro, continuo rindo de tudo — e de todos.
Portanto, não me peçam para sofrer: não tenho complexo de mártir. Sou só um santo louco, gozador, inconseqüente, com enorme vocação para ser um Deus-palhaço — nada mais.
Na verdade, até que sou bastante responsável.
(Só que não levo a responsabilidade muito a sério.)
Deus adora o porra-louca, por isso lhe dá tanta alegria, tanta energia. E Deus não pode amar os que são sérios — e por isso os faz tão tristes. Deus gosta muito de brincar. O próprio Mundo é seu maior brinquedo. Lembre-se:
— Quanto mais sério, mais longe de Deus!
Fico pensando:
Se eu tivesse aprendido uma palavra nova por dia, desde que nasci, não saberia hoje nem 20.000 palavras diferentes. Como vemos, não basta aprender apenas uma palavra por dia. Um escritor deve saber pelo menos 50.000 palavras na ponta da língua em que escreve. Para um idiota, bastam mil. Presidente de cooperativa se vira com trezentas. Mas um pedreiro deve saber cerca de 3.000 — incluindo-se "tijolo, pedra, areia, cascalho, marmita e Corinthians".
Shakespeare sabia apenas 5.000 palavras diferentes — mas eram todas as que haviam no inglês daquela época.
E você, está pensando em ir além?
Acho que o meu além nunca vai além de mim.
Por isso ainda não decidi a quem vou deixar o meu além.
No Upanishad, escrito talvez no século VII a.C., lemos que Além é "aquilo que as palavras e os pensamentos não alcançam". O que não foi, de nenhuma forma, nomeado — o transcendente.
Quero sempre o novo absoluto.
Enquanto vocês engessam seus braços fechados, procuro abrir mais ainda meus braços abertos de amor. Só me dão prazer amizades eróticas, por isso tenho tantas amigas. Amizades masculinas, machas, não sensuais — com elas só desperdiço meu tempo. Tenho pouco interesse em ser amigo de alguém que não posso amar.
É só disso que trato nos meus livros. Da Gramática do Amor.
Le livre de la Liberté!
Se você não gosta dessas coisas não será nunca meu leitor.
Minha literatura propõe uma prática de Liberdade.
Eu só falo de amor.
— De amor livre!
(E se você não gosta disso — é melhor começar a gostar.)
O amor tem que ser livre em todos os sentidos. Mas para você é impossível; você é contra o amor livre. De novo te pergunto:
— Se o amor não pode ser livre, como deve ser então: amor preso? Amor acorrentado, encarcerado, sufocado?
(Seria contraditório.)
Quando eu era pequeno brincávamos de ver nuvens no céu de Srinagar. Meus amiguinhos só viam bois, cavalos, elefantes, mangueiras, copos de leite. Mas eu, nas mesmas nuvens, via elefantes enfeitados com safiras dançando em tamboretes de ouro em picadeiro de circo; via Bonaparte empunhando sabres num cavalo branco; via uma mulher descalça, vestidinho de chita, carregando um pote de água pura na cabeça; via um miura com quatro banderillas espetadas no lombo ensanguentado; via a Vênus de Milo de ponta-cabeça...
Eu via coisas que os outros não viam. Até hoje ainda olho para o céu e vejo coisas que nem posso contar, de tão lindas, encantadas — maravilhas.
Vocês não iriam mesmo acreditar.
Duas coisas são básicas na formação do ser humano: pensar rápido e enganar autoridades. Como eu era pequeno por fora, fisicamente fraco, economicamente dependente, e tinha pai autoritário, fui obrigado a pôr asas no meu cérebro — e aprender a jogar. Já vem daquela época esse meu poder de enganar “autoridades”. Do inspetor de alunos ao juiz da moral; do síndico do meu prédio até a polícia rodoviária, passando pelo padre e pela zelosa mãe de uma lolita.
Engano todos.
Engano até mesmo essa mulher ciumenta que dorme hoje ao meu lado e pensa que é minha dona.
E se eu tivesse patrão, chefe, professor — enganaria os três.
Mas não tenho nada a esconder. Até teria, fosse medroso.
Exceto uma vida livre em todos os sentidos, nada que me obrigue a receios. Uma adolescente aqui, outra acolá; um bacanal de vez em quando, vinho, flores. E literatura. E fazer amor com duas mulheres ao mesmo tempo, também de vez em quando. Só isso. Nada a esconder, tudo declarado: não sou gay, não sou ladrão, não uso drogas, não sou judeu, não sou nazista, não sou pobre, não sou rico, não sou muito velho, não sou muito feio, não tenho muitas dívidas, não sou muito preto, não como muitas criancinhas — não sou muito burro. Nem muito comunista sou mais. E vivo extremamente bem — na praia. No sol, descoberto, nada a esconder.
Vivo como rei, mas nem sempre foi assim.
Quando cheguei a São Paulo eu era pobre — muito.
E pobre vive fazendo conta só pra ver se o dinheiro estica. Eu mantinha um rigoroso diário financeiro, com letras minúsculas, um personal cashflow. Tenho vontade de rever uma daquelas fichinhas coloridas, caprichadas, cuidadosamente guardadas na carteira, onde eu descrevia o que gastei e de que forma: guaraná Antarctica, pipoca com queijo na Filosofia, duas passagens de ônibus, um jornal, duas entradas no Belas Artes, um chocolate, pizza brotinho na madrugada Xangai do Parque D. Pedro, um sabonete Lux, O Grau Zero da Escritura no sebo...
Era uma pobreza tão rica!
Só lamento ter perdido as “Recordações da Casa dos Mortos” porque o dinheiro não deu. Fiquei com o livro na mão quase uma hora, esperando acontecer um milagre na Avenida São João. Depois fui dormir com Dostoievski, imaginando o seu romance. Meu quarto na pensão aquela noite parecia uma Sibéria, eu só tinha um corta-febre me cobrindo de frio e de agosto.
Ou seja: nada a esconder.
Mas se você quer mesmo me criticar, vai ter que esperar.
Sempre que não estou construindo pirâmides, eu faço amor. Das 24 horas do dia, reservo algumas. Não são muitas mas são tantas, tão intensas! Nessas horas só faço amor, com toda a delicadeza que a expressão comporta. E de uma forma pura, inocente, quase religiosa. Nessas horas eu amo. Só isso: amo. Depois tomo um vinho, rouge, sossegado, o leão que trago no peito repousa, me sinto bem. Se você não ama todo dia, como amo, nem toma o vinho que eu tomo, o problema não é meu. Só quero que você viva a vida — se é que podemos chamar de vida essa tua indecente ausência de amor.
E deixe que eu viva a minha — só!
(Cada um na sua.)
Se você não concorda, melhor fazer outra coisa.
Prefiro o cume, prefiro o pico, porque aqui não tem fila, não tem ajuntamento, empurra-empurra, confusão. Prefiro o cume porque aqui ninguém me aporrinha, ninguém me pressiona, nem me pede autógrafo, nem me enche o saco. Prefiro o cume, o píncaro, porque é só aqui que eu sei viver. Nasci para o pináculo. Para o auge.
Portanto, cada um na sua — sempre.
Se você não concorda, etc.
Aliás, será que você me entende?
Quando eu digo “Saltar no belo escuro profundo da Vida” tem gente que pensa que é para baixo! Ora, eu me refiro a um salto para cima. O salto mais profundo é o que damos para cima!
Por falar em salto, Fernanda hoje beijou-me os pés. Mil beijos cândidos, lúbricos, a língua dançante feito cobra vermelha entre os meus dedos, todos explodindo de alegria. Agora sei o que sentia Jesus quando chegava a prometer até o céu às mulheres que Lhe beijavam os pés. Agora eu sei! Jesus, por que você demorou tanto tempo para mostrar-me essa menina e Suas coisas?
Mas Deus agora me veio de ouro em fernanda pessoa.
Assim como Zorba, o grego, eu vivo no paraíso.
Se o paraíso for só para depois da morte, não me interessa. Como disse Zorba, o Buda, cada um procura (ou constrói) seu próprio paraíso: alguns transformam seu paraíso num monte de tonéis de vinho; outros, em igreja evangélica; outros ainda, em saldo bancário. Nem me refiro a paraíso fiscal. Eu, como poeta que sou, tenho assim meu paraíso: uma bela tarde ensolarada, brisa delicada me tocando as faces, gostosuras preenchendo meus olhares, e ao meu lado um amor que eu agora esteja amando.
E mais duas ou três mulheres-fernandas me beijando os pés.
Só isso...
— É assim meu paraíso.
Por isso estou lançando hoje uma “Campanha de Preservação da Natureza”. Da minha natureza.
Nunca mais forçarei Minha Própria Natureza!
Sou amigo até das feias, mas das belas, sou mais. Quando olho uma bela mulher com olhos de amigo, sinto por cima dos ombros o amante à espera de uma chance. À primeira vacilada, o amante que mora em mim ataca. Com delicadeza, mas ataca. Por isso, menina, não ligue quando pouso minhas mãos em tuas coxas: não quero mais nada. Mas o amante em mim te observa, te foca.
O amante em mim te lambe com a língua do sonho, e te vê com os olhos da alma. E aguarda o momento, o mágico momento em que, felino, vai tocar o teu sexo com poesia e tesão.
— Respeitosamente!
Porque o instante de uma coisa não a precede. O momento de um fato não chega antes dele mesmo. Antes do caos, tem que haver uma desordem. Meus amores são todos turbulentos. Parecem calmos por fora, mas por dentro estão fervendo. Mesmo quando tudo parece que repousa, a pele ainda não: seu arrepio não se cansa.
A coisa mais profunda no corpo humano é tesão à flor da pele.
Escravo por um dia.
Um dia desses vou fingir que sou normal.
Comprar um despertador de plástico, regulá-lo para que toque às sete e quinze da manhã, e acordarei sobressaltado.
Meu coração vai bater com força nos meus desejos.
Vou virar-me de lado, fazer de conta que reclamo da vida, mostrar-me sonolento — mas pularei da cama como se fosse um autômato desesperado.
(Vou tirar até a remela dos olhos, que é pra dar um tom.)
Fazer tudo com pressa: escova, pasta, banho, pente, sabão, creme de barba. Vestir-me, tomar café, abrir a porta, fechar, sair — tudo correndo.
Terei hoje uma missão extraordinária:
— Foder-me.
Desperdiçar minha vida.
Prostituir-me em troca de um salário ridículo.
(Todo salário — se não for fantástico — é ridículo).
Vou trocar um pouco de vida por um pouco de morte.
E à noite, quando chegar em casa, vou ligar a tv pra ver o que perdi. Vou aguardar o jantarzinho que não vem. Vou até esquecer-me de beijar essa esposa que nem tenho. Dizer que não posso brincar com o filho imaginário, porque meu jornal é "indispensável".
Vou sentir-me um escravo.
Escravo e estúpido. Porque, antes de ser normal, antes de bater cartão de ponto, antes de escolher um chefe, antes de se casar, antes de assassinar a tua própria liberdade — você tem que ser essas duas coisas, simultaneamente: Estúpido e escravo.
Felizmente, minha missão extraordinária vai durar um dia.
— Só um dia!
(Porque, fosse para sempre, aí é que eu tava fodido mesmo!)
O filósofo, o poeta, o artista — nossa função é saltar barreiras, subir à tona, transpor obstáculos, desbravar caminhos, quebrar ícones da moral, fulminar a hipocrisia da sociedade, melhorar a vida, mudar o mundo. O poeta, o artista, o filósofo, o cientista, o escritor — somos a vanguarda da História.
Somos líderes porque não podemos ser outra coisa.
Em nós, razão e loucura disputam corrida.
A razão ganha todas, mas num lindo gesto de grandeza cede sempre o troféu à loucura.
Pois é.
Qualquer coisa que digo pode estar na primeira página, porque tudo tem verdade que lhe sustenta. Até aquilo que nego pode às vezes ser verdade. E quando nego, também o faço porque creio. Assim como afirmo por amor e doçura, não nego com segundas intenções. Mesmo quando falo de mim penso no outro, no que representa para si — e para aquele que pensa ser. Quando digo "representa" não penso só em significância, mas também em teatro, jogo, simulação. Nem tudo o que significa diz alguma coisa — nos iludimos às vezes com aquilo que é real. Fala não se confunde com voz, aquela é mais profunda, tem mais cor, mais peso, mais volume.
Não dá pra se enforcar num lacinho de cordas vocais.
— Nem todo nó na garganta pode ser desatado.
Melhor engoli-lo do jeito que está — é muito melhor digerir o que estiver sufocando.
Penso em Nietzsche. “Não existem verdades definitivas”. O que existem são interpretações sobre a realidade, determinadas pelo ponto de vista e pela capacidade intelectual de quem as propõe.
O vinho é feito de agulhas, meu copo um dedal. Costuro à mão pedaços da infância — com eles faço um lençol. Peço à Lorenna que me cante cantigas de natal da Idade Média, e ouço a Singer rangendo seus pedais no meu CD. Minha mãe também costurava, pregava remendos, colava botões nos buracos, lavava roupas de amor. Vejo até sabão de cinzas no fogo que tanto me arde agora no peito, espumas de lembranças incendiadas.
— Edson?!...
— Ahn?
— Nada.
— Edson?!...
— Ahn?
— Nada.
De tempos em tempos eles me chamavam, e eu “— ahn?”. Depois da terceira pergunta, fiquei esperto. E aí veio a quarta vez:
— Edson?!...
(Silêncio profundo.)
— Edson?! Tá dormindo?...
(Silêncio mais profundo ainda.)
Segurei a respiração, não respondi, abri as orelhas como duas enormes antenas parabólicas, e fiquei aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Meu coração barulhento fazia "tum tum, tum tum tum, tum tum tum, tum tum tum". De novo, como certificassem que eu estava mesmo dormindo:
— Edson?!?!...
(Silêncio lunar.)
Então começaram. Eu tinha um misto de curiosidade e de ciúmes. Com sete anos, o sexo era incômoda, enorme incógnita para mim — e desesperada curiosidade. Nem me mexi, para que as palhas do colchão não fizessem barulho. Meus pais supunham fazer aquilo que chamavam de amor, no escurinho de um rancho de sapé, no sul do Maranhão — e eu fingia dormir na caminha fofa de taquara verde.
Naquela noite, sonhei muito. Tanto, que nem me lembro. (O mistério do sexo era maior que o meu próprio. Para mim, o sexo era um mistério absoluto. Para mim e para Freud.) Na madrugada caí da cama, a única vez que devo ter caído da cama em toda minha vida, exceto aquela em Lhasa, como já disse. Caí no chão meio duro de terra batida, envergonhado, ainda que ninguém tenha visto a cena da queda. Trepei na cama de novo, em silêncio. E dormi, um pouco angustiado, sentindo-me traído naquela madrugada perdida no meio do mato, no sul de um estado que nem mais existe.
Já dormi em colchãozinho de palha, com um pau de lenha por baixo, fazendo as vezes de travesseiro. Experiência poética que você não terá jamais. Porque, antes de ser trágica, era poética aquela experiência. Não me incomodavam as palhas nem o barulho que faziam quando se roçavam entre si, como se loucas por mim, como se me aplaudissem. Eu era tão pequeno, tão pequeno, que aquilo não era uma cama: — era o meu berço.
(Esplêndido!)
Primeiro, Luiz e Vitalina, depois, Luiz e Maria. Afinal, Luiz e Iracy. Agora, Eu e Mim. Pouco a pouco, muito a muito, fui chegando. Numa sucessão gloriosa de luz, vida, pureza e açúcar — cheguei.
Portanto, aproveite-me, tente-me, prove-me.
Sou filho do que há de melhor.
De manhã, não fico ruminando o luar que já se foi. Antes do primeiro gole de café, limpo o gostinho madrugante que minha boca possa ainda estar sentindo. Não me atenho a coisas que passaram, não me ligo a cadáveres de nada, o que morre não me encanta, eu me ocupo só do agora.
Eu amo o agora.
— Só.
Portanto, "dá-me mais um tempo, Demônio: ainda não caiu o último grão do meu relógio de areia". Busque-me mais tarde, volte depois, porque agora estou amando como Deus, ainda conquistando minha amada imortal. Não me interrompa esse último ato, a taça de cristal da minha vida transborda de amor e prazer. Quem sorve esse néctar derramado é a escancarada boca gulosa da liberdade absoluta. Para compor esse quadro com harmonia, cadência e sorriso, você tem que dançar comigo a dança livre da alegria pura.
A vida é uma festa — em todos os sentidos.
Portanto, chega de médio, de pouco, de medo, de escuro.
Viva a cor, viva a coragem viva!
Castelli, meu grande “amigo-da-onça”, sugeriu-me um dia:
— Se gosta tanto de coisas novas, Edson, case-se, tenha um ou dois filhos — e você viverá uma experiência nova.
Ao que respondi, lamentando esse conselho:
— Eu amo o novo, mas só o novo que não suprime a possibilidade do novo novo. Se um novo por acaso traz consigo o germe que tenta torná-lo perpétuo, e de algum modo impõe certas exclusividades não naturais, ainda que delicadas e ainda que passageiras, fujo dele, como Deus foge da cruz. Não posso — jamais! — amar o novo que vai me impedir novos amores. Por que razão fecharia uma situação de futuro? Como poderia eu amar uma coisa que logo logo vai acabar atrapalhando meu amor por todas as outras? Nesse caso, trocar o todo pela parte é uma impressionante demonstração de burrice!
Minha descendência não está assegurada. Ao contrário: acabo-me em mim — para sempre. Não continuo, não me prolongo, não me estico, nem me desdobro: quando me for, irei inteiro — todo.
Não deixarei uma gota sequer do meu sangue perdida por aí.
De mim nada ficará, exceto as palavras que falei, os livros que escrevi, e todos os amigos e amores que amei — a minha historia e as minhas histórias: só isso.
Filhos, netos, bisnetos: nunca os terei. Nunca.
Jamais serei proletário!
— Felizmente.
(Fico sonhando.)
E são sempre coloridos os meus sonhos. Mesmo quando sonho em preto-e-branco, vem Van Gogh e os transforma. Às vezes, vem Cézane, outras vezes, correndo desde Papeete, desde a Patagônia, vem aqui o Paul Gauguin me socorrer. Pinta as mulheres minhas como se suas, leva algumas com ele, embora.
E me lança olhares perguntantes ao sair.
Respondo sempre: — Pourquoi pas?!
Dali também costuma vir aqui. É o mais irreverente: às vezes, as ama antes mesmo de pintá-las, outras vezes, nem lhes deixa secar direito, e se lambuza em tinta fresca. Gauguin é deles o mais louco. Só Van Gogh é mais contido, mas sempre ao terminar beija a orelha delas. Já Picasso é cuidadoso: as mais feias ele apaga e diz apenas:
— Essas não têm conserto, Edson.
(Não era Picasso que usava os pincéis uma só vez, “como se fossem mulheres”?)
Algumas das "pintadas" se misturam às coloridas de verdade, e depois ficam rondando pela casa quando me acordo. Mas todas são originais, e amo-as até que mais não possa.
Ou até que a casca caia.
Eu também só escrevo a cores — vocês não vêem?
Se não as vêem — desistam.
Em terra de rei quem tem um olho só é cego!
Minha mãe e meu pai me deram o que tenho de mais valioso: a Vida. A forma de geri-la, contudo, é de minha inteira responsabilidade. Sou o gerente da minha vida, “o capitão da minha alma”, o general do meu mundo.
Sou meu próprio diretor!
O autor exclusivo dos caminhos que percorro.
Não sou como Joaquim, meu avô paterno, que era carroceiro por profissão. Não o conheci porque ficou louco bem antes de mim. Todos os dias ele ia à estação ferroviária com a esperança de fazer carreto, um servicinho qualquer — para salvar o leite das crianças. E todo dia, isso era sagrado, trazia alguma coisa para casa, embrulhada geralmente num paninho branco de saco de açúcar. O coitado era tão humilde que não posso me lembrar dele sem que chore.
Era assim: toda segunda-feira ele trazia uma latinha de massa de tomate Elefante; na terça, um pacotinho de macarrão; na quarta, cem gramas de queijo ralado; na quinta, quilo e meio de tomates bem maduros; na sexta, lembrancinha para os filhos, doce que seja, umas balas; no sábado, a garrafa de vinho tinto, daqueles de barril — e estava então completa a tão querida macarronada do domingo, ao lado dos filhos e da mulher que ele amava, Maria.
Era a sua maior alegria...
Depois, anos mais tarde, doente, chorando, tremendo de frio, ele foi abandonado pelos próprios irmãos na porta de um hospício em ruínas, na cidade de Franco da Rocha, SP.
O nome dele era Joaquim dos Santos.
Bebia, sim, mas não era um pau-d’água.
E talvez o maior erro da sua vida foi ter permitido que outros tomassem decisões em seu nome.
— Enlouqueceu do lado errado.
Fico pensando em inglês.
Because My Joyce Will Go Ann.
Outono, sábado, 22 horas, 51 minutos, 17 de abril, a pressão atmosférica ao nível do Mar Azul do Guarujá é de 759 mmHg. Ao meu lado uma prova de que a Natureza pode às vezes ser perfeita. Peso: 49,9kg, altura: 161 cm, pressão arterial máxima sistólica: 118 mmHg; mínima diastólica: 68 mmHg. Pulso: 92 por minuto. Idade: treze. Nome: Joyce Ann.
Saudável, assustada, inocente, lolita — naturalmente.
Um pouco mais tarde, olhos fechados, a Musa torna o começo da madrugada mais brilhante que aurora trazida por Lúcifer. Sua mãe, cansada de tanto nos cuidar, vai dormir, deixando a incumbência para Simone, irmã mais velha — que meia hora depois dormiu de roupa e tudo no sofá. Ou seja, Deus, em sua magnífica bondade, foi preparando o mundo para que só nós dois ficássemos acordados esta noite. Deitada com a cabeça em minhas pernas, mãos infinitamente dadas, após nelas ter passado creme suíço Collagen Elastin, ouvíamos o disco que ela trouxera: Celine Dion. A música era My Heart Will Go On — repetindo por mais de vinte vezes.
Luzes apagadas, o controle remoto nas mãos para desregular o som de acordo com o desejo de Deus. Um pé esquerdo de sandália preta na cabeça da estátua argentina que tenho na sala.
O fascículo com a biografia de Delacroix, que havia antes lido para ela, aberto na página em que a Liberdade conduz o povo.
Detalhes que moram no meu peito como se eu fossem.
Momentos que ainda me parecem o resumo dos últimos cinco mil anos de história. Quem nunca viveu o amor com tal intensidade não sabe o que está perdendo.
Aciono o controle remoto para Celine cantar Immortality para nós, e aciono o controle imediato para tocar a vida:
— Posso tocar teu coração, Joyce Ann?
— Sim.
A resposta veio rápida, minha mão direita saltou os milímetros que a separavam do peitinho-coração de Joyce Ann. É a segunda vez em minha vida que toco seu corpo dessa forma, e meus gestos, delicados, serão inesquecíveis para mim. Sei que não devo avançar demais, porém algo mais forte agora que a razão me impele, firme.
Então lhe digo:
— Meus dedos querem atravessar o tecido da blusa e tocar tua pele ao vivo, posso?
Ela sorri, esconde o rosto com inocência excitante nunca vista por mim, e diz:
— Tenho vergonha...
Não era um sim nem era um não — mas a manifestação de um pequeno temor e grande desejo ao mesmo tempo. Joyce Ann apertou-me o pulso e fez com que eu sentisse um mamilo pronunciado, espetando a palma da minha mão. Então larga meu pulso, suspira, sinto tesão e dúvidas — simultâneas. Devo enfiar meus dedos pelo decote ou procurar outro caminho mais discreto? Devo orientar as circunstâncias ou jogar-me de cabeça dentro delas? Devo jogar-me como se eu fosse um jogo ou como se fosse um brinquedo? Enquanto me decido, me questiono. Minha mão, em minúsculos movimentos circulares, dançando sobre o mamilo durinho, como prato de porcelana girando na pontinha da vareta de um malabarista chinês apaixonado.
Não era um sim nem era um não.
Há duas horas que meu sexo deliciosamente excitado me aponta um caminho como fosse uma seta — mas resolvo não segui-lo. O caminho deve ser longo para que possamos percorrê-lo passo a passo. Step by step. Decido-me deixar minha mão onde está.
No máximo, em todos os sentidos.
— Não será hoje!
Celine Dion continua "talking about love", e Luciane começa a deixar de responder, sua cabeça pende ainda mais e uma coisa chamada ternura se apossa de mim. Ajeitei sobre ela o acolchoado que já nos protegia e fiquei mais duas horas velando seu sono, ouvindo a faixa nove: "Miles To Go (Before I Sleep)”. Velando seu sono — e tentando acalmar meus instintos, enquanto vasculhava a memória em busca de momentos iguais a este.
(Não encontrei nenhum parecido).
Ela dormia criança — bem solta, entregue a si, pura, a cabeça repousando no meu colo inocente, confiante.
Como um quadro de Klimt, especialmente o Retrato de Mada Primavesi — Joyce Ann requer demorada contemplação.
O tempo foi passando, veloz, e quando meu próprio sono começou de madrugada a derrubar-me sobre ela, me lembrei de Kundera. Tento acordá-la, em vão, e há cabelos prisioneiros no meu zíper, indicando-me sonhos que imagino agora ter tido.
Levo-a para sua cama, cuidadosamente, carregando-a em meus braços de amor, como carregasse a mais sustentável das levezas de um ser perfeito — 49,9 kg de gostosura absoluta.
(Não é preciso sentir mais nada.)
Mas, antes de fechar este capítulo, uma frase, que talvez seja de Nietzsche:
“Mesmo à beira do abismo — dançar, dançar, dançar...”
Jupiter com guaraná.
Minha mãe, dizendo o que sentiu ao lado do caixão do marido, que por acaso era meu pai: "Eu só tinha medo de que não chorasse. Depois que chorei, foi como se cumprisse um dever. Ufa! Fiquei com medo de rir da cara dele, estatelado ali no caixão. Mas parte do meu choro foi além da coreografia, um pouco era verdade, um pouquinho era verdade. Mas chorei muito mais por mim do que por ele. Chorei por ter sido tão burra, tanto tempo: ficava sozinha com onze crianças, a menor com seis anos. E o filho-da-puta sai de cena justo agora... Nessa mistura de alívio e incertezas, derramei umas gotinhas.”
Era o que se esperava dela naquele momento.
— Fiz o que pude — confessa.
Fico pensando.
Meu pai morreu de ataque cardíaco.
Meu avô, bisavô, tataravô, seu pai e o pai do pai dele, todos os meus antepassados morreram de ataque cardíaco. Meus tios e primos — da primeira, segunda e terceira geração, também. Meu irmão, ameaçado. Até cunhado meu anda morrendo de ataque cardíaco.
Tenho, portanto, que romper com a tradição.
(Mais uma vez!)
Acho que meu pai bebia não para ficar alegre, mas para esquecer tristezas. Acontece que o coração dele era movido a tristezas, e quando as perdia se desesperava, tornando-se triste de novo por tê-las perdido e para tê-las de volta outra vez.
Era um círculo vicioso reduzido ao infinito.
Ele sempre me concedia dois direitos: respirar, e ser escravo — mas só o segundo era exercido plenamente. Quando Júpiter visitava-lhe o peito, me dava bolachas com guaraná. E quando Júpiter se ia, ele me dava bolachas com ódio. As primeiras, de trigo, se esfarelavam com amor na minha boca criança. As segundas, de palma, produziam feridas no meu ego. Naquela fase, ódio, guaraná e bolachas foram se alternando, cada vez mais.
A guaraná eu bebia, mas o ódio — o ódio eu devolvia!
Por isso que aos treze anos tive que matar meu pai.
Vou descrever a cena, falar das pressões, do amor, da família. Como era tudo fruto da minha imaginação, descobri que nunca seria um assassino, porque já era um escritor. Consegui cortar-lhe a cabeça num só golpe de machadinho de açougueiro mas não fui capaz de quebrar as regras da gramática.
(O texto ficou vermelho, cheio de sangue.)
Psicanaliso-me.
Será que não o matamos, nós mesmos, com ódios escondidos, vontades submersas naquela brutal atmosfera de opressão, olhares desafiadores atirados por toda parte? Será que não o matamos com risos crepitantes, fugas cotidianas, alegria inesgotável, e aquele nosso escandaloso amor à liberdade que ele nem supunha ser possível? Será que nós não o matamos — felizmente?
(No atestado de óbito se lê infarto do miocárdio. Mas quem o matou mesmo foi o médico que tinha morte no próprio nome, Samir. Fez diagnóstico por telefone, o irresponsável, e errou longe na terapia que prescreveu. Um charlatão de vilarejo!)
Ou será não morreu de tristeza ao descobrir que agia errado ao nos prender? Terá sido desgosto pela vida? O que sabemos é que acabou mergulhado em álcool, pressa, gorduras e gritos. Continuasse vivo, nosso pai seria para sempre um enigma cruel.
Tinha seu lado bom, é claro.
Certa noite chamaram a polícia, uma denúncia: havia menores numa casa de prostitutas. Ele era o delegado suplente, um cargo que ganhara do governador Ademar de Barros. O soldado Diomedes Cavalcante dirigindo o jipe, lá foram ambos fazer o flagrante, “resgatar a moral da sociedade”. (Diomedes, se não me engano, filho de Tadeu, foi educado pelo centauro Quíron, comandou os etólios no cerco de Tróia. E foi na escola de Quíron, vocês sabem, que Hércules aprendeu Medicina, Música e Justiça — mas essa é outra história grega). Assim que chegaram meu pai gritou:
“Fechem as portas. E que ninguém saia!”
Pessoas corriam, alguns pediam por favor seu Luizito, eram homens de bem, pais de família, senhores respeitáveis... Então, surpreendente, meu delegado preferido grita ainda mais alto:
“Hoje é tudo por minha conta, putada!...”
E bebeu a noite inteira.
Era um Zorba, espontâneo, com uma naturalidade que ficava no limite do vulgar, porque ao coitado lhe faltava cultura. Zorba, sim — mas com onze filhos pequenos e um Olimpo de compromissos, duplicatas a pagar, alicerces meio abertos, paredes quase erguidas. Saldo negativo no banco, e pretensões de cobri-lo. Comia apressado demais e sempre perdia a calma: só podia mesmo morrer de enfarte do miocárdio.
Mas era um grande homem: “fechava” até zona!
Quando chegou em nossa casa na manhã seguinte eu estava escrevendo numa folha de papel de embrulho um poema de amor, mentalmente dedicado a Sonia Maria, e que terminava assim:
“Depois de acender estrelas no teu céu da boca, depois de vascular os teus encantos, depois de ultrapassar os teus limites, acabei concluindo que só a união de duas grandes espontaneidades pode gerar e manter, por algum tempo, um belo caso de amor”.
Ainda meio bêbado, leu duas vezes em voz alta, passou a mão na minha cabeça e, antes de ir para o seu quarto, rosnou um elogio inesperado: “Bonito! Escreva mais, escreva mais...”
Nunca nos disse que gostava de poesia, mas certa vez mandou que plantassem trezentos e sessenta pés de girassol no fundo do quintal. Exagerado! Depois que as plantas cresceram, ele ficava todos os dias lá no fundo, sentado num banquinho de madeira, sorrindo, olhando os girassóis girarem. Ele — no fundo — talvez fosse um poeta, mas nunca nos contou.
Quando morreu, morreram as circunstâncias carcereiras de si mesmas que eu trazia no meu peito. Embora houvesse ainda um monte de coisas não resolvidas, penduradas num passado que teimava em resistir, foi fatal o tipo de adeus que nos ligou aquele dia. Antigas imagens opressoras se apagaram com o tempo, uma a uma. Tudo de mal se havia ido antes dele, ficando livre o terreno para que pudéssemos os filhos talvez amá-lo um pouco. Vivíamos uma suspensão temporária das hostilidades, uma espécie de paz armada, com certas escaramuças de vez em quando na fronteira.
As lembranças mais recentes eram brandas, quase delicadas, com exceção do excesso de álcool e de algumas ilusões.
Claro que foi chocante sua partida, e a forma como se deu.
Assim como a nossa, a vida dele era um jogo — e o perdeu.
(Quando descasco a cebola da existência meus olhos ardem.)
Mesmo as oito horas que se passaram entre a ciência da sua morte e a visão do cadáver por sobre a mesa não foram suficientes para acalmar meu coração alvoroçado. Embora vencedores, os filhos trazíamos na boca um amargo sabor de derrota: talvez um maior inimigo já estivesse à espreita das crianças que éramos então.
Imprescindível seria o retorno da mãe que pensava em morrer para salvar-se da vida.
Minha mãe arrumou-me a cama em que ele dormia, no quarto que fora meu quando morava lá. Cumprindo ordens de um deus que só ela ouvia, puxou-me pelas mãos quase chorando naquela noite e me disse, séria — não como mandasse, nem como pedisse:
— Você dorme aqui.
Olhei para o duplo símbolo de morte, vazio que esteve antes de mim, agora bem arrumado — e com amor, pela mulher que passou a ser viúva de si antes mesmo de morrer o marido.
Era como se passasse creme nos meus pés rachados...
De novo olhei firme para a cama e o lençol de metáforas que a cobria, e aceitei jogar ali por um dia o meu corpo.
Mas disse à minha alma assustada:
— Vai-te agora para bem longe daqui!
Voa, alma, voa rápido — mas volta, por favor, volta buscar-me amanhã de manhã!
(Ela voltou.)
Beijos no céu da boca.
Como nos ensinava nossa primeira professora, toda história tem começo, meio e fim.
Então, por que todo esse espanto ao perceber que a nossa história — nossa história de amor — também vai ter começo, meio
e fim?
Era outubro, chovia.
Fabiane, a musa que dançava sobre patins no asfalto da nossa rua, deliciosa, me traz um papel:
— Que coisa linda você escreveu pra Suzana!
— Escrevi tanta poesia pra ela... Qual é essa?
— Sobre a primeira vez que você a tocou sensualmente. Vou ler só o finalzinho, veja: “Se os deuses quiserem me fazer um grande favor, um favor especial; se quiserem me cobrir de glória outra vez, que me dêem de novo, antes que eu morra, mais dois ou três segundos iguais àqueles”.
— Realmente — concordo.
— Mantém essas coisas que você disse, ainda hoje?
— Tudo o que escrevi e tudo o que pensei a respeito dela; tudo o que falei para Suzana será mantido até o fim dos meus dias.
— Ela foi a única paixão da tua vida?
— No sentido que você provavelmente pensa, não, pois te considero também uma paixão. Grande e também única.
— Como assim?
— Toda paixão é única. Só que Suzana é incomparavelmente única. E quando falo dela é como se falasse de alguém que está perto de mim, dentro de mim, sobre, embaixo, em volta de mim. Alrededor. E longe ao mesmo tempo. Suzana é um caso à parte...
(Lembro aquela noite em Juqueí, no hotel, nós dois, foragidos, deitados num quarto com vista para o mar, as janelas abertas. E eu, quase sem voz, dizendo-lhe em pensamento: Agora, Suzana, agora que sinto teus mamilos espetando com açúcar minha língua trêmula, a pontinha dos seios tocando-me os lábios vermelhos; agora, que minha mão esquerda remexe teus cabelos negros, e acaricia tua orelha; quando ouço teus suspiros delicados nascendo do espírito e vivendo por tesão; agora que minha mão direita alcança de leve teu clitóris e vasculha teus pêlos e arrepios; quando sinto tuas unhas me riscando as costas de amor; agora, que estou envolvido por duas atmosferas de escândalo sobre nós; agora — justamente agora, Suzana — como eu poderia me esquecer de Deus? Como?)
Fabiane me puxa para fora de mim:
— E esses dois ou três segundos a que você se refere: gostaria de tê-los com ela outra vez?
— Impossível: dois segundos nunca se repetem — ao menos não com a mesma pessoa, o mesmo amor, o mesmo ardor, a mesma emoção. Dois segundos serão sempre outros.
— Então pode ser outra mulher?
— Deve ser outra — respondo convicto.
(E fico dois segundos pensando em Jenny Lou.)
Meu verbo vive em permanente estado de ereção, e não teria razões para colocar camisinhas nas palavras que profiro: Proteger-me do quê? Impedir metáforas de engravidar teus sonhos?
Jamais.
Porque sou um poeta — não animal invasor!
Não penetro minhas amadas, quase nunca. Primeiro, eu entro nelas com poesia. Depois, às vezes, com dedos delicados, mãos de seda, língua fantástica, ombro bronzeado, cotovelo dobrado, orelhas atiçadas, cérebro em ponto de bala. E um coração entusiasmado.
Já interiorizei meu sexo e só falo com o próprio corpo.
Um cetro sangüíneo é a última coisa que penso em colocar nas mãos de uma rainha.
A tesão da minha poesia é inesgotável.
Portanto, divinos os orgasmos que ela dá.
(Meu verbo vive em ereção.)
Hoje já é sete de março do ano que vem.
Ontem passaram por aqui Crazy e Dominique — as primeiras. Fizemos amor da forma mais escandalosa e impressionante que os nossos loucos corações conseguiram. Oito horas ouvindo a faixa sete, Destination Anywhere, tomando vinhos — brancos e vermelhos — comendo azeitonas gregas, conversando sobre a vida, tocando nossos corpos, uns nos outros — nus.
— Etc.
Nunca havia sido tão bom.
Caímos de cabeça na Ilha de Lesbos!
Tentei encontrar Danielle, mas não foi possível. (Sei que ela iria gostar também: formaríamos um quarteto de cordas). Meia noite depois, Diana trouxe uma prima, loirinha, parecendo um anjo de onze anos. Uma coisa "indescritível", por enquanto.
Ainda não voava mas já tinha asas...
Paritosh ficou tão impressionado que tive de contê-lo:
— Swami, ich möchte Käse! — grito com ele em alemão. "Nur eine kleine Portion". Ele sorri da minha pronúncia como dissesse: "Desse jeito, Edson, você nunca vai conseguir ler Johann Wolfgang von Goethe no original". Resignado, larga suavemente as mãos da princesinha, e vai buscar a pequena porção de queijo que lhe pedi.
Traz uma grande.
Fico pensando.
(A faixa sete é "It's Just Me" — Amo essa música!.)
No dia em que comprei "Os Sofrimentos do Jovem Werther" e estava lendo a primeira página, Paritosh me olhou, sarcástico:
— Edson, comece pelo "Fausto", em português. Você ainda olha mais para o dicionário do que para o Goethe...
(Acabei seguindo seu conselho.)
O sátiro corta um pedacinho de queijo, pede que Diana feche os olhos e abra a boca — mas ele, antes de mais nada, faz teatro, acaricia os ombros dela.
— Lua, qual é mesmo o nome da tua priminha?
— Jenny Lou.
— Ah... Jenny Lou...
Com o pedacinho ainda suspenso de queijo, Diana esperando, os lábios descolados, ele me olha meneando a cabeça, sorriso de Mefistófeles, e repete:
— Jenny Lou, Mahatma — Jenny Lou...
(Diana, essa, é quem me deu o disco do Jon Bon Jovi. Há também a outra Diana, aquela... — para mim, inconfundíveis.)
ImageNation is my country dot com.
Pouco depois chega R, a virgem dos mamilos enormes. Mais tarde, vestida de preto, loiríssima, Alexandra, aquela que um dia me disse: "Quando te conheci, Edson, e fizemos amor logo no primeira meia hora, pensei que você fosse um grande filho-da-puta — e te odiei. Depois, ao ver que era só um pequeno filho-da-puta, comecei a te amar, apesar de tudo. Mas quando fiquei apaixonada realmente, e vi aquele monte de mulheres ao teu lado, cheguei à conclusão de que você é, realmente, um enorme filho-da-puta."
("Gigantesco".)
E eu aqui, agora, meio bêbado, no meio dessas mulheres todas. No meio, em cima, por baixo, por dentro, por fora, por frente — e às vezes por trás de algumas delas.
Meio bêbado, mas excitado inteiro.
Aquela tarde, plena quarta-feira, com Crazy L. e Dominique, a coisa foi realmente fantástica!!!!!!!!!
(Toda vez que passo por aqui me lembro do amor que fizemos, e acrescento mais uma exclamação. Logo serão mil.)
Mas tem coisas que jamais poderei contar.
Por exemplo, a conversa em alemão que tive com a Marlene. Você sabe que as lagartixas usam força atômica para andar pelo teto e em superfícies lisas? Elas se utilizam da chamada “força de Van der Waals”, que age em distâncias curtas entre átomos não ligados entre si. Os filamentos microscópicos, pelinhos cuja espessura não passa de um décimo de um fio de cabelo de Daniele, são conhecidos como setas. Um pé de lagartixa tem cerca de meio milhão dessas setinhas, e cada uma é subdividida em centenas de estruturas menores. Fiquei massageando os pézinhos de Marlene enquanto líamos a Nature na internet. Aproveitei para registrar newwwork ponto com.
(Uma confissão: a princesinha que encantou Paritosh com sua nudez de Botticelli aparentava onze, mas tinha doze — e seus pelinhos despontavam ansiosos por nossas carícias inocentes, como se já tivessem treze).
Se, após minha morte — ou ida para a Grécia —, alguém abrir esses arquivos e ler o que digo que fizemos, vai achar que delirei, ou que usava drogas. Nem uma coisa nem outra. Delírio — só de prazer. E drogas — nem maconha. Antigamente, não fumava maconha por razões ideológicas: um marxista tinha que estar consciente. Agora — por não sei quê. Mas, só por curiosidade, saiba você que certas drogas agem no sistema nervoso central e aumentam a atividade cerebral. Algumas são de síntese, tais como ecstasy, nexus-erox, flatlyner, etc. Até mesmo o tetrahidrocanabinol já foi sintetizado e parece que se chama nabilone, o princípio ativo do colírio de marijuana.
(Fico pensando, cá com os meus clitóris e botões. 13 anos: e minha pupila vê mais longe que meu mestre. Por isso vamos dizer que a princesinha tem quatorze — ou quinze. Acho melhor livrá-lo de um processo por sedução, aumentando ainda mais a idade da nova musa. Então ela passa a ter 16. Para os estranhos, 17.)
Como disse minha vó Vitalina quando colhíamos café maduro no quintal da casa dela certo dia:
“Se a tentação passar por você, meu filho (ela me chamava de filho), e for uma tentação muito forte e muito gostosa, você tem um único caminho a tomar: Pense em Deus...”
— E peque!
Minha vó fumava, e guardava o fumo picado numa latinha meio enferrujada de manteiga Aviação. Delicadas palhas de milho, dobradas, cortadinhas, amarradas num laço de barbante antigo, esgarçado. Vitalina: eu não me lembro dela morta. Vejo-a de porta aberta, na privada do quintal, limpando-se por frente com um pedaço de papel de pão. Talvez por isso é que hoje detesto ver mulher fazer xixi: nenhuma imagem pode se sobrepor a essa que tenho viva de minha vó. Nenhuma.
Toda tarde, na janela do quarto, me aguardava passar voltando da escola. Todo dia me olhava lá de cima, sorrindo, eu lhe pedia “bença, vó!”, ela respondia “Deus te abençõe...”, — e então fechava a veneziana e se recolhia para rezar suas rezas de amor.
— Minha vó!
(De mais ninguém.)
Um dia ela me deu o melhor conselho da minha vida:
“Estude muito, não se case nunca e jamais tenha filhos!”
Esta é a receita básica do sucesso.
Fora disso não há salvação.
(Se você quiser saber como era a velhinha encantadora, assista ao filme tcheco "A Pequena Loja da Rua Principal". E procure saber o significado de aférese.)
“Lave as mãos antes de comer qualquer coisa” — me dizia.
Ela me ensinou o nome completo da Princesa Isabel. Nunca esqueci: Maria Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga — e d'Orleans, quando se casou com o Conde d'Eu. Certo dia me deu um pedacinho de papel meio amassado, que arrancou de um calendário que havia na parede da cozinha.
"Gravura de um pintor italiano."
— Sandro Botticelli.
Acabo de chorar por uns dez minutos sobre a "Virgem da Romã" que ele pintou. Anjos de asas douradas e rosas vermelhas na cintura, rodeando feito loucos um menino Jesus que acabou de mamar. E vejo ainda “O nascimento de Vênus”, a inesquecível “Alegoria da Primavera”, “Natividade”, a vibrante “Alegoria da Calúnia” — tudo nele é magnífico.
(Se você somar os minutos que já ficou olhando um quadro de Botticelli, e o total não der no mínimo sessenta, é sinal de que você não sabe porra nenhuma da vida.)
Fico pensando.
Mesmo os encontros que tenho com o Destino são marcados por mim — nunca por ele. Raramente erro mas quando erro procuro errar de modo perfeito, — errar profundamente.
Se for preciso que erre, quero sempre errar com doçura, com suavidade, consciência, critério, precisão.
Acostumei-me a ser o primeiro, em todos os sentidos.
E seria o primogênito, mesmo que viesse depois.
Único — mesmo se fosse muitos.
Também tenho dois Egos: um é esse aqui, público, que mostro aos meus amigos e aos meus amores; e o outro, lógico — é só pra mim. Ambos magníficos. Eu não seria capaz de tê-los se não os tivesse grandes, enormes.
Um verdadeiro Ego não merece ser pequeno.
Por favor, não confunda mediocridade com comedimento.
Porcos chafurdando num chiqueiro também podem sorrir, mas será que podemos considerá-los felizes?
Zaratustra dizia que é melhor ser um gladiador ensangüentado, do que um porco contente...
(Uma mão na consciência, outra na faca!)
Toda obra prima causa espanto ao ser publicada. Você sabe quantas pessoas compraram o Ulisses de James Joyce nos primeiros dois anos após ter sido editado pela primeira vez? Quantos quadros vendeu Van Gogh?
É o preço que pagamos por antecipar o futuro.
Nesta manhãzinha, quando a luz se fere de noite ainda e me descobre, sento-me aqui fora, começo a escrever. Meu coração é um viveiro e meus amores, pássaros. Dois ou três pipilam no jardim. Há na grama letras e estrelas. As primeiras me esclarecem, as outras me iluminam. Como Edson, Marx diz: “por mais escura que seja a madrugada, a menor gota de orvalho já contém todas as cores do universo. Mas a tradição, num absurdo gesto de violência, força nossa alma, em toda nossa grandiosidade, a refletir apenas uma cor: a cor cinzenta daquilo que se apaga.”
Estou morando numa casa que tem tramela, uma corruíra canta ali na laranjeira e a tampa da chaleira de alumínio começa a tremer lá dentro, no fogão de lenha. Nenhum barulho que não seja agradável. Um tiziu aveludado toma a decisão de me encantar, saltando vertical no palanque do portão. Se a gente não nasceu num lugar assim como esse pode ainda ter a sorte de renascer num parecido.
Sinto-me Herman Hesse cultivando rosas e alfaces, tocando clavicímbalos e coçando o saco.
(Na verdade, fico pensando, a casa não tem tramela)
Fabiane me puxa de novo para o agora:
— Posso ser eu, talvez?
(Falávamos da possibilidade de me apaixonar de novo, por outra mulher que não Suzana.)
— Poeticamente sim, mas efetivamente — não.
— Por quê?
— Você não tem mais a inocência que Suzana tinha.
Ela abre os braços, simulando perplexidade:
— Então você só ama as inocentes? E as pecadoras, Edson, como ficam?
— Pecadoras não existem, você sabe. Tua inocência é menos angelical que a de Suzana: — este é o ponto principal.
(Às vezes uso pronomes da segunda pessoa para aproximar-me da terceira. E se uma regra da gramática enjaula a Estética, temos de quebrá-la por amor. Tenho licença poética para ser livre.)
— Além de inocência, o que precisa ter a mulher para que você se apaixone por ela?
— Não sou em quem decide — respondo. — É meu coração.
Ela me olha candidamente, e pergunta:
— Onde está aquele teu poema das mulheres?
Levanto e vou procurar no armário do fundo.
“Sou um emprestador de verdades. Você pode usar as minhas quando quiser. Só que tem um problema: todas vão carregadas de dúvidas. E as dúvidas vão minar essa estrutura de ilusão que você adora tanto...” — fico pensando enquanto procuro.
Nossa! Há quanto tempo não lia os Provérbios do Inferno, de William Blake. Vejam este, que lindo:
“O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.”
Volto com meu livro (aquele tempo ainda inédito) “Beijos no céu da boca”, e abro na página 140. É um belo poema, escrito quando estávamos ao lado de uma cachoeira, e Suzana foi o modelo que se despiu dos preconceitos para que eu a esculpisse de amor entre os seus versos e folhagens.
Mulheres!
(Começo a ler.)
Mulheres
Não me bastam os cinco sentidos para perceber-lhes toda a beleza. Para viver o mistério profundo que trazem consigo eu preciso de mais. Eu tenho que tocá-las, cheirá-las, acariciá-las, penetrar-lhes o sorriso, sentir o seu perfume, beijar-lhes o céu da boca, ouvir suas histórias, transformá-las em deusas.
Tenho que dar-lhes o amor que ao meu corpo as conduz, e na volta sustenta-me a alma.
O amor natural de todos os corpos humanos do mundo.
Tenho que dar-lhes a posse imprecisa de mim.
Como num espelho de paixões em labareda, quero sentir nos seus olhos o mais raro brilho diamante.
Eu as amo como se lhes devesse a Vida. E as venero com a graça de um cisne nadando num lago tranqüilo e a ousadia de um touro selvagem recém-despertado.
Não lhes faço perguntas, não as pressiono por nada, nem quero mudá-las jamais. Imagino o que sonham e entro no sonho delas.
Cavalgo em pêlo um cavalo branco para visitar-lhes as razões e as emoções, a loucura e a libido.
Como um Deus que se liberta da sua própria mitologia, eu me surpreendo em nome da Criatura,
Entro no coração de cada uma como se entrasse no meu.
Mergulho nos seus desejos e me espanto com tanta fantasia, com tamanha formosura. Os sentidos, por não serem precisos, não bastam, e eu preciso mais do que cinco para compreendê-las.
Porque toda mulher é silenciosa por dentro. Sua existência se manifesta em cada detalhe. Assim na terra como no céu, o amor tem que ser livre. Bendito sou entre as mulheres.
Fazer amor tem que ser uma experiência religiosa.
Por isso eu as amo como fina substância, como deve amar quem ama de verdade: incondicionalmente.
— Sem ciúmes.
Amo as morenas e as loiras, as baixinhas e as altas, as lindas, as quase feias. As virtuosas, as magras e as gordinhas. Diabólicas, tímidas, mentirosas, iluminadas, pecadoras ou santíssimas, virgens, pobres, ricas, loucas, inocentes ou safadinhas — não importa, eu amos todas. As bronzeadas e as branquinhas. As inteligentes e as nem tanto. Desde que sensíveis, eu amo as jovens, as velhas, as solteiras, as casadas, as noivas, as separadas. As amadas e as abandonadas. As livres, as que lutam por liberdade — e também as indecisas.
E se me dessem o poder, o tempo e a chance, eu a elas daria um orgasmo sublime — todos os dias.
Poeticamente.
Apanharia flores silvestres, tomaria sol com todas elas.
Andaríamos descalços na areia, contemplaríamos crepúsculos cor de abóbora, jantaríamos à luz de velas, dançaríamos.
Tomaríamos vinho branco, comeríamos morangos.
E eu lhes faria poemas de amor olhando estrelas.
Puro como um anjo, amaria todas eternamente — uma por vez. Com delicadeza, com doçura, com inocência. Entusiasmado, como se cada fosse única... Como se no mundo não houvesse mais nada.
Todas as noites, sem pressa, passaria cremes e encantos no seu corpo, falaria sobre fábulas, contaria histórias românticas, as veria dormir. Ao som de Vangelis, velaria por um tempo o sono delas, e de madrugada, antes do sol raiar, antes do primeiro pássaro cantar, cobriria seu corpo com o resto de luar que ainda houvesse.
— E sairia em silêncio.
Felino, deslizaria pelo cetim azul-celeste dos lençóis, saltaria por sobre todas as metáforas, e sorrindo iria embora.
Enfim, se eu fosse Deus, não mais cuidaria do universo, nem dessas coisinhas banais.
Não ficaria controlando o destino das pessoas, o tempo, a pressa, a hora de chegar, o átomo, as ondas do mar, o caminho dos planetas, os genes, o cotidiano, a Internet, o infinito, a geografia.
Não!
Eu somente iria amar as mulheres.
Como elas merecem — e como nunca foram amadas.
Só isso — definitivamente.
Nada mais, nada mais.”
Eu somente iria amar as mulheres.
Foi o que eu disse.
Fabiane recosta a cabeça no meu ombro, segura forte minhas mãos, sorri e me sugere:
— Não precisa dizer mais nada.
(Não digo?!)
Mas o tempo passa, voando, e hoje estou aqui.
Escrevendo coisas que nem sei se alguém vai ler.
“Ceux Qui parlent d’Amour sans le réfèrer a la vie quotidienne ont un cadavre dans la bouche” — se meu francês estiver bom, é assim que se reescreve algo que li na memória.
(Penso no meu poema Mude e quero mudar de vida.)
Mas agora não.
Vibro quando minha sensibilidade vai mais fundo que meus olhos no objeto que eles tocam. Sinto que uma coisa redonda desliza entre nós nesta tarde azul do Guarujá. O Atlântico manda um vento oceânico e sinuoso sobre as coisas que vivemos nós três nesta hora feita de açúcar e escândalo. As cortinas voam.
Cris me conta seus sonhos e diz que o maior deles está muito longe dela. Digo-lhe que isso é bom e mau ao mesmo tempo. Mau, porque há distância entre a coisa e seu desejo. E bom porque já tem consciência do caminho a percorrer.
(Sentir-se preso é o primeiro passo para se ver livre.)
Peço-lhe que me conte um sonho erótico. Vai falando. Sonhou com uma casa enorme, muros altos. Cris tem lábios indecisos, não sabem se riem ou se beijam. Fala como se nada tivesse a dizer, numa espécie contida do que não se deve esconder. Seus mamilos crescem quando suspira, despontam como dois sóis, os de Danielle respondem de forma igual. E algo até mais profundo que sensibilidade começa a sobrevoar nossas cabeças escandalosas.
Cadeiras são arrastadas, copos se desesperam, as águas ficam revoltas, meu vinho vai transbordar.
Como um Zaratustra adolescente eu lhe pergunto:
— Me diga, Cris, qual a coisa mais importante da vida?
(Ela responde com palavras que fascinam.)
— Volte ao sonho — então lhe peço.
"Há uma casa onde mora minha mãe, e no fundo outra, mais escura. Vejo homens nus dormindo aos montes. Dezenas de corpos vivos, belos, entregues a uma escolha que posso fazer. Ando um pouco mais, eis que um deles surge de repente e me cobre com seu gozo surpreso. Esfrego cremes de vida no peito branco, me lambuzo como nunca e volto correndo ao pesadelo que existe no outro lado do sonho. Há um guarda me esperando no portão da nossa casa, em pé, me olhando mudo, gigante de braços cruzados, como já soubesse o que senti. Então, armada de medo, acordei do pesadelo que havia no meu sonho e fiquei sonhando só. Em seguida, pouco a pouco, como fugisse de mim, fui me acordando do sonho também. E quando acordo totalmente, horrorizada, sinto que em verdade voltei para dentro dos dois outra vez..."
O sonho de Cris me joga direto no peito aberto de Freud.
Danielle lembra que sonho "é a realização disfarçada de um desejo inconsciente". Para Freud, o inconsciente é uma espécie de saco de lixo, onde nossas experiências reprimidas se acumulam — ou seja, a parte não escrita da nossa biografia. Não sabemos o que fazer com tais coisas, mas também não as jogamos fora.
Para Jung, o inconsciente repousa na biologia, e as energias do corpo são as mesmas que nos fazem sonhar. Chamo Carl Gustav para que me ajude na análise, mas o sonho agora de Cris é a prometida massagem nos pés. Arrumo um colchão na sala, cubro-o de amor e cor de rosa, e peço a ela que fique da forma que quiser.
Deita-se de costas e se entrega ternamente à minha espantosa naturalidade. Vejo uma alma que suspira desenhada no lençol, e me transformo no Picasso da primeira fase preparando uma gravura.
Suas pernas são perfeitas, seu corpo é feito à mão.
Beijo-lhe a testa, peço que relaxe, tento soltá-la de si, toco em seus lábios. Ponho Enya trazendo celtas, recomendo:
— Feche os olhos, e só os abra se Danielle te pedir.
Então fez-se o silêncio mais completo e mais gostoso que é possível de ser feito, nessas horas encantadas em que as humanas emoções se mostram todas à flor da nossa pele. Danielle deita-se ao seu lado, e sussurra docemente:
"Pense numa flor, Cris, e respire como se amasse."
(O que veio depois não é preciso que eu conte — sou discreto. Só digo que tudo teve a ver com amor.)
Agora que elas se foram, Ticiano se abre para mim, na página certa. Bebo o restinho de licor que ficou no copo, chupo a fatia de laranja baiana dentro dele, e beijo o olhar que Danielle deixou no espelho da sala, pregado como se fosse um bilhete.
Só me resta chamar Baco:
— Traga-me, Deus, mais um copo de vinho!
Já estamos em abril, e este ano ainda não abri nenhuma garrafa de vinho. Todas foram abertas por Baco — em pessoa. (Sei lá por quê, lembro agora que Dionísio conquistou a Índia viajando numa carrocinha puxada por dois tigres de Bengala). Assim como orgasmo, tem vinho lógico e vinho não. Alguns são silogismos, outros nos enganam — falsos raciocínios. Aqueles que têm premissa maior, premissa menor, e conclusão — todas verdadeiras — são dos bons: descem redondos, aromas complexos de frutas vermelhas, cedro, chocolate, e falam à baunilha atijolada. Mas, os outros, os outros não dizem quase nada.
Uma espécie de orgasmo chocho.
Puro vinagre!
Preciso às vezes pisar nos lagares em que me leva Baco.
Piso, e piso dançando, não como se fizesse vinho, mas como fizesse amor. Vinho e amor: essas coisas quase sempre se misturam, aos meus pés.
Paritosh me garante que a louca arquitetura dos meus amores e a composição dos vinhos que Baco me traz — são coisas que sempre o confundem.
(Pode ser.)
Certa época ele desapareceu por mais de quinze dias, o safado.
Quando voltou, sorrindo, como se nada tivesse acontecido, dei-lhe um forte abraço e perguntei:
— Por que sumiste tanto tempo, Paritosh?
— Pra te conceder o direito de me sentir saudades!
Senti.
E tem gente que é capaz de morrer tentando ser feliz.
Mas do lado errado.
Os idiotas quase se matam na luta por aquilo que chamam de vida. Usam dois relógios de pulso, pager, telefone, celular. Amam o despertador como se amassem um deus, tomam taxi, ônibus, avião, metrô, lotação, elevador. E ainda sobem escadas, inclusive rolantes. Às vezes brincam, namoram, brigam, casam, ficam, descasam, se esgotam, casam de novo, trabalham, separam, quase piram. Se perdem, gritam, correm, caem, sacodem, suspiram, levantam, quase nem respiram. Trabalham, se ferram, atendem, digitam, suportam, bajulam. Engolem, rastejam, trabalham mais ainda, se juntam de novo, empacotam, remendam, amarram, vomitam.
— E ainda sorriem...
Mas o pior é que fazem tudo isso e continuam infelizes.
Esses medíocres não pensam na possibilidade de mudar de vida. Ridículos, acham que seu estilo de viver é o máximo.
— Que horror!
Parece que misturam em si mesmos doença e crueldade.
Sócrates dizia que os maus acabam fazendo mal a seus próximos, e os bons, algum bem. Concordo — porque os maus não podem ser bons a ninguém, pois isso seria contraditório. Os maus não conseguem amar, nem podem ser amigos. Por mais que pretendam fazer algum bem a quem pensam querer bem, será um bem sem virtude, feito por escusos interesses, com segundas e horrorosas intenções.
Nunca será um bem natural, espontâneo, puro, porque isso iria contra a própria natureza dos maus.
Fuja dos maus, portanto — enquanto é tempo.
Procure os bons.
E Paritosh me ajuda no raciocínio:
— Os maus acabam sendo cruéis também para si, mais cedo ou mais tarde, pois, ao conviverem consigo mesmos por muito tempo, e fazendo o mal que sempre fazem, deturpam o restinho de alma que ainda possam ter. A menos que entrem num contraditório processo de alienação, tornam-se insuportáveis para si mesmos. Além do mais, os maus acabam ficando péssimos.
— Só é cruel quem é fraco — eu digo.
— Claro: quem é forte não precisa ser cruel — ele finaliza.
Tento mudar de assunto:
— Conte-nos alguma coisa do Kama Sutra, Paritosh.
— Depois. Agora quero fazer umas rabanadas.
“O inteligente nunca será cruel.”
Peço que coloque La Traviatta. Saudades do Verdi.
Ele sorri, levanta-se em silêncio e põe La Cumparsita! Abre os braços e sai voando em direção à cozinha, dançando alto, irônico:
“Si supieras, que aún dentro de mi alma conservo aquel cariño que tuve para ti...”
Joyce Ann me abraça e diz:
— Esse cara parece louco...
— É o jeito dele, logo você se acostuma — justifico. E mais tarde vi que também dancei: “Los amigos ya no vienen ni siquiera a visitarme, nadie quiere consolarme en mi aflicción...”
— O que significa o nome Paritosh? — ela pergunta.
— Paritosh Keval: Contentment, Aloneness.
— Não entendi...
— Contentamento em solitude, alegria de estar só.
Cerca de uma hora depois ele volta com as rabanadas, deliciosíssimas, e três meias taças de leite gelado.
— Mestre, como se faz rabanada? — pergunto.
Faz de conta que não ouve, e me entrega dois cartuchos de vídeo embrulhados num saquinho do Pão de Açúcar.
— Edson, essa menina disse ontem que não sabe quem foi Shakespeare. “To be or not to be” está em Hamlet, não se esqueçam. Trouxe o “Macbeth”, do Polanski, mas tem muito sangue, melhor que ela comece com “Othello”, dirigido pelo Oliver Parker. É recente, leve, bom para um primeiro contato. Se puderem, vejam mais tarde ainda hoje, com bastante atenção nos diálogos.
Coloca a 40 “do Amadeus”, primeiro movimento, ouve só um pouquinho como se lembrando de alguém, e troca o CD. Vejo que se esqueceu da Traviatta. Andrea Bocelli passa então a nos encantar, e vai dizendo “Ammore mio, stamme vicino a Dio”.
Paritosh, compreensivo, retorna ao mundo e à receita:
“Como será o sonho de um cego?” — penso.
— Muito fácil: Bater três ovos de galinha, tomando-se antes o cuidado de retirar a membrana que recobre a gema. Adicionar duas colheres de açúcar, de preferência cristal. Como é para nós três, pegar seis fatias de pão de fôrma...
Eis que é interrompido pela vibração do celular. Atende sorrindo, conversa uns dois minutos com alguém que não sabemos que é e encerra o diálogo quase gritando, alegre, entusiasmadíssimo:
“Estarei aí em dez minutos, menina! Te amo também!”
Dá-nos um beijo no rosto e sai — voando.
“É a membrana da gema que tem cheiro de ovo...”
Ficamos comendo as “misteriosas” rabanadas, recobertas de canela da Índia, Joyce com a cabeça no meu colo. Falo da papoula azul do Butão, e ela quer saber mais sobre Paritosh.
Eu me interesso, vocês sabem, por tudo que leva ao êxtase, mas mesmo quando vejo um belo corpo de mulher ao meu lado não me espanto, não tenho desejos velozes, não me surpreendo, não sinto medo, nem tenho pressa.
A forma revelada de uma musa tem que ser contemplada sem o apoio dos sentimentos meramente humanos.
Meus olhos são de criança, claro, mas não infantis.
Por isso, vejamos Othello, simplesmente.
Joyce Ann chorou nos meus ombros, chorou pela sorte de Desdêmona. “Eu não queria que ela morresse...”. Gostou tanto do filme, que vai “amar tudo de Shakespeare”. Veremos.
Lembro-me agora da música que minha mãe cantava:
“Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora...”
Foi nessa mesma noite, em algum lugar do passado, que lhe fiz a grande declaração do amor possível:
“Quero de ti fazer uma estrela — não uma esposa!”
(Mas Joyce Ann não me entendeu.)
Compreendo.
Também sou humano.
Por isso, mais tarde, na mesma noite, coloco para rodar no ato a Rhapsody On A Theme of Paganini, de Rachmaninov. E me lembro dela, você sabe quem. Quando falo dos meus amores, este livro vai ficando de trás pra frente. As musas mais recentes ficam nas primeiras páginas. E agora, folheando-o, vejo que uma delas está lá na 180, não porque tenha caído; eu é que aumentei a velocidade, a freqüência e a quantidade das minhas paixões.
Júpiter costuma mandar-me deusas em baciadas.
Musas — uma por dia.
Vejo duas havaianas branquinhas que ela deixou no corredor. Jenny Lou acabou de chegar pela segunda ou terceira vez, e o fato de entrar descalça me diz alguma coisa. Quero partilhar minha sensibilidade com você. Tem horas que eu sinto tanto, tanto, que nem consigo sentir tudo sozinho, e preciso repartir as emoções em toneladas. A nave pulsante do meu vôo intelectual é movida com a energia mais potente que existe no universo — orgasmo! Meu coração — motor à explosão. E o combustível é tesão nuclear a quente.
Jenny Lou fica dançando um tempo pela casa.
"Santa madre de diós!" — a princesinha está com um biquini de crochê, quase cor da pele. Santa madrecita de diós. São 12h37 deste dia que é eterno. Uma princesa esculpida por Michelangelo no momento mais inspirado de sua vida. Hoje ela dormiu em minha casa e acordei pensando nela. Nada mais havia no meu cérebro, além da sua imagem. Meu hipotálamo, cerebelo, córtex — tudo refletia o que vi ontem à noite na horizontal mais diabólica que um deus se permite. Momento inspirado da vida de Michelangelo e da minha, a princesa descalça me encanta. Seus olhos verdes, seus cabelos de trigo, seus peitinhos começando a despontar, a futura mulher já me abraça forte — e sinto seu corpo colado ao meu.
Até as músicas já ouvidas me parecem novas, hoje.
Cortei laranjas em pedacinhos para colocar em sua boca, senti nos meus dedos sua respiração de cerejas, e seu umbiguinho — ah! — como meu indicador vibrou tanto quando penetrou nele, como se fosse fundo. Ela tem um corpo que parece alma. Bela e frágil como orquídea de estufa. Deve ter quarenta mil, oitocentos e noventa e sete gramas de gostosura, distribuídos por mil e seiscentos milímetros de altura. Meus lençóis agora brigam no armário para ver qual deles será o escolhido para recebê-la sobre si esta noite.
Jenny Lou — este nome é um poema, ele só.
Quando eu o pronuncio, minha língua dança no céu do céu da boca da boca. Jenny Lou — história de amor histórico. Sua presença faz com que eu saia do meu corpo e entre nela. Jenny Lou, nunca pensei que um dia fosse tanto. Nunca pensei que houvesse tanto amor em mim para ser dado, recebido, sentido, distribuído, tanto...
Meu deus!
— Jenny Lou.
Eu pensava que já sabia tudo nesse área. Engano astronômico, só menor que o amor que hoje sinto. Meu reino não precisa de rainha mais: a princesinha será tudo.
— Lolita!
Amanhã já poderei até morrer. Dois ou três dias dessa forma valem por duas ou três eternidades.
(Ela saiu, e eu espero: diz que vai voltar.)
Como olharei para outra mulher depois de agora?
— Jenny Lou...
Sempre pede que lhe passe cremes e óleo de amêndoas. Tirei seus cinco anéis com minha boca hoje à tarde, enquanto flutuava na rede amarela (se eu tirasse da cor a primeira metade da rede, só iria amá-la.). Passei creminhos no seu corpo todo e me espantei com sua belíssima clavícula. Princesa dos cabelos de trigo, modelo preferida de Van Gogh quando pinta seus trigais. Algo de muito profundo no ar ao meu redor. Seus peitinhos parecem menores que os mamilos...
Tenho de inverter o que penso sobre ela, mas sobre ela já não penso mais: amo, só.
— Jenny Lou.
(Nosso pássaro dia voa!)
Acabo de vê-la dormindo no quarto, pequeno vulto desenhado no lençol. Vulto que respira arte, desenho no lençol como se fosse um quadro. O lençol se torna tela. Sinto-me pintor naquela cena, seus cabelos, soltos, amarelos — o verão acaba de fazê-la descoberta, a melhor descoberta desse novo mundo.
Eu me desbravo!
É bom lembrar-se de que estou na Espanha...
Dá vontade de ser um decidido, um delicado Cortez, e mandar queimar os barcos para nunca mais sair daqui. Me descubro, também, até das coisas mais profundas que eu nem sabia mais haver em mim. Penetro-me feito Deus que se procura, meus olhos se acostumam, e a penumbra se esclarece pouco a pouco.
Já posso ver-lhe agora suas linhas encantadas, novelo de vertigens em que tento me enrolar. Lábios levemente descolados, a cabeça inclinada — tudo solto nesse corpo que suspira.
Espigas amarelas que balançam se as assopro, os trigais são de Van Gogh, novamente. Um tecido escandaloso cobre-lhe as pernas levemente abertas, dobradas, naquele ponto que é o limite entre a despreocupação e o convite à pura sacanagem. A mão esquerda repousa ao lado da cabeça, a blusinha azul, claro, respirando ao mesmo tempo. Madrugada chega me ajudando a vê-la mais e há mais luz no meu olhar — mas a noite, desgraçada, a quer toda para si.
Para ver melhor a musa, tenho que brigar todos os dias com as trevas deste mundo. De todo os mundos.
Fiat Lux! — tenho vontade de gritar ao lado dela.
Gênesis, 1:1.
Não quero mais nada, só vê-la como um deus que se levanta. Pois vou lá de novo e vejo-a mais um pouco, ela dorme como se nem existíssemos. E se meu amor profano é sagrado, me lembro de Ticiano — sou agora ao mesmo tempo os dois lados do meu quadro: o da esquerda e o da direita, o de dentro e o de fora.
Quando pinto Jenny Lou, me encanto azul.
Até quando, até quando será que me apaixonarei assim?
Parece que amo cada vez mais, e mais musas me escolhem para ser minhas. Acreditem, não sou eu que as escolho — são elas que se escolhem por mim.
Amanhece.
Nesta manhã brilhante tomo banho demorando, como se o próprio chuveiro estivesse no gerúndio — e penso no que vi com esses olhos que hão de um dia comer a Terra.
Paritosh já se foi, não sem antes me dizer:
— Cuide bem da princesinha, Mahatma. Não corra o risco de espantá-la com gestos indelicados, ou coisas que ela não queira. Lembre-se: "nem toda musa pode ser amante".
(Como se precisasse mostrar-me o que já sei...)
No fundo, a virgindade não está no hímen da própria virgem, essa membrana só impede a penetração, nada mais. Mas quem disse que quero penetrá-las? — Eu quero é só ficar tocando com amor a superfície dos seus lábios. O hímen é apenas um símbolo em forma de guarda. Simula proteger do futuro um passado que já não há.
Sempre amo como se ama a primeira pessoa.
Toda virgem tem que se amar como amasse a Primeira Pessoa — tanto de um lado, quanto de outro. Um evidente sinal de que amo: escolhi o shampoo que Jenny Lou prefere e deixei o frasco no banheiro. Agora, todo dia lembro-me dela quando começo a me molhar: tomo banho com as espumas que ela gosta.
Hoje, portanto, sou movido a duas coisas indispensáveis: — memória e escândalo.
Fico pensando.
Há treze anos Jenny Lou nasceu. Mas a musa, só anteontem. Há doze anos, onze meses e quatorze dias, mais precisamente, nasceu essa gloriosa figura. Há quatorze anos, era apenas uma possibilidade entre as duas que talvez houvesse no Divino Saco do Deus que a gerou. Vocês sabem, musas não são geradas por um espermatozóide fecundando óvulo, não — elas são concebidas com a graça orgástica dos espíritos santos.
São poucas, portanto.
Mas, felizmente, todo dia nasce uma nova.
Pelo menos uma — a minha!
(Amanhece outra vez.)
Molhei meu dedo com North Wind, tento acordá-la com perfume, suspirou talvez dentro de um sonho e nem abriu seus olhos verdes. Vou à sala e ponho Enya na vitrola, encantadora. São nove e quinze, mas o tempo é coisa que não há. Ligo o computador, sinto cheiro do café que está passando. O vento refrescante vem do sul, o perfume foi Suzana quem me deu, o disco, Janaína que escolheu e a musa, trazida por Lúcifer e Diana. Eu — nascido de Iracy.
As circunstâncias que me envolvem são todas feitas de amor e açúcar. Há uma conjunção magnífica de fatores contribuindo para que tudo fique perfeito nesta manhã em que o próprio Deus se anuncia, fazendo conspiração com os meus desejos.
Erotizo o ternura que lhe dou agora.
A realidade cai de cabeça naquilo que eu sonho!
Lembro-me de Edma Lux, uma das maiores paixões da minha vida, que escreveu no seu livro filosoficamente feminista “Perguntas que uma Mulher faz quando Sonha”, a sugestão de um:
Infinito jantar
Faça o mínimo, que a Providência se incumbe do resto.
“Saia e respire o ar mais puro que puder. Sinta o perfume da vida. Veja as árvores, o movimento. Observe o céu, penetre no azul. Veja um pássaro em pleno vôo, e voe com ele para onde quer que seja. Olhe nos olhos das pessoas que encontrar — no mesmo sentido. Os homens mais bonitos. As mulheres mais bonitas. As vitrines. Não: não aceite convite para um café. Nem para nada — nada! Nem pense em convidar ninguém. Passe pelas pessoas como abelha passando por margaridas em flor. Ultrapasse-as. Siga em frente. Veja a criança que passou. Troque sorrisos. Ande como estivesse passeando.
Compre então a flor mais bonita, e uma garrafa de vinho do melhor. Volte calmamente para casa e deixe o mundo no portão. Tire a roupa toda e ande nua por uns tempos, como desfilasse no Olimpo. Se o vinho for branco, ou rosé, ponha-o para resfriar um tempo, na temperatura que você prefere.
Deixe uma comidinha preparada, daquela que você mais gosta, simples. Pode ser omelete de rum, com um pouquinho de caviar ao lado, ou peixe de água doce cozido em vinho branco e suco de laranja. Pode ser fatias de presunto com melão, ou arroz soltinho com caldo de feijão; ou salada de tomate com manga e agrião; ou dois ovos fritos na manteiga de cabra e cobertos com folhas de manjericão — qualquer coisa... A comida não importa qual, desde que seja boa e feita de amor. Comida, como sempre, é apenas pretexto.
O importante é você.
Troque os lençóis, coloque aqueles mais bonitos e macios, deixe a cama arrumadinha, esperando. Borrife um pouco de perfume no seu quarto, olhe-se no espelho, de frente, de lado, de costas, de dentro — e respire fundo. Acenda na sala um incenso — com fósforo, porque tem cheiro de pólvora — talvez um Poem, indiano, e espete a varetinha numa laranja madura. Ponha aquela música de que você mais gosta. Uma vela comprida e azul no castiçal de bronze. Desligue o telefone e todas as campainhas que houver no teu mundo.
Livre-se de tudo o que for supérfluo.
Tome então um banho demorado, com teu sabonete preferido. Cante alto no banheiro. Quando terminar, passe as mãos pelo corpo, como fosse para tirar-lhe todas as gotas de água que houver, espécie pura de massagem carinhosa. Enxugue-se com a melhor toalha. Maquiagem leve, baton discreto, o melhor perfume, aquele que lhe traga as mais deliciosas lembranças. A calcinha de algodão. Vista uma roupa linda, fresca, leve, macia. Prepare-se como se fosse a uma festa no teu corpo, uma festa onde a tua alma vai hoje ser rainha.
Descalça, como deusa sorridente ao sair de um labirinto.
Respire mais fundo.
O vinho, que já fora escolhido com amor, deve agora ser aberto com mais amor ainda. Se possível, uma taça de cristal tcheco. Se não tiver, serve uma dessas francesas, grande. Ou um simples copo, transparente, bem lavado. Sirva delicadamente. Sente-se. Levante o copo contra a luz. Sinta a temperatura do vinho, sua cor, o seu cheiro. Esmague o vinho com a língua no céu da tua boca, como se esmagasse um cacho de uvas maduras num vinhedo do sul em dia de sol de primavera. E sinta o sabor.
Nenhuma expectativa. Ninguém vai chegar. Você já cuidou para que ninguém chegue nos próximos dois mil anos.
A festa é para uma só pessoa.
Você tem agora todo o tempo do mundo.
Porque, se você não tiver todo o tempo do mundo, não adianta.
(Se você tiver pressa vá fazer outra coisa!)
Então arrume a mesa como se fosse a própria Babette. Um prato, um talher, um guardanapo de linho. A flor que você trouxe, num vasinho de cristal – ou numa garrafa vazia de qualquer coisa, tanto faz. Mas é indispensável a flor ao lado da vela. Todas as outras luzes apagadas. Acenda outro incenso. Baixe o volume da música.
Nenhuma chance de que possa haver interrupção dessa liturgia de amor.
Nenhuma possibilidade de haver intervenção do horror.
Toda a atmosfera envolve então o teu corpo — e o consagra.
À alma, ao vinho, ao silêncio — à vida!
Você está com a consciência à flor da pele: seria capaz até de ouvir uma mosca tossir. O ar fresco que penetra pela janela e levanta um pouco a cortina. Um cachorro late lá na rua, na esquina. Você se lembra de certas coisas que estão longe, e de outras que estão perto. Pega o talher como pegasse um violino, começa a comer, sem pressa alguma. Sem barulho. Mastiga demoradamente, sente o gostinho real daquilo que logo fará parte do teu corpo, do teu sangue. E bebe o vivo, também sem pressa, como estivesse deitada num altar católico, olhando você mesma no teto da Sistina.
E sorri. Por dentro, um festival de gostosuras.
A vela está balançando as sombras vivas das coisas livres.
Você fica à mesa o tempo que quiser.
Quando se der por satisfeita, leva para o quarto o castiçal, a flor, o silêncio, a vida. E a garrafa com o vinho que sobrar. Deita-se do modo mais confortável. Nenhuma expectativa, só o coração pulsando de alegria. Tira a roupa devagar, passa óleo de amêndoas no teu corpo, respira fundo duas ou três vezes. As mãos, bailarinas que deslizam pelos seios, dançam o que há de melhor. Acariciam. Então você enfia a mão direita por dentro da calcinha, sente o monte de Vênus, a floresta de pêlos macios, desbrava essa incógnita que atende pelo nome de menina. Passa os dedos leves nos seus lábios úmidos de amor, espalha delícias por todos os pontos. (O dedo médio pode ser o máximo!). Olhos fechados, você vai coleando, movendo-se numa coreografia de cobra em êxtase.
Caminha até o topo da pequena montanha.
E vai se tocando como se música.
Devagarzinho...
Você vai se amar como nunca — como sempre.
Tua mão esquerda desliza pelos seios, umbigo, garganta, clavícula, boca. E a música crescendo, de tal forma que se pode ouvir teu sangue correndo por sob a pele. Há um rio dentro agora de você — fluente. E que logo vai transbordar.
De alegria. De prazer. De tesão.
Você viverá o maior orgasmo da tua vida.
Em seguida, você abre os olhos e as outras portas do paraíso também, uma a uma. Depois, com o restinho de luz que a vela estiver dando, pega um livro de poesia para ler. Pode ser Rilke, Paritosh, Adélia, Cecília, Pessoa, Leminski — qualquer.
Talvez Neruda, como este: “Aqui llevo la luz compañera / y la extiendo hacia el mar / y abrirá su cuerpo en la noche / y yo duermo cubierto de estrellas / y canto / y llegará la mañana / con su rosa redonda en la boca / yo canto / yo canto / yo canto / yo canto.”
Com certeza, você viverá hoje o mais belo sonho possível nos braços abertos do Amor, antes de seguir — livremente — em direção ao infinito de todas as coisas.
(Ah. Que saudades que eu tenho de Edma Lux...)
Viva, a Espanha!
Na verdade, é a velha Lei das Possibilidades estraçalhada por um golpe de sorte. Ontem jantamos com Janaína. Pizza, tomates secos, muzzarella, rúcula, quatro queijos, meio a meio. Tomamos um Santa Helena, que não conseguiu nos fazer a cabeça. Então convido-as para um Mateus branco em minha casa. Duas horas de conversas, entusiasmo, chocolates, poesia, pedacinhos de laranja.
Jenny Lou e Diana se despedem, vão dormir.
Mais tarde, Paritosh leva embora Janaína, e eu vou andar na praia por um tempo. Quando volto, o sátiro, que chegou antes de mim, está abrindo a porta do quarto em que as meninas hoje dormem. Pé ante pé, entrei com ele. Diana (que surpresa), calcinha preta, deitada de bruços, bundinha virada pra si mesma. (Silêncio). A cortina balançando suas brancuras, o ar fresquinho da madrugada-quase nos inunda de arrepios. Swami sugere com um gesto de cabeça que eu acaricie Diana — mas não quero, apesar das lembranças deliciosas que tenho dos seus seios. Ele sabe, o sátiro lúbrico, que hoje nós dois queremos a mesma coisa:
— Jenny Lou!
Quando ambos fazemos a mesma escolha, um dos dois tem que ceder, e eu cedo quase sempre porque sou compreensivo — além de discípulo. Jenny Lua dorme como dorme uma boneca, e só se vê seu pé direito saindo do lençol prateado que finge protegê-la. Não sei bem o que fazer, se saio já do quarto ou se mais tarde.
Não será pecado deixar uma lua nova num quarto crescente?
Trago o creme que ela gosta, perfumado, e coloco nas mãos do mestre toda aquela pompa e circunstância. Jenny Lou se mexe, parece acordar, junta os lábios, move a boca como estivesse sentindo o gosto de um sonho. Paritosh começa a descobri-la com uma delicadeza furtiva que jamais havia visto nele — pouco a pouco, a partir dos pés. Faz tudo em silêncio profundo, como se fosse um ladrão de gostosuras furtando a si mesmo.
Diana se vira na cama, sua bundinha parece agora que tem voz. Paritosh pára um pouco, olha para uma e para outra sem mover a cabeça, me olha também, sorri, coloca o indicador em frente à boca fechada, e diz:
— Shhh...
Jenny Lou está quase toda descoberta.
Agora é a vez de derramar creme em minhas mãos, esfregar a suavidade de uma na outra, como se isso tudo fosse tudo. Passo o creme primeiro nas mãos dela, nos braços nus, tomando cuidado para que não se acorde. Passo tão levemente que é como se não a tocasse. Três anéis na mão direita, dois no mínimo da esquerda — os mesmos que ontem tirei com minha boca. Paritosh me puxa, quer talvez que eu saia do quarto: ele acha que ainda tenho restos de preconceitos morais pequeno-burgueses que não combinam com as delícias da inocência. Vai passando creme no corpo todo dela, exceto onde não lhe permite o short que ela veste. Enfia seus dedos por debaixo da camisetinha, e eu ali, em pé aos pés da santa cama, surpreso como o sono dela é profundo. Paritosh toca mais forte, e eis que ela se acorda, sem sobressaltos, como já sonhasse com isso. Ela nos olha, simulando não entender o que se passa — além do creme.
Agora sou eu que lhe digo:
— Shhhh...
Ela olha para Diana, que dorme tranqüila, busca talvez cumplicidade. Inclino-me, beijo-lhe a testa e sussurro:
— Você é linda, menina...
Ela sorri — e fica ainda mais.
Além do creme que passo há um limite que não.
Já Paritosh pensa mais longe. Lembro-me de um dia ter dito: "Vou sempre até o limite, Edson. Mas quando vejo que terei mesmo de ultrapassá-lo eu o desloco um pouco mais pra frente. E assim por diante, simplesmente."
Um de nós dois vai ter que sair.
Se Paritosh é o sátiro, tenho que ser cavalheiro — e me retiro. "Vou derrubar a Lei das Probabilidades com dois golpes de sorte."
Eu tenho “know-how”, mas ele, “savoir-faire”.
A sala agora é Sodoma e meu quarto, Gomorra. Só espero que não caia sobre nós uma chuva de fogo e de enxofre...
Paritosh permanece em Gênesis — como depois me contou — vibrando como se fosse de novo a primeira pessoa de um testamento antigo.
— Jenny Lou tem um colarzinho de couro, com pingente de ametista e dois brinquinhos de prata — ele me diz.
E eu — brinco de Van Gogh na orelha de Jenny Lou.
Seus olhos me capturam!
Mas a clavícula, seu melhor adorno, se destaca quando ergue as mãos pra me abraçar. Talvez ela não queira mais do que amor, e eu quero exatamente isso, muito mais! Desvencilho-me do abraço, tiro-lhe a camisetinha cor de anuência, e tudo se esclarece de novo na penumbra do quarto. Jenny Lou me olha como se esperasse uma surpresa em que cada gesto que faço. Suspiro gostoso no seu lóbulo. Passo-lhe creme nos seios — tão pequenos, poéticos, encantadores, tão significantes — que os Demônios da Poesia pedem-me para chamá-los, respeitosamente, de peitinhos.
Olho dentro dos seus olhos e lhe digo:
— Jenny Lou, volte a dormir, que vou ficar aqui, fazendo amor com teu silêncio.
— Estou sem sono — ela sussura, quase ronrona, e move as pernas como se movesse o mundo.
Vão se abrindo em minhas mãos, delicadas, as alavancas de Arquimedes, os joelhos de Jenny Lou. Les genoux de Jenny Lou.
A música na sala passa a ser de Jon Bon Jovi — e concluo alegremente que meu discípulo amado não abandona o mestre em seus caminhos escuros.
I celebrate myself.
Mas fico em dúvida.
E quando fico em dúvida entre um orgasmo e a dúvida, escolho sempre o primeiro. Suspiro de novo, respiro, transpiro, e me ajoelho aos pés da musa. Chupo-lhe os dedos pequeninos como se chupasse um cachinho de uvas na parreira do céu. A princesinha se contorce de uma coisa que só pode ser tesão. Meu cacete, suportavelmente duro, força as grades da prisão de brim. Dou-lhe então a liberdade que precisa, ele salta como tivesse vida própria, feito gato. Sete vidas próprias. Será a primeira vez na vida que a cabeça intelectual do meu cacete vai tocar a pele dessa musa.
É um momento mágico, religioso — por isso ele começa a ficar respeitosamente duro.
Sempre com malícia, nunca com maldade!
— Jenny Lou, feche os olhos — eu lhe peço, e vejo suas pálpebras se abraçarem. A delicadeza inocente de um prepúcio inteiro tocando-lhe os pés. Me lembro de Suzana. Meu sexo vai subindo, passa cuidadoso pelos tornozelos da menina, se detém um pouco nas canelas. Duas gotas de óleo de amêndoas lhe dão mais brilho. Ele se entusiasma e vai subindo cada vez mais — porém não passará dos joelhos de Jenny Lou.
(Ela é musa, não amante.)
E depois, quando tudo foi se acalmando naquele precipício de paixões em que saltei; quando já estava no terraço tomando um suco de laranja, olhando o mar brilhante, a noite veio me dizer, com sua voz adolescente:
— Mahatma, a vida é bela!
Lembro-me de que ontem Roberto Benigni ganhou um Oscar. Hoje, ganhei o meu. Ele, por seu filme. Eu — por meu amor.
Amanhece pela terceira vez consecutiva.
E Jenny Lou acorda como das vezes anteriores: — irretocável.
Fico olhando para ela, o sorriso dessa menina me mostra como descrever uma cena de amor com palavras nunca ditas. Me faz dizer "eu te amo" de uma forma que ainda não houve. E se precisasse de algo mais do que isso, eu seria menos do que ela merece.
Torno a descobrir que o maior afrodisíaco é a tesão.
Diana sai do banho, cabelos molhados, enrolada numa toalha que era de Suzana, encosta seus mil peitinhos nos meus ombros nus e diz que precisam ir embora, as duas. Compromissos, promessas, escola, mães preocupadas — coisas assim. Como chove, e porque quero, vou com elas. Quando volto, Paritosh está na sala, pensativo, com a sacola colorida de Jenny Lou nas mãos, as roupas que ela havia trazido anteontem. Me pergunta, sem me olhar:
— E as meninas?
— Fui levá-las.
— Mas Jenny Lou "esqueceu" a bolsa aqui? Um “ato falho”...
— Não: um ato de amor, sem falha alguma — digo.
Vejo que ela deixou na mesa da sala um bilhete escrito em azul: "Amei te amar. Assinado: Jenny Lou".
— Ela te deixou um bilhete — eu lhe aviso.
— Acho que é pra você — me diz. — Não tem nome.
(Talvez seja.)
— Quer tomar alguma coisa? — pergunto.
— Não, mas tenho um pouco de fome — diz Paritosh.
— Que tal um salmão ao molho de laranja, com arroz?
— Seria ótimo.
Convido-o para buscarmos o peixe. Ele vai em silêncio. E eu tentando me lembrar de Roberto Freire: “Porque te amo, tu não precisas de mim; porque tu me amas, eu não preciso de ti. Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários.”
Quando já estávamos na fila da balsa Paritosh me diz:
— Volte, Mahatma.
— Por quê?
— Volte, pegue o caminho da Cachoeira.
Obedeci. Na chácara das plantas, no farol, ele me orienta:
— Pare, deixe o carro aqui bem longe, e siga à pé. Lá na esquina há uma placa: "Peixaria do Povo". Entre, compre meio quilo de sardinhas, e peça ao balconista, o João, que as pegue uma a uma.
— Sardinhas?!
— Sim.
— Meio quilo é muito pouco, Swami...
— Não discuta, há dois mil anos que você as multiplica.
(Gosto dessas palavras, tanto, que me havia esquecido.)
Ele permanece no carro. Trago o pacotinho de peixe, voltamos. No caminho, passo por frente de onde mora Silene, preciso cortar o cabelo. Me lembro de seu pai e da navalha suspensa. Assim que entramos em casa, Paritosh pega o Mateus que ontem sobrou de Janaína e me pede, olhando as sardinhas prateadas:
— Agora, Edson, lave-as com amor, passe-as em farinha de trigo, e as frite em óleo de girassol bem quente.
Me espanto com os detalhes. E o mestre continua:
— Volte, Mahatma, volte mais ainda, retorne às origens.
Você não nasceu só pra terraço com piscina. Volte à goiabeira lá no fundo do quintal, suba de novo no pé de jaca, na mangueira. Colha ariticuns maduros, veja aqueles maracujás dependurados na cerquinha de taquara. Trepe naquela mesma laranjeira e colha metáforas em vez de laranjas. Brinque de novo com tua irmã que já morreu, pese outra vez meio quilo de sal, varra ciscos no armazém. Abrace teu irmãozinho — que ainda nem bebia. Volte fundo na tua inocência, abrace mais forte teu pai que já se foi. Pegue a mesma pedra que você atirou aquele dia na testa da tua mãe, e atire-a de novo — só que agora erre o alvo, por favor, falhe na pontaria. Derrame as lágrimas que você guardou por todos esses anos, e abrace os teus irmãos como se fossem meus.
Continua falando comigo, como se soubesse tudo de mim.
(O peixe vai acabar queimando bem no meio das lembranças).
Enya me encanta com sua voz de Janaína irlandesa. Delicado, ele põe a emocionante sacolinha colorida de Jenny Lou no meu colo, se levanta, dá-me um beijo no rosto, e quase some.
Então lhe digo:
— Paritosh?
— Sim?
— Nada...
Enxugo meus olhos com um guardanapo, e vou à cozinha, multiplicar os peixes — pois também tenho fome.
(Também sou humano.)
Os acontecimentos só são mensuráveis no seu próprio tempo. Nem antes, nem depois. Mas fico me lembrando.
Minha mãe faz um doce chamado Freud. Leva maizena, clara de ovos, banana, calda de açúcar negro — e traz alegria e lembranças. Uma delícia. Amo-a tanto, que às vezes fico bêbado de mãe. De tanto que a tomo nos braços, que me embriago dela por mim. E sempre me acordo no interior, mesmo quando viajo para fora.
Mas há dias que acordo duplamente no interior — como hoje, em que estou na casa de minha mãe. Sinto cheiro de café. Um galo índio, de cristas excitadas, canta dentro de mim, bem longe, como se cantasse na minha infância.
(Ouvi tanto esse galo cantar que já lhe sei o co-co-ri de cor.)
E o acaso vira os dados de Einstein.
Sobre o balcão uma cesta de triunfos à espera de mim.
Eu vivia escrevendo nos papéis de embrulho as palavras Vitória, Liberdade, Justiça, Verdade, Amor, Sexo, Vida, Perfume, Pecado, Filosofia, Desejo. Portanto, tudo o que eu vendia era embrulhado com poesia, desejo, amor, vitória, justiça. Muito pão sovado embrulhei com liberdades, muita mortadela, com verdades e perfumes. Escrevi centenas de poesias nas bordas da Folha de S. Paulo e do Estadão — e com essas folhas que embrulhei mercadorias fui publicando meus primeiros poemas de amor. Certa vez, tinha doze anos, escrevi uma poesia enorme nas bordas da página oito do primeiro caderno da Folha. Depois, utilizei o jornal para fazer embrulhos ao acaso: não me lembro qual cliente teve a honra de levar meu poema inédito. Com doze anos eu já era poeta consagrado: publicava minhas poesias na Folha de S. Paulo. E varrendo ciscos, papéis e tranqueiras aprendi a amar a limpeza, mas não de forma neurótica. Aprendi a me organizar. Varria com método, coreografando a dança com a vassoura, meditando, desenhando na poeira coisas que dessem sentido às regularidades caóticas daquele chão de cimento.
Dessa forma planejava minha vida, meu futuro.
Varrendo ciscos geométricos sobre cacos coloridos de cerâmica, dançando como Nietzsche à beira de um abismo, eu construía a mais louca arquitetura de mistérios insondáveis. Então chegava um cliente querendo meio quilo de sal, cem gramas de mortadela, um pão sovado. Não importava o que fosse: em qualquer hipótese, antes de atendê-lo, eu me transformava no balconista do Olimpo.
— E sorria.
Porque tinha certeza de que, aprendendo a vender coisas com método, aprenderia a vender idéias. Todas próprias.
E foi assim que aconteceu.
Fico pensando no meu primeiro discurso público:
— Precisamos romper com o passado morto!
Eu não quero só ver o circo pegar fogo: quero incendiá-lo com meu próprio fôlego. Na quadra de esportes, mil alunos e professores reunidos me assistindo. “Vamos estabelecer novas relações!” Faço pausa, olho a platéia, respiro fundo, continuo: “Não mais deixaremos a bandeira da imaginação hasteada a meio pau!” (Li mais tarde esta mesma frase no Manifesto Surrealista. Cinqüenta anos antes André Breton fizera plágio do que eu disse.) Não me lembro do restante. Eu, quatorze anos, fora eleito presidente da AJAN, Aliança Juvenil dos Amigos da Natureza. Logo quis mudar o nome para ALAN - Aliança Libertadora dos Amantes da Natureza.
Era só para discutirmos ecologia de superfície, mas eu queria discutir a Natureza profunda de todas as coisas. Não permitiram, obviamente. Mas foi o começo da minha luta política. Tornei-me marxista, lutei contra a ditadura, fui preso várias vezes.
Virei subversivo!
Com o tempo, parte dos meus sonhos socialistas se perderam, mas nunca perdi a capacidade de sonhar. Minha imaginação quebraria todos os limites. Até os seus próprios — se os tivesse.
A vida é um jogo de dados, em que Deus perde sempre para os que arriscam. Quanto mais você arrisca, mais vivo será.
Aliás, falar de Deus na terceira pessoa é falta de respeito!
(Einstein joga dados ao acaso. Você sabia que Einstein tocava piano? Ele adorava fazer “experiências mentais”? Einstein só falou aos três anos — e falou mal, tartamudo, tatibitate. Depois que um professor lhe disse que não tinha futuro, passou quase doze anos vagando pelos campos da região de Toscana. Foi quando começou a ver o mundo de outros ângulos. E tornou-se um Einstein!)
Um ventinho beau de l'aire toca-me a pele — como se Einstein tocasse piano — e me lambe como se eu fosse poesia. O lençol de cetim que ganhei de minha mãe, desfiado nas pontas, macio. Lembro dela e das coisas que me deu: vida, saca-rolhas e lençol.
Só coisas lúdicas: vida, amor à liberdade, um jogo de lençol de cetim — e um saca-rolhas erótico.
Tudo a ver com prazer, tudo a ver com poesia.
(Com amor!)
No jogo de lençol, só me jogo para vencer — e me perco!
— Todo jogo de lençol foi feito pra gente brincar.
Como vocês vêem, tendo mãe assim não preciso de mais nada. Também me lembro de Belle, quando sonhamos a múscia, ela dando seus passinhos no tempo certo. E Vangelis cantando Le beau et Le Sauvage. Et la Belle, sauvage Issa. Então apago as luzes que estão fora e começo a dançar. Mas não sou como Jesus, que antes da dança expulsava os demônios do próprio Corpo. Não. Eu apenas os convido a sairem de mim por algum tempo. Só para que dancem no canto escuro que é meu, claro.
(Fico dançando.)
Fecho meus olhos, me olho por dentro.
Pelado, danço cada vez mais para dentro de mim.
Sinto clarões relâmpagos, mas não abro meus olhos para fora. “Como será o sonho de um cego?” — penso nas imagens que ele não tem. Piso sem querer no pratinho onde coloco incenso, faz barulho, cai emborcado, cinzas pelo chão. Resolvo acender um — de olhos fechados. Pego fósforo no escuro, escolho a vareta, risco o palito, sinto outro tipo de clarão, vou tateando, sem medo que me queime.
Mas me queimar faz parte do risco.
— Às vezes me corto com fogo!
Sinto calor, fumaça em meu nariz, cheirinho da Índia que me penetra gostoso, me lembro de Paritosh. Meus demônios — todos eles — rebolam. Danço pelado na sala nua. E sabe quem está aqui, orientando a coreografia? Maurice Béjart, em pessoa. (Isso também é inexplicável). Palavras não dizem tudo: aquilo que senti não pode ser dito. E mesmo que diga tudo, direi metade só.
(Fico me aplaudindo.)
Patricia não gostava que eu dançasse desse jeito.
Reclamava. — Você rebola muito, Edson.
(Quem não rebola, se enquadra — eu falava dançando.)
Suzana, ao contrário, me dizia:
— Rebole ainda mais, meu grande amor!
"Você é sensual: dança Shiva misturado com Cazuza."
E sempre me repetia:
"O maior afrodisíaco é a tesão".
Então, neste escuro madrugada, danço da forma que eu quero, da forma que sempre quis. Ninguém me censura, nem mesmo meus olhos. Sauvage et Beau, olhos fechados, danço loucuras abertas. Sinto sede, vou tomar mais coca-cola. Tateio com a sola nua dos pés, fácil encontro a mesa, conheço a geografia, o copo, a garrafa. E tomo coca, como tomasse vinho. Perfeito.
E o grego, Sauvage, faixa 13, repetindo — e repetindo.
(Mas nunca do mesmo jeito.)
— Demônios, eu os convido a deixar novamente o meu corpo. Mas não saiam de perto de mim, por favor!
Foi Deus quem os colocou todos no meu corpo, para que eu pudesse dançar com Ele. Grande bailarino, partner tesudo, Deus me empresta Seus Demônios para que eu possa viver como Ele.
(Gosto tanto de Deus, que Ele é hoje a primeira pessoa do meu próprio Singular.)
Eles se vão, mas quero que retornem, os Demônios.
Que me habitem de novo, sejam meus outra vez. Quero que acordem no ponto, me encham de glórias, me agitem por dentro — e mais fundo. Que rebolem no escurinho do meu peito. (Demônio foi feito pra dançar). A dança que cura é a dança por dentro. Tum tum, tum tum tum, tum tum tum, tum tum tum. A dança gostosa é a dança profunda. Tum tum, tum tum tum, tum tum tum, tum tum tum. A dança mais louca é a dança de Shiva. Tum tum, tum tum tum, tum tum tum, tum tum tum. E que me enfeiticem com suas gostosuras, que me encantem com seu ardor, que me tragam mais febre. Temos o mesmo estofo, o mesmo estilo: feitos de volúpia, desejo, paixão, sinfonia — somos tentações.
Quando me acaricio neste momento único de amor é a mão do demônio que me toca primeiro. Isso, de um lado. Porque, do outro, são anjos que me arranham com doçura. Eu gozo por dentro e por fora. E o grego, Le Beau et Le Sauvage, nesta madrugadíssima caleidoscópica, continua.
Shiva agora é Nataraj.
Fico dançando, passo as mãos em mim, abraçado a meus demônios, protegido por anjos, me lembro Suzana. Se me canso deito no chão refrescante, viro de lado, penso dormir. Vou depois acordar, o sol me lambendo como lambesse o deus desgovernante. Meu coração parece montanha russa. Quando a gente dança a dança da verdade, tem sempre que dançar pelado. Então lembro de minha mãe, me acordo mais. Lembro de Joyce, Danielle, Suzana, Edma Lux, Janaína, Andrea, Fernanda, Rose, Joelma, Silene — e vou dando gargalhadas nessa madrugada que se chama solidão a mil.
(Nesta fase vida, as que vieram antes serão lembradas depois.)
Gargalhadas — e lembranças cambalhotas.
Abro-me os olhos, e o que vejo?
— O teto embaixo de mim.
Cadeiras de ponta cabeça, o lustre plantado no chão. Deitado de costas, colado no chão da vida, vendo coisas no teto por baixo de mim. O mundo me atrai — mas a vida me atrai muito mais. Vou à cozinha, Teresa está na pia, calada, lambendo um pedacinho de nada, me olha. De novo toco sua antena e lhe digo:
— Não precisa fugir, menina. Não quero teu mal.
“Lembranças ao Franz”.
Que vontade de comer pato cozido ao molho de vinho, com repolho roxo e purê de maçã — ao som de violinos...
Volto à sala, sento-me aqui, começo a escrever.
Sauvagement. Freneticamente. Mas não dá pra dizer tudo, por mais que eu queira. As palavras só transportam conceitos — e preciso de mais: eu quero só falar de poesia.
Não é prosa o que senti. Palavra!
— Foi prazer.
Vocês sabem: Tesão é quando a alegria faz escândalo!
Eu aqui, digitando, Diana chega perto de mim, com seus seios fantásticos. Fica lendo o que escrevo, e sorri, Nereida. Ao lado dessa menina, tenho mil olhos: um para cada peitinho dela: exclusividade absoluta. Implícitas permissões me ajudam a levantar com amor e insistência sua blusinha solta. Acaricio a pele macia com meus lábios, pergunto-lhe se quer suco de morango. Ainda sentado, enlaço-a com braços decididos, minhas mãos em suas costas, o biquini desaparece no fundo dos olhos.
Um sangüíneo objeto dá um pulo no vão das minhas pernas.
— Tesão é alegria fazendo escândalo!
Então me levanto e dou-lhe o abraço mais puro e inocente que posso dar. Por trás. Toda musa é sempre virgem para mim. Amo-a toda vez que pisco meus olhos. Vontade de gritar: Diana: te amo — tanto — que preciso de duas vírgulas para dizer o quanto. Meu sexo sobe, tanto, que alcança o sorriso dela. Viro-a de costas, ternamente, abraço-a de novo, encosto meu sexo numa esperança que se entrega e sinto a enorme gostosura de sua bundinha entusiasmada.
(O que vem depois, é o que deveria ter vindo sempre.)
Mais tarde, bem mais tarde, tocando leve seu corpo lá fora, tentando equilibrar uma cereja no mamilo dela, eu lhe digo:
— Você sabia que o Templo de Diana é uma das Sete Maravilhas da Humanidade?
— Que bom — ela responde sorrindo.
"Que delícia!" — penso. E continuo equilibrando:
— Teu maravilhoso templo fica na atual Turquia, assim como o Mausoléu de Halicarnasso.
— Quais são as outras cinco?
Tento me lembrar. “As pirâmides do Egito (Quéops, Quefren, Miquerinos), os Jardins Suspensos da Babilônia (que ficam no atual Iraque), a Estátua de Zeus e o Colosso de Rodes (na Grécia). Falta uma...” Tomo o restinho do Mateus branco, multiplicado ontem pelas mãos de Danielle, e me recordo da sétima:
— Ah, o Farol de Alexandria!
(Nereida é uma ninfa, divindade fabulosa das montanhas, bela menina. Também pode ser outra coisa mas não quero contar.)
Ela põe The Cure pra rodar e sai dançando. Deita-se lá fora, fico olhando os lacinhos azuis do seu biquini — só. Nesta tarde azul de sol absoluto, quinta-feira profunda, intensa, sinto-me um louco egípcio lúbrico, e Diana é hoje o meu farol de Alexandria.
(Torna claro o escuro que já era óbvio.)
— Jamais me perderei!
(Mas tem gente que se perde.)
É impossível ser feliz sem liberdade — repito.
Quando o assunto é felicidade o idiota sempre se perde.
Quer exemplo? Um homem casado, redundantemente infeliz, mais triste que uma lápide em ruínas no sul de Moçambique, veio ontem confessar-me, desgostoso:
“Quando estou ausente, há um estranho personagem que assume o meu papel, entra em minha casa em meu lugar, beija minha esposa encebolada e ciumenta, faz carinho nos meus filhos, senta-se na sala, e aguarda que as coisas aconteçam. Tudo mecanicamente. Esse estranho personagem toma o meu lugar, faz o que se espera de mim, sente o que eu mesmo deveria estar sentindo. Não fosse esse idiota, eu não conseguiria suportar esta vida de jeito nenhum — não sei como o desgraçado consegue. Às vezes eu olho para ele ali no sofá, afundado em tédio, cerveja e tv, cochilando... Para mim é muito cômodo ter um dublê, um substituto, mas sempre me pergunto: Qual é a graça que esse sujeito vê em fazer o que faz?”
Esse homem é um casado muito sério:
O que lhe dá ânimo de continuar vivo é a esperança de que um dia vai morrer...
Fico pensando.
A tv é hoje a maior entidade mantenedora de casamentos do Brasil: se as pessoas não ligassem a tv, acabariam conversando, e teriam que discutir aquelas questões realmente importantes de suas vidas, e que estão suspensas. Então provavelmente se separariam.
Ou se matariam...
— Fale de amor — Karen me pede, segurando-me as mãos.
— A primeira coisa que preciso para falar de amor, lhe digo, a primeira coisa que preciso muito para falar de amor, é falar de e em liberdade. Só posso sentir amor se me sentir livre, antes. Tuas mãos, suaves, carinhosas, são também perigosas. Cordões de seda adornam cinturas nuas em danças do ventre, mas também podem ser laços para um suicídio por enforcamento. Tudo tem seus dois lados: é a eterna luta entre finalidade e função que as coisas têm em si.
— Fale-me de amor — ela quase grita outra vez, soltando-me as mãos. E repete: — Fale de amor. Tô cheia de filosofia...
Sei que a safada está querendo “fazer amor” comigo.
Faço silêncio.
Mas se amor fosse só sexo, uma forma pobre de exercício, ou fosse só essa coisa fria que ela supõe que seja, eu agora certamente iria gritar, abrindo meu ziper e chacoalhando os instrumentos:
— Tô com o saco cheio de amor!
Mas Deus é justo:
Quando faz o ciumento tira-lhe a sensibilidade.
Porque um ciumento sensível, inteligente, compreensivo, seria uma contradição em termos, um verdadeiro absurdo.
Sei que encebolada não existe, esposa não é bife. Mas olho para ela, como se olhasse para além dela. E resolvo fritá-la:
— Como falar de amor sem falar de filosofia, de arte, ciência? Sem falar do Banquete, de Sócrates e Xantipa? Como discutir uma coisa com método sem pensar em Descartes?
— Você usa a Filosofia como cortina de fumaça para esconder certas coisas de mim — ela jura disso ter certeza.
— Às vezes! — digo. — Porque às vezes a cortina de fumaça mais revela do que oculta. Uma cortina de fumaça pode...
— Fale-me de amor, Edson! — ela me interrompe.
— Mas eu só faço isso, meu amor. Não faço outra coisa: só falo de amor! Mesmo quando te mostro a diferença sutil entre dois vinhos quase iguais; quando peço para não inundar o banheiro após o banho; quando te ensino fazer macarrão à carbonara; quando corrijo delicado um erro de pronúncia; quando te mostro o corpo humano de Isaac Assimov; até quando conto sobre a vida de Picasso ou Henry Miller — sempre estou falando de amor com você. Sempre!
E me lembro do banho que ela tomou há meia hora.
“Sutilmente”:
— Quando alguém toma banho aqui em minha casa e deixa o banheiro alagado, se tenho por essa pessoa muito encanto perco um pouco. E se tenho pouco já, penso logo em perder o resto.
(Mas o melhor livro de Assimov é o cérebro. “O cérebro”.)
Karen joga água fria no que acabo de pensar:
— E se você não tiver nenhum encanto por ela?
— Nem sequer entra em minha casa!
— E se for um homem?
— Dou-lhe um soco no estômago e procuro devolvê-lo à puta que, por horrível descuido, talvez o tenha parido...
Tento mostrar-me um grosseiro que em verdade não sou.
Mas ela persiste nas perguntas e diz, parecendo esperançosa, que pretende ser “a” minha namorada. Ficamos um tempo enorme falando dessas coisas inexcitantes.
“Às vezes, uma delas quer me fisgar. Joga-me a isca, adocicada. Acabo mordendo a ingênua isca, como se eu fosse um peixe bobo. Mas então a engulo. E engulo o anzol, a linha e também a chumbada. Engulo a vara de pesca, a mão e o braço. Por fim, engulo a própria desgraçada pescadora”.
— E depois a vomita? — pergunta ela.
— Preciso antes digerí-la. Mas meu metabolismo é rápido...
Reajo como se fosse dar um sorriso, mas não dou.
Pausa.
Ela me olha, surpresa, e diz:
— Antes de vomitá-la, você a “rumina”?
— Não, Karen. Não sou animal ruminante: depois de engolir a desgraçada eu a defeco.
— Por que você faz isso com as pessoas?
— Por que as pessoas tentam fazer isso comigo? Por que todas querem me fisgar, me prender, me encurralar?
Levanto-me, resoluto, encosto dramaticamente meus dez dedos abertos contra o peito, e grito:
— Por que é que as pessoas querem sempre me aprisionar? Por que é que minhas namoradas pensam...
— Porque elas te amam, Edson.
Decidida, me interrompe em voz alta.
E repete, diferente:
“ Porque nós te amamos!”
— Amam? Você chama isso de amor? Ora, o amor tem que ser livre. O amor só pode ser livre. Se não há liberdade nessa coisa estranha que você sente, chame esse sentimento ridículo de qualquer outro nome — menos de amor!
Ela acha que eu deveria controlar minhas paixões.
E se vangloria:
— Eu jamais me descontrolo.
— E eu adoro perder o controle. Todos os controles!
— Quem se descontrola...
— Não generalize, minha querida “psicóloga”...
Ela me olha, penetrante, profunda, seca.
Abre a boca para falar, abre a boca como se abrisse o próprio Código Civil. Mas se contém: não deve tê-lo aberto na página certa. Parece que todo advogado perde a capacidade até de ficar perplexo. E ela, coitada, não seria diferente. Por que é que fui incentivá-la a fazer o curso de Direito? Será que apenas para perdê-la depois, já que a amava tanto? Eu já sabia que advogados não gozam. Data venia: um advogado jamais vai te dar um grande orgasmo. Um juiz, então, nem se fala: um juiz não chega sequer a tentar. "Um juiz fazendo amor" é uma improbabilidade in extremis. Enquanto falo essas coisas ela continua me olhando e enrolando cabelos em cachos negros, belos, a cabeça meio inclinada, esboço de um sorriso.
Ela sabe que já me perdeu.
E que não tem volta.
Manter uma infidelidade em segredo é mais vergonhoso do que torná-la pública.
Fico pensando sobre tesão e mandíbulas.
As ciumentas, no início, nos acariciam. Depois nos arranham; nos abraçam, e em seguida nos agarram; nos lambem, depois nos cospem; nos beijam, e depois nos mordem, nos comem, devoram. (Chamam isso também de amor). Na hora do beijo elas injetam enzimas digestivas em nosso corpo. Então nos despedaçam, dilaceram, mastigam, deglutem. Mas não nos digerem totalmente, as víboras, só para que nossos pedaços apodreçam dentro delas — um a um.
No primeiro dia de um grande amor, logo vejo que a deusa tem lábios de mel, dentes, clitóris, tesão — e mandíbulas; tem língua, vontade, olhos cândidos, bundinha perigosa — e segundas intenções. Além de amor, a pequena deusa tem algumas tentações, e um belo e eficiente aparelho digestivo em prontidão.
Quando ela passa as unhas gostosas no meu peito me arrepio de gostosura... — e de pavor: as unhas que fazem delícias são as mesmas que às vezes dilaceram.
De unhas para garras é só uma questão de tempo...
Cada uma a seu modo, as mulheres são todas quase perfeitas, mas já trazem dentro de si a semente das maldades que um dia contra nós praticarão. É fatal: tudo vai acabar em pancadaria. Tudo!
Por isso as amo breve.
— Brevíssimo.
Foram muitas, entretanto.
As boas, tornei-as melhores e mais puras.
Às frias, emprestei-lhes meu calor e fiz com que gozassem como nunca. Às loucas, dei-lhes minha própria loucura, meu êxtase. Às perdidas, ensinei-lhes o caminho da Vida e mandei que rasgassem todos os seus velhos mapas. As putas, amei-as como se fossem santas; às incompreendidas, dei-lhes a minha compreensão absoluta; às imbecis, contei-lhes sobre a Razão e ensinei-lhes a pensar como Descartes. Às perseguidas, dei-lhes meu único abrigo; as que choravam ouvi-as com atenção, sem pressa, e deixei derramassem suas lágrimas nos meus ombros de amigo. Às famintas, preparei-lhes salmão ao molho de alegria. Às que tinham sede, dei-lhes água cristalina do meu pote, e às que se sentiam presas mostrei-lhes como amar a Liberdade sobre todas as coisas.
As pequeninas, cobri-as de inocência e candura, e ensinei-lhes a crescer. As deusas, todas, tomei-as nos braços e fizemos amor.
Mas às ciumentas, coitadas, só lhes pude dar três coisas:
— Distância, distância, e distância.
Karen me interrompe esse “ensaio filosófico”:
— Por que você é tão complicado?
— Complicado em que sentido? — pergunto.
— Em todos...
— Vou fazer de conta que tua pergunta procede. Sou em verdade muito fácil de ser entendido por todos aqueles que se apaixonam pela Liberdade. Se você não amar a liberdade primeiro, não vai nunca me amar da única forma que posso aceitar teu amor. Só quem se apaixona pela Vida é capaz de ser amante da Existência sem trair a Liberdade. Para mim tudo isso é claro, cristalino, transparente. Por que é que as pessoas não amam a liberdade? Porque são medíocres! Como pode alguém, em sã consciência, não amar a liberdade em primeiro lugar? Como podem essas pessoas esmagarem suas vidas nos moinhos gelados da estupidez, jogando fora o suco delicioso, ficando apenas com o bagaço? Por que atordoam suas existências com preconceitos horrorosos e antigos? Por que se convertem em vermes repugnantes, e não em pássaros canoros? Por que escolhem o caminho fácil do desespero absoluto? Por que se transformam em carrascos do amor, verdugos da paixão, assassinos da alegria? Por que não vivem as gostosuras todas, em total liberdade?
Ela não sabe as respostas para isso.
Então se levanta e pergunta se quero mais vinho. Esse assunto não lhe agrada, é claro. O ciumento que se sente derrotado no amor doentio detesta falar sobre liberdade.
— Sim, quero mais vinho, muito mais vinho e muito mais vermelho. Quero um italiano, a taça transbordando de Chianti. E acenda mais um incenso indiano Poem.
S'il vous plaît.
E continuo.
— Você pergunta o motivo da minha obsessão pela verdade. Ora, porque só existe a verdade. Aquilo que não é verdade não existe. Só o que é verdade existe de verdade. E a obsessão pela Liberdade? Porque só através dela é que podemos alcançar a felicidade.
Repito de novo: — É impossível ser feliz sem liberdade!
Mas eu deveria ser mil, para amá-las todas ao mesmo tempo.
Deveria ter mil mãos para acariciá-las simultaneamente. Mil dedos em cada mão, para tocá-las, todas, de mil maneiras diferentes, ao mesmo tempo. Deveria ter mil olhos, mil bocas, mil línguas, mil corações. Na verdade, eu deveria ser agora dois mil — para amá-las, todas, ao mesmo tempo.
Porque descobri que meu espírito é santo.
E acho que no fundo não me interesso pelas pessoas em si, mas pelo que elas dizem e fazem. Sou um escritor, meu amor. Eu preciso é das suas histórias. Às vezes, troco-as por sexo, às vezes por vinho, e outras vezes troco-as por uma paixão escandalosa, como essa que agora sinto por você, Suzana, Joelma, Fernanda, Rose, Fabia, Luciane, Paula, Sandra, Aline, Joyce Ann, Vânia, Silene. Por você, Janaína, Andrea, Danielle. Às vezes sou mais que amigo, mas eu gosto mesmo é de ser só amigo.
Sensualmente amigo.
Quando entro em estado de excitação total, não faço isso em nome de uma mulher só. Quando me inspiro, eu me excito por toda a porção feminina da Humanidade. Por todas as fêmeas do mundo.
Embora exerça a ereção e a doçura com essa musa que agora repousa delicada nos meus braços, em verdade estou amando, neste momento, todas as outras também!
(O nome do meu único amor imortal é Fulana.)
— Você pensa que eu te amo por você?
(Vou me transformando no cavalo do Artaud.)
“Pensa que preciso de você? Não: eu preciso é de um personagem para ocupar esse vácuo que existe na história da minha vida. Preciso é de alguém para ocupar o vazio no cantinho do palco: na coreografia da vida não existe papel mais importante que o meu. Sou o ator principal nessa peça que encenamos, meu amor. Nem aplausos eu quero de você. Há uma platéia entusiasmadíssima no meu peito gritando por mim”.
— Não quero amores definitivos, nem beijos definitivos, nem coisa alguma definitiva. Só quero pessoas sensíveis, de carne e osso. Carne, osso e coração. Quero pessoas de carne, osso, coração — e cérebro, para que subam no meu palco, para que vivam com amor os papéis que lhes crio em meu nome de Deus.
E o Antonin se despede pensando como se eu:
“Somos todos atores, querida, atores! Se você pensa que pode ser mais, procure-me, só, depois do ensaio...”
Quando um grande amor está nascendo, Paritosh me diz:
“Não interfira, Edson: você não nasceu pra ser parteira".
E quando um grande amor está morrendo, Paritosh também me diz, olho no olho:
— Não interfira, Edson: você não nasceu pra ser coveiro.
E assim se vão os meus amores, nascendo e morrendo — por si só, por conta própria. Nunca interfiro. Nesse assunto, sigo o que me manda o mestre. Deixo as coisas rolarem.
— Paritosh, fale um pouco do Kama Sutra.
— Depois...
(...)
Fico filosofando.
Nunca mais conseguirei namorar, no sentido tradicional desse verbo: encontrar-me com ela todo dia, andar de mãos dadas, tomar sol juntos, andar pela praia, passear no Shopping, mostrar-lhe novos lugares (que quase sempre já os conheço) — e ter certeza de que ela me ama, todo dia. Ser abraçado, agarrado, beijado, a todo minuto. Repartir lugares, corpos e camas, toda hora.
Dividir espaços, desejos, olhares, licenças, costumes.
Todo dia...
Nunca mais!
Talvez seja a deliciosa lembrança que tenho de Suzana. Ou de Rose. Desprendidas, elas nunca retiravam de mim o que considero fundamental: espaço para respirar, tempo para ser livre. Me deixavam dormir sozinho, nunca me acordavam, não faziam barulho, não acendiam a luz, não apagavam a luz.
Não interrompiam minha leitura no banheiro.
E gozavam todas as vezes — todos os dias.
“Acho que vou buscá-las de novo!”
Karen acaba de sair, um pouco menos esperançosa, e estou aqui em meu lençol de cetim, aquele mesmo bege, deitado no terraço, olhando estrelas, e tomando o restinho de Drambuie. Vou reler Zorba, o Grego, a partir da página 37, mas (não sei nem por quê) parei para escrever, nesta madrugadíssima doce.
Começam relâmpagos, venta muito. Karen, uma potranquinha tentadora, fico concluindo. Certos dias amo-a — tanto — que minhas emoções se desprendem todas na sela onde me sinto a cavalgá-la. Em sua testada, milhares de pedrinhas preciosas, safiras tilintando azuis na minha boca, milagres derramados sobre mim, desejos diferentes encantando as minhas mãos.
“Quando abstraímos parte da realidade, abstraímos a própria realidade desta parte.” — como disse-me um dia na USP Ana Maria Marques, a maior geógrafa humana do Brasil. Falávamos da Tia Ana e da importância transformadora positiva que ela teve sobre mim. Depois da minha mãe, nenhuma outra mulher mudou tanto o rumo da minha vida. Para melhor! Quando voltar a Itararé vou escrever uma poesia de amor no túmulo dela.
Hoje é 29 de janeiro do ano passado.
Chove forte nesta noite muita, relâmpagos riscando à faca o céu de alto a baixo. Entro inteiro na piscina, como entrasse na própria madrugada, e deixo que os pingos de chuva martelem meu corpo nu, que às vezes sobe à tona.
Iluminado por uma luz brilhante que vem de cima, solto as gargalhadas todas que acumulei nas últimas horas. Há um desafio emocionante lançado agora por mim: que caiam no meu peito esses raios de absinto. Que me firam — se puderem — que me penetrem, me rasguem, me partam, me furem.
Neste momento Deus rivaliza comigo no quanto de amor que Eu sinto e no tanto de bom que Sou.
Neste momento criamos muitas coisas incomuns.
Um para o Outro — tantas, que até nos confundimos.
E se um de nós dois tiver que se foder — que seja Ele.
São divinos meus adeuses.
Ao voltar de Salamanca sempre me despeço da minha mãe como se nunca mais fosse vê-la outra vez. E me coloco inteiro no adeus que lhe dou agora. Minha alma se pronuncia, chego a chorar por dentro de mim, morro um pouco nesse ato. E se um dia eu vier a morrer de verdade — o que é bastante improvável — já terei feito todas as despedidas que gostaria de fazer.
É a vida.
Isso é que eu chamo de milagre.
Minha mãe falou-me sobre um santo, protetor dos perturbados, cujo nome é Vito. Não achei o ícone de barro nem na lojinha de umbanda que tem aqui na esquina, mas encontrei uma biografia dele na Internet, acompanhada de uma reza, que era muito negativa, só falava de sangue, pesadelos, furor, inveja, ressentimentos. Só miséria, fome, tribulação, calamidade. E para o pecador é “sete vezes pior”. Ora, se alguém ler aquilo à beira de um abismo se atira. Acho que Vito, ao inventar tal reza, pretendia povoar o céu com desgraçados.
Então fiz alterações, cortei, substituí, acrescentei.
A começar pelo nome. Onde era “Prece do reconhecimento das limitações”, mudei para Prece de Conhecimento dos limites e do Poder de Reagir. Alterei tudo na oração, coloquei poesias, auroras, brilhos, pintei sol, coloquei futuros, ousadias, compreensão. Deixei alguns pesadelos para não tirar a originalidade, mas coloquei sonhos, todos recheados com marmelada. Ficou um texto limpo, poético, positivo, que anima e dá coragem a quem pretende viver.
Ela ligou-me agradecendo: “como é linda essa oração...”
Por falar na Santa que me gerou.
Quando eu era bebê, dois meses de idade, tive uma convulsão. Fiquei azul, e a família inteira ficou louca — eles não sabiam que era só o meu sangue que estava mudando de cor.
Apenas minha mãe não chorou.
Sabe por quê?
— Porque ela é a santa que me pariu.
Me conhece...
Aos seis anos também quebrei uma moringa e trouxe água na própria camisa.
Ela nem se espantou.
Naquele ano da graça de não-sei-quanto, minha iluminada mãe pariu-me, como se desse Luz à Luz. Era a minha estréia! E ela em dúvida se me dava ao mundo da luz ou se me dava a luz do mundo. Na superposição de brilhos e loucuras, decidiu que eu seria um sol. Para ela, portanto, não era apenas um filho, era um sol que ali nascia. Primogênito — e de primeira grandeza.
O primogênito é o produto mais poético da primeira tesão na relação de amor.
Nesse aspecto, eu não seria diferente, mas seria em todos os outros.
Dancei nas águas coloridas, mergulhei, naveguei — surfei nas ondas magníficas de um belo mar amniótico. Eu vibrava como um sol recém-nascido numa constelação de gostosuras. Então, ela pediu à parteira e aos demais, que todos saíssem, apagassem a luz, fechassem as cortinas e a porta, fizessem silêncio. Naquele escuro escandaloso que caiu sobre nós dois, fez com que eu brilhasse ainda mais: — sorriu emocionada, colocou as mãos em minha testa, e apenas com esse gesto carinhoso e delicado deu-me de presente, como bênção, meu primeiro grande orgasmo.
— Inesquecível.
(Divino — meu primeiro já foi na cabeça!)
Só pediu-me que guardasse um segredo pelo resto da vida: meu verdadeiro nome.
(Guardei.)
E me deu este apelido que ainda uso: Edson Marques.
(Quando ela estava grávida de mim não lhe cresceu a barriga, porque eu não estava no útero: foi seu coração que me gerou.)
Nunca me disse “está frio, vista blusa...”; nunca me disse: “vai chover, leve uma capa, não esqueça o guarda-chuva...”
Ensinou-me estar atento, para ser livre. Sempre atento.
Jamais controlou-me a hora de dormir, nem quando meu sono já bastasse. Nunca escolheu meus amigos, nem tentou proteger-me de nada que eu estivesse querendo. Jamais me acordou para dar-me comida ou falar-me de fome. Um dia disse: “o cálcio é importante, diminua o açúcar — ou sobrevive sozinho, ou vai perecer, também sozinho”. Nunca me deu proteção demasiada nem verbalizou cuidado excessivo. Jamais precisou dizer-me “te amo,meu filho”, pois eu entendia seus olhares expressivos.
Por não ser possível dar-me o próprio leite, que havia secado em seu peito devido ao susto que levou quando soube que Einstein morrera, dava-me o leite da cabra, chamada Afrodite, que tínhamos no fundo do quintal.
Minha mãe, minha própria Via Láctea.
Foi a primeira mulher que me ensinou a voar, com todas as asas, em todos os sentidos. Jamais quis ter exclusividade sobre mim. Achava que eu e o mundo nos merecíamos. (E nos entenderíamos, eu e o mundo, através do amor). Em alguns raros momentos de fraqueza emocional, quando a razão talvez lhe tenha escapado por instantes, chegou a pedir-me que lhe desse um neto, mas depois viu o absurdo do pedido: filho é um contrato irrescindível.
“Não assine contratos sem cláusulas de rescisão, claríssimas e precisas” — disse-me.
E jamais fazer acordos verbais com pessoas psicologicamente instáveis.
“Lembre-se do escorpião...”
Sempre me alertou:
— No palco da vida, nunca desempenhe papéis trágicos.
"Deixe a paternidade para os reprodutores: sempre haverão de existir, e a espécie não será extinta por tua causa".
Nunca olhou-me com censura nem proibiu-me coisa alguma. Não é elogio de filho hipócrita: é pura realidade. Quem a conhece, sabe. Nunca sentiu ciúmes dos meus amores, nunca interferiu, nem de leve, nos meus relacionamentos: todas as minhas amigas são suficientemente boas para que sejam amadas por mim. Só uma vez disse que uma nossa empregada era "um pouco feia", e que não “merecia” minha atenção. Mas a razão não devia ser estética — era de outra ordem, jamais lhe perguntei qual. Talvez tenha sido a humildade da menina, que viera da roça.
Minha mãe dizia: “Nunca faça amor com pessoas humildes”. Fosse assim a mulher por quem me apaixonasse, primeiro eu deveria, com amor, delicadeza e respeito, arrancar-lhe a humildade da alma, fazê-la crescer, enchê-la de orgulho, transformá-la em deusa gloriosa de si mesma...
E só depois fazer amor com ela — "se for o caso".
De igual para igual...
Deu-me as mil asas da liberdade, e mostrou-me com amor as portas escancaradas do mundo.
Não só as mostrou: sempre ajudou-me a abri-las com entusiasmo.
Olho no olho, disse-me um dia: "Vai! E não me segue!"
Só pediu-me que — em qualquer circunstância — respeitasse muito, e amasse profundamente as mulheres.
— Todas.
(Obedeço-lhe!)
Nada mais belo que ternura de mãe...
Como já disse, tenho agora dois corações:
Um, para amar os meus amores, e outro — só pra mim.
Mas se for contar minha vida vou acabar escrevendo um livro — mais um. E que vai talvez encalhar que nem os outros. É melhor parar, portanto. Se não, vou me foder. Aliás, esse verbo tem sempre dois sentidos: um que vai, um que vem. Depende muito do modo como você o conjuga. Um que vem, outro que vai. E do tempo, da temperatura, do ambiente, do modo. Não importa que chova, ele tem que ser conjugado no presente, continuamente.
Quer saber de uma coisa?
— Acesse www.EdsonMarques.com
O ciúme é o gesto mais pobre de quem teme a Vida.
Restringe.
Sufoca.
E todo comportamento que impede o fluxo do amor, suspende a vida por instantes. Numa relação de amor, toda censura assassina a paixão de certo modo — e massacra a liberdade quase sempre.
Fico pensando no que acabo de pensar:
— Se o ciúme entra pela porta, o Amor sai pela janela!
E se você não gostou — é melhor entender.
Hoje, manhã passarando, bem te vejo e ouço. Hoje a sereia das sete só faz barulho e nada. A vida pensa por mim como se fosse um dilema, mas sei que as possibilidades agora são três. O beco em que meu futuro se meteu parece uma estrela de cinco pontas, cada uma delas me espetando com a lança da saída.
Paulo me ligou dizendo que a Unesco pretende tombar Itararé, patrimônio da Humanidade, pois a região tem formações geológicas monumentais. Além de possuir um dos maiores potenciais turísticos da América Latina. Editaremos um guia de assuntos ecológicos, cujo nome acabei de criair: EcologUia.
E logo viajo na idéia.
Editar um Mapa de Lugares Inexistentes e um Guia de Caminhos Inventados.
Seria um sucesso...
Todo dia preciso começar um romance.
Romance é que nem romance, você sabe. Vira tédio, cansaço — às vezes até rancor. Assim como certos dias você nem quer relar o sexo na tua esposa, eu também me recuso a tocar num dos meus romances antigos. Cansei-me deles, de quase todos. Assim como você deixa tua mulher mofando na cama, enquanto finge assistir a tv, também deixo alguns romances mofando na gaveta, enquanto finjo escrever outros.
Somos iguais, nesse aspecto.
Como você vê, somos uns putos.
Por que não desatamos logo a relação, e livramos os coitados para que possam viver suas vidas? Tua mulher — achar um amante de verdade; e meus romances — um editor que creia neles.
Por isso é que eu começo um romance novo todo dia, das duas formas — pra não virar tédio.
Por que você não faz o mesmo?
Se você não entendeu, é melhor parar.
Eu escrevo só para aqueles que entendem, e escrevo só para quem sabe ler de modo profundo. Não vou gastar sabão em cabeça de burro. O "meio-louco" é sempre "meio-burro". Não dá pra ser meio-louco sem ser, ao mesmo tempo, meio-burro.
Você tem que ser total.
Para um lado — ou para o outro.
Mas você quer recomeçar só a partir da metade.
Retroceder só um pouquinho, um instante, um minuto...
— Não dá!
Todo recomeço tem que ser do zero.
— Absoluto!
Se você não me entende, não posso fazer mais nada:
Porque eu dispenso a compreensão daqueles que não conseguem me compreender. Só busco a compreensão de quem é sensível, e mesmo a falta desta não me fará mudar de idéia no que diz respeito à liberdade e à minha concepção de amor. Facínoras, ditadores e ciumentos podem me crucificar pelo que eu penso. É natural que os brutos não me compreendam. Se ainda estivéssemos na Idade Média eu teria virado churrasco. Já teria sido provavelmente queimado vivo.
É a vida!
Mas antes que o meu barco singre os mares encho-o de coragem e de remos, iço as velas, desfaço planos, jogo a bússola, rasgo todos os mapas e me afundo no desejo de amar.
— Vou criar uma tempestade no coração de vocês!
Sou que nem a formiga, que às vezes não consegue saltar uma gota, mas cai de um arranha-céu sem se ferir!
Edson Marques.
Este livro foi escrito quando estávamos na Espanha. Todas as referências a idades cronológicas dos personagens obedecem às leis daquele país. A versão completa, com oito capítulos, terá 480 páginas, e será reeditada em março ou abril de 2012, pela Pandabooks. Entretanto, uma versão antecipada e reduzida, com 240 páginas, já está à venda pela internet.
Consulte o site www.EdsonMarques.com
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